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Nova regra da Globo obriga autores a trabalharem no Globoplay para manter contrato fixo

Autores de novelas vão ter que produzir séries e minisséries

Walcyr Carrasco posa para foto com as mãos nos óculos
Autores da Globo terão de escrever projetos para o Globoplay - Foto: Divulgação
Daniel César

Publicado em 11/11/2020 às 04:00:00

A Globo definiu que não irá manter contrato fixo de nenhum autor exclusivamente para escrever novelas no esquema que acontece atualmente. A partir de agora, para continuar no casting da empresa, será necessário apresentar projetos para o Globoplay enquanto entra na fila dos principais horários das telenovelas, e o número de novelistas será reduzido.

Segundo apurou o NaTelinha, o processo de adequação do Grupo Globo, que vem sendo chamado de Uma Só Globo e que uniu a TV aberta aos canais Globosat e ao Globoplay e que foi responsável por diversas demissões, também vai afetar os autores que forem continuar na emissora. Historicamente, eles costumam entrar no ar a cada três ou até quatro anos e raramente desenvolvem projetos paralelos neste período. Isso vai acabar.

A decisão da cúpula do grupo é de que é importante manter no cast fixo um grupo grande de novelistas por conta da fila das novelas, mas a forma encontrada para criar o que, internamente, se chamou de proatividade, é a obrigatoriedade em apresentar projetos paralelos para o streaming. Isso significa dizer que um autor terá de escrever séries ou minisséries enquanto aguarda sua vez de retornar ao ar num dos horários de novelas da casa.

Fontes ouvidas pela reportagem confirmaram a decisão da empresa e explicaram que isso tem duas motivações. A primeira é custo benefício, já que o Grupo Globo não pretende mais pagar nenhum funcionário para entrar no ar de tempos em tempos e isso vale para todas as áreas, inclusive os novelistas. E a segunda é a intenção de investir pesado no Globoplay e, para isso, será necessário utilizar novos roteiristas, mas também os tradicionais escritores que se consagraram na casa.

A título de exemplo, se um novelista entrar no ar em 2021, assim que sua novela terminar ele terá cerca de dois a três meses de férias. Depois disso, será exigida a apresentação de uma história voltada para a plataforma e que, aprovada, deverá ser produzida para 2022. Logo depois do projeto, o autor voltará a desenvolver uma história para uma das faixas de novelas da Globo a fim de voltar ao ar entre 2023 e 2024, cumprindo assim o círculo pretendido pela direção.

Globo vai manter autores fixos

Nova regra da Globo obriga autores a trabalharem no Globoplay para manter contrato fixo

O Grupo Globo estava cogitando trabalhar com novelistas por obra, assim como já vem fazendo com a maioria de seus artistas na dramaturgia, mas a ideia não foi adiante por algumas razões importantes. A principal delas é que a cúpula da empresa entendeu que há uma dinâmica muito diferente entre novelistas porque o prazo é bastante diferente.

O NaTelinha apurou que documentos internos indicam que será necessário manter vários novelistas e não apenas os medalhões porque só é possível organizar uma fila que indique ao menos três produções consecutivas - o mínimo necessário para trabalhar nos Estúdios Globo - para cada horário, se torna inviável sem autores com contrato fixo. A decisão passou pelo fato de que nenhum profissional ficaria esperando chegar sua vez enquanto não recebe salário e isso poderia criar um problema sério na organização.

Além disso, há o entendimento que a legislação brasileira poderia atrapalhar. Diferente dos EUA, em que um autor somente começa a ganhar depois que o projeto é vendido e não recebe pela concepção da sinopse, no Brasil isso poderia gerar processos. A direção da Globo concluiu que a sinopse não é suficiente para aprovar um projeto e pode ser necessário ajustes, além da criação de, pelo menos, um bloco semanal de capítulos, o que acarretaria em vínculo empregatício.

Globo quer autores no Globoplay

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Por causa disso, o Globoplay vai ser beneficiado, já que a empresa chegou a conclusão que não faz muito sentido utilizar seus autores em projetos menores para o Globosat, que tem investimento muito abaixo das novelas. Para isso, a intenção é que se crie uma roda de diversas produções sendo feitas para o streaming ao mesmo tempo todos os anos.

Neste momento, no entanto, a Globo não vai aceitar projetos de novelas para seu serviço de streaming. Embora haja a intenção de produções como a de Verdades Secretas e até remake de novelas antigas, como Beto Rockfeller, a ordem interna é para somente focar neste tipo de projeto quando houver encomenda. Os novelistas da casa estão avisados que projetos para o Globoplay devem ser apresentados em séries ou minisséries.

Globo já usou autores para produções

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Embora os novelistas agora terão de apresentar projetos voltados para o Globoplay, o uso de novelistas para outros projetos na dramaturgia não chega a ser uma novidade, apesar da obrigatoriedade seja inédita. Desde os anos 90, os autores podiam apresentar outros projetos, como aconteceu com Gloria Perez, que escreveu minisséries como Hilda Furacão (1998) e Dupla Identidade (2015).

A reportagem apurou que os contratos dos roteiristas previam a possibilidade de se escrever projetos além de novelas. É o caso de João Emanuel Carneiro, que entre A Favorita (2008) e Avenida Brasil (2012) foi responsável por A Cura (2010), mas que não ganhou segunda temporada porque o novelista deveria se voltar para a sinopse de seu próximo trabalho no horário das 21h. Depois, ele esteve ainda em A Regra do Jogo (2015) e Segundo Sol (2018), sem apresentar nenhuma minissérie ou série para o canal.

Procurada pelo NaTelinha, a Globo não respondeu até a publicação da matéria.

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