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Remake ou releitura?

Por que o remake de Sassaricando virou Haja Coração na Globo

Novela de Daniel Ortiz sofreu algumas alterações importantes

Montagem com Haja Coração e Sassaricando
Novela Haja Coração é uma releitura de Sassaricando - Foto: Montagem
Daniel César

Publicado em 22/10/2020 às 05:35:00

Em 2016, a Globo anunciou uma releitura de Sassaricando, sucesso de Silvio de Abreu em 1987 e que seria reescrita pelas mãos do pupilo do autor, Daniel Ortiz. A trama está no ar em reprise na faixa das sete por causa da pandemia do coronavírus, mas diferente de outras produções que tiveram remake na última década, dessa vez a emissora carioca optou por não manter o título original da obra, mas batizá-la com outro nome, Haja Coração. Ainda que o canal não considere a história um remake, mas uma nova leitura por conta das mudanças nos personagens, a justificativa não cola e o NaTelinha mergulhou no assunto para entender as razões que fizeram o folhetim mudar de nome na versão moderna.

Oficialmente, a justificativa para a mudança de nome da novela aconteceu por causa das alterações no fio condutor da história. Em entrevista em 2016 para o UOL, o autor Daniel Ortiz explicou que não se tratava de um remake, mas de uma releitura. "Mudamos o eixo central para o núcleo jovem e demos o protagonismo para a Tancinha", contou ele, mostrando que havia outras diferenças entre a obra original.

Internamente, a própria Globo tratou do assunto por conta do sentido da palavra. A novela foi batizada de Sassaricando devido ao saçarico de Aparício (Paulo Autran) e suas três mulheres. Embora a palavra significasse dançar, se divertir, na história de Silvio de Abreu a conotação era de cunho sexual do protagonista da narrativa. A emissora carioca tratou de explicar que a gíria não faria sentido nos dias atuais, mas não é bem assim.

Segundo o professor Lucilo de Almeida, mestre em Linguística pela UNESP, a expressão "saçarico" é estranha neste sentido. "Nos anos 80 já não era comum utilizar a palavra saçarico, que é bem antiga. Na verdade, a novela resgatou a expressão e a tornou um fenômeno utilizado pela população, mas com uma nova conotação, já que ninguém utilizar saçaricar com o objetivo sexual", justificou.

Para ele, se a Globo conseguiu lançar mão de uma gíria abandonada naquela época, seria plenamente possível repetir o feito nos tempos atuais. "É bem verdade que as redes sociais mudaram um pouco o sentido das gírias e até o modelo de escrita, mas é possível resgatar a linguagem, principalmente por meio da telenovela que tem um apelo muito grande", salientou em conversa exclusiva com o NaTelinha.

Haja Coração é Sassaricando

Embora Daniel Ortiz negue, Haja Coração é um remake de Sassaricando e, por mais que ele lembre as diferenças, em termos técnicos não há como ser dado outro nome. Paulo Irikura, diretor de teatro, explica a situação. "O ponto de partida é o mesmo, os conflitos são os mesmos e os personagens são os mesmos. Se a nova roupagem deu finais diferentes ou até pequenas mudanças nas características não dá para dizer que é outra novela. É uma releitura moderna, mas não deixa de ser um remake", frisou ele lembrando que este caso não é o único.

Irikura comentou que Ti-ti-ti, exibida em 2010, foi bem diferente da versão de Cassiano Gabus Mendes em 1985 e até juntou com outra trama do mesmo autor, Plumas e Paetês (1980). Outra menção do diretor de teatro e especialista em dramaturgia é o remake de Anjo Mau (1997), que mudou a personalidade da protagonista. "Quase sempre há atualizações em remakes, mas eles não deixam de ser a obra original", enfatiza.

Por que Haja Coração não chamou Sassaricando

O NaTelinha conversou com duas pessoas do Fórum de Dramaturgia da Globo para questionar os motivos da mudança do nome da novela e a resposta foi uma só: afastamento da obra original. Embora Sassaricando tenha sido um sucesso retumbante, o saçarico de Aparício foi completamente rejeitado na primeira versão da novela e a história chegou a perder espaço em dado momento.

Para evitar comparações antes da novela estrear e o risco de rejeição do público, Daniel Ortiz recebeu orientação de Silvio de Abreu, autor da original e atual diretor de dramaturgia da Globo, de colocar Tancinha (Mariana Ximenes) como a verdadeira protagonista da nova história. Diante disso, foi decidido pela mudança do nome para afastar comparações, como o que aconteceu no remake de Guerra dos Sexos (2012/2013), um fracasso retumbante, embora tenha se baseado na obra original dos Anos 80 e considerado um dos grandes sucessos da faixa das sete.

Como Haja Coração ou Sassaricando, a trama de Daniel Ortiz teve audiência satisfatória em 2016, terminando com média de 27,5 pontos. Com oito capítulos exibidos, a reprise aparece com média de 26,2, abaixo da exibição original e também de sua antecessora Totalmente Demais, que fechou com 29,5 pontos, uma das maiores audiências da década no horário. Mesmo assim, apresenta sinais de crescimento.

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