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Rei dos debates, Fábio Pannunzio critica Record, SBT e RedeTV!: "Respondem ao bolsonarismo"

Jornalista promoveu encontros entre candidatos em SP

Fábio Pannunzio na bancada do jornal da Band
Fábio Pannunzio é apresentador de TV Democracia - Foto: Reprodução
Redação NT

Publicado em 11/11/2020 às 06:05:00

Com os cancelamentos dos debates eleitorais nas principais emissoras do país – com exceção da BandFábio Pannunzio, 59, tornou-se protagonista dos encontros pela web entre os candidatos à prefeitura de São Paulo, principalmente pelo seu canal no YouTube, o TV Democracia. Ele faz uma análise do engajamento das redes sociais durante o período eleitoral e acredita que a internet irá se aprimorar nos próximos anos para alcançar um número maior de eleitores. Em entrevista exclusiva ao NaTelinha, o jornalista acusa Record, SBT e RedeTV! de responderem ao “comando do bolsonarismo”.

“Só a Band manteve a tradição e cumpriu sua parte [de realizar os debates]. No caso da Globo, a soberba deu o norte. Sem poder fazer o debate com o formato que pretendia, decidiu privar o país quase todo da realização de debates. Algumas afiliadas estão fazendo, mas o prejuízo para o eleitor das capitais é imenso. Na segunda linha é muito pior. Record, SBT e RedeTV! respondem ao comando do bolsonarismo. Elas não promovem debates porque os candidatos alinhados com o Planalto não têm consistência e não querem debater. Estão prestando serviço”, opina o apresentador.

Apesar de lamentar o cancelamento dos debates eleitorais, Fábio segue a mesma linha de Silvia Poppovic e não acredita que uma lei obrigando os canais a realizarem os encontros entre os candidatos solucionaria o problema. “Essas empresas não cumprem a lei no que ela tem de mais básico”, observa.

“O Código Brasileiro de Telecomunicações, no Art. 124, determina que o tempo empregado na veiculação de publicidade não poderá exceder de 25% do total. Em algumas redes, o tempo de veiculação comercial supera e muito esse limite, como todo mundo sabe. Sem falar nas faixas inteiras de programação, até no horário nobre, alugadas a igrejas neopentecostais. O que falta é um movimento do público no sentido de repudiar esse tipo de manipulação”, explica.

Por causa da pandemia do novo coronavírus, Pannunzio não considera prudente que os candidatos sejam levados para um estúdio e participem de debates. Mas ele acredita que era possível o surgimento de novos formatos e que a internet poderia ter sido uma grande aliada das emissoras.

“Não há necessidade nenhuma de encarcerar todos num estúdio. Tanto que nós fizemos o nosso debate com cada candidato na sua casa ou escritório. A tecnologia já possibilita isso. A minha experiência com ancoragem à distância foi muito produtiva e gratificante. Hoje, posso afirmar sem medo de errar que argumentar com a necessidade de distanciamento para justificar a não realização de debates é conversa fiada. Se nós fizemos com os nossos recursos, qualquer um pode fazer”, comenta.

“Ela [os canais] não quer que os candidatos debatam. Programas são feitos de casa, telejornais agora só entrevistam por videoconferência. A técnica elas têm, só não têm a vontade de fazer”, completa.

Fábio Pannunzio e seu trabalho na web

Rei dos debates, Fábio Pannunzio critica Record, SBT e RedeTV!: \"Respondem ao bolsonarismo\"

Após 20 anos, Fábio Pannunzio deixou a Band no ano passado e anunciou que iria participar da criação de um canal no YouTube, surgindo o TV Democracia. O espaço se dedica a apresentar conteúdos políticos e os candidatos a prefeito em SP foram convidados para discutirem seus projetos. O jornalista também mediou um encontro virtual entre os políticos promovido pela Universidade Vai Às Ruas.

Mesmo com tantos debates na web, o apresentador reconhece que os produtores de conteúdos de internet enfrentam dificuldades para alcançar um número maior de espectadores por causa da limitação financeira. Contudo, ele se mostra satisfeito com a repercussão dos debates e que terá influência na decisão de muitos eleitores na hora de votar.

“O problema dos pequenos produtores de conteúdo para a internet é que, em certa medida, o YouTube é uma espécie de Uber da comunicação social. É a única big tech que paga pelo conteúdo, mas os valores são irrisórios e não remuneram cadeias muito complexas de produção. O desafio de todo youtuber é a sustentabilidade econômica”, explica.

E acrescenta: “É verdade que a internet ainda não suplantou a TV em alcance. Mas talvez esteja em vantagem em engajamento. O debate que nós promovemos na TV Democracia teve ao menos 350 mil visualizações só no YouTube nos diversos canais em que foi retransmitida. A rigor, isso equivaleria a meio ponto do Ibope. Se somarmos a audiência do Facebook e Twitter, é possível que ultrapassemos meio milhão. É uma audiência ativa, engajada, que gera interações e vai conformar a opinião nas redes de comunicação de massa”.

Futuro da política na internet

Fábio Pannunzio está orgulhoso do trabalho apresentado pelos criadores de conteúdo político e enxerga um grande futuro com o aprimoramento das ferramentes, como o Zoom e StreamYard. “A interface com o usuário facilita tanto as coisas que até leigos podem fazer lives com facilidade”, relata.

“Quando o 5G chegar, vai ficar mais fácil e barato transmitir com qualidade profissional. A experiência do usuário vai mudar de maneira radical. As pessoas vão voltar a querer uma imagem de qualidade na tela, o que implicará mais sofisticação na captação e edição. Isso vai nos forçar a perseguir mais e mais expertise. Quem não entender essa necessidade vai ficar em desvantagem num mercado que é altamente competitivo. De certa forma, já é assim, Por isto, a melhor fase é a que estamos vivendo é agora. Porque a angústia que esse processo de atualização gera só faz tornar mais compensadora cada conquista que a gente crava – como essa, de promover debates tecnicamente corretos -- e necessários, do ponto de vista do conteúdo e da demanda do público por cidadania”, completa.

O trabalho nos debates em 2020 ficou limitado na capital de São Paulo, porque candidatos do Rio de Janeiro não quiseram discutir suas ideias com os concorrentes. “A disposição deles para debater é zero. Os protagonistas do processo estão mais interessados em se proteger da curiosidade do eleitor”, explica.

“Talvez isso ajude a entender como uma mesma cidade pode eleger, ao mesmo tempo, Crivella, Witzel e Bolsonaro. Talvez também ajude a entender como quase dois terços do território foram tomados pela milícia e um terço da população viva acossada entre o tráfico e os milicianos”, dispara.

Fábio Pannunzio revela que a TV Democracia planeja ter um trabalho mais amplo para 2022, quando ocorrerá às eleições presidenciais e para governadores em 2022. “A TV Democracia está se preparando para isto na próxima eleição. Por esta razão o debate que nós promovemos foi uma espécie de laboratório para o que pretendemos fazer em 2022. Só precisamos agora chegar até lá!”, conclui.

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