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Nívea Maria relembra papel de tia abusiva em Sonho Meu: "Me tirou da zona de conforto"

Atriz cita "cenas desagradáveis" na pele da megera Elisa; novela de 1993 volta ao ar nesta segunda (12), no Viva

À esquerda, Nívea Maria em cena da novela Sonho Meu; à direita, a atriz hoje, aos 74 anos
Em Sonho Meu, Nívea Maria interpretou mulher ambiciosa que administra um orfanato - Fotos: Reprodução/Globo
Walter Felix

Publicado em 12/07/2021 às 06:30:00

Em Sonho Meu, novela de 1993 que estreia no Viva nesta segunda-feira (12), Nívea Maria deu vida à ambiciosa Elisa, tia da menina Laleska (Carolina Pavanelli), personagem central da trama. A vilã, que administrava um orfanato e tinha cenas de maldade com as crianças, foi um desafio para a veterana. “Me tirou da zona de conforno”, relata, em entrevista exclusiva ao NaTelinha.

“Vinha sempre de personagens mais calmos, doces, meigos… Com Sonho Meu, tive a oportunidade de fazer uma vilã incomum. Elisa era vilã mais por seu temperamento, pela frustração como mulher. Ela queria ganhar dinheiro, ter uma posição, e tinha um comportamento rígido e até maldoso, abusivo com as crianças do orfanato”, recorda Nívea Maria.

O papel fugiu da imagem das mocinhas românticas, que marcaram seu início de carreira, nos anos 1970. “As cenas da minha personagem eram bem desagradáveis, mas eu adorava fazer, porque me tirou da zona de conforto como atriz. Foi mais um ponto positivo na minha carreira, porque saí do lugar comum. Minha preocupação sempre foi essa: a cada trabalho, trazer algo diferente.”

As lembranças de Sonho Meu também incluem as gravações externas no frio de Curitiba, onde a trama era ambientada. Na época, a atriz mirim Carolina Pavanelli, com apenas 6 anos, chamou atenção da veterana. Nos anos seguintes, a menina fez outros trabalhos na TV, mas acabou seguindo carreira de professora e escritora.

"Nós, atores adultos, ficávamos sempre com muita atenção durante as cenas, porque criança é imprevisível. Era o primeiro trabalho da Carolina e ela se mostrava muito concentrada, nas reações e na atuação. Era muito esperta, muito sensível. Não havia aquela preocupação de fazer sucesso, ser uma estrelinha. Tanto que hoje ela é uma mulher fora da área artística."

Nívea Maria lamenta adiamento de Malhação inédita e pede reprise de Além do Tempo

Nívea Maria relembra papel de tia abusiva em Sonho Meu: \"Me tirou da zona de conforto\"

Vacinada com as duas doses da vacina contra a Covid-19, Nívea Maria segue com trabalhos suspensos por conta da pandemia. Além de filmes e uma peça, ela faria uma participação na série Sob Pressão e se preparava para integrar o elenco da inédita Malhação: Transformação. As gravações da novelinha estão suspensas e não há previsão para retomada.

“Esse convite me deixou muito feliz, porque fiz uma das primeiras temporadas, nos anos 1990. Acho os temas muito interessantes, porque mostram como o jovem está vendo o mundo. Estava muito animada para fazer, adoraria que desse certo. Estou na expectativa do primeiro convite que seja liberado por essa pandemia.”

Com projetos parados, a onda de reprises na TV deu à artista a chance de assistir a antigos trabalhos. Se pudesse escolher um título para a fila de representações, ela é certeira: Além do Tempo (2015), de Elizabeth Jhin. “As pessoas estão buscando muito as novelas das seis. Essa não é uma tão antiga, e seria muito importante para esse momento. É uma história de passagem de tempo, de espiritualidade.”

Na trama, dividida em duas fases, ela interpretou Zilda, uma governanta severa do século 19 que reencarna, na contemporaneidade, como dona de um ateliê. “Gostaria de rever porque faço uma personagem também que não fala muito, é dura, fechada. Ela parece muito distante, mas está mais presente na história do que as pessoas imaginavam.”

Veterana participou de encontros virtuais da Globo para enfrentamento do momento de crise

Nívea Maria relembra papel de tia abusiva em Sonho Meu: \"Me tirou da zona de conforto\"

Nívea não perde de vista o momento de crise para os artistas brasileiros. Além dos trabalhos interrompidos, a classe tem sofrido ataques, muitas vezes por motivações políticas. “Há algumas semanas, a própria Globo propôs encontros virtuais com atores e diretores falando exatamente desse momento e do que podemos prever e oferecer de novo quando voltarmos à atividade”, revela.

Neste momento, ela se queixa de manifestações de entusiasmo e ostentação de alguns colegas nas redes sociais. “O momento não é de mostrar esse lado. A grande maioria das pessoas está sofrendo muito, pelas mortes para a Covid-19, pelas dificuldades em conseguir morar, comer, trabalhar… As pessoas que comandam o nosso país estão muito desligadas, pensando mais no lado material do que espiritual, pessoal. Isso não é falar contra ou a favor de A, B ou C. O que estamos vendo são atitudes de pessoas insensíveis.”

Enquanto não pode voltar ao trabalho, a veterana participa de lives para se sentir mais próxima dos fãs. “A televisão dá uma visibilidade muito grande, e as pessoas às vezes têm umas imagens fantasiosas da gente. É muito bom para mostrar que você é uma pessoa comum e está vivendo dificuldades, como qualquer ser humano em qualquer profissão.”

“Espero que possamos retomar uma dramaturgia que fale de tudo e o público não se sinta agredido”, afirma a atriz

Nívea Maria relembra papel de tia abusiva em Sonho Meu: \"Me tirou da zona de conforto\"

Com mais de 50 anos de carreira, Nívea Maria costuma emendar papéis e não fica muito tempo fora do ar. O mais recente foi em A Dona do Pedaço (2019). “Sou uma atriz muito liberal na escolha dos meus trabalhos. Se o autor e o diretor me convidam, estou sempre disponível. Se fui escolhida, é porque acham que vou ser capaz de criar um personagem como foi idealizado.”

A veterana aponta diferenças entre as tramas do passado e as atuais. “Havia temas que, apesar de desagradáveis, estavam nas novelas de uma forma muito respeito para com o público e, por isso, foram muito bem aceitos. Hoje, algumas tramas refletem a realidade do comportamento humano e são muito criticadas.”

“Espero que, passado esse momento de pandemia, possamos retomar uma dramaturgia assim, em que se fale de tudo, das diferenças, e que o público não se sinta agredido. Embora exista muita gente preconceituosa e defendida, a minha parte eu quero continuar fazendo.”



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