Quarta Parede

Com troca-troca, tramas amorosas de Amor de Mãe perdem o rumo

Sucessivos encontros e desencontros românticos tornam personagens volúveis e seus sentimentos, pouco críveis

Com troca-troca, tramas amorosas de Amor de Mãe perdem o rumo
Em Amor de Mãe, Betina vai superar Magno nos braços de Sandro - Foto: Divulgação/Globo

Publicado em 17/03/2020 às 07:00:00

Por: Walter Felix

Amor de Mãe segue sendo um ponto fora da curva no horário nobre da Globo. A novela assinada por Manuela Dias mostra fôlego incomum, sempre com acontecimentos relevantes, ancorada por ótimo texto e pela direção inspirada de José Luiz Villamarim. Para manter o ritmo, contudo, a autora tem apostado em um verdadeiro troca-troca de casais: personagens terminam relacionamentos na mesma rapidez com que se apaixonam novamente.

Betina (Isis Valverde), por exemplo, conseguiu se desvencilhar do ex abusivo, Vicente (Rodrigo Garcia), esteve apaixonada por Magno (Juliano Cazarré), deu uns beijos em Davi (Vladimir Brichta) e agora está caidinha por Sandro (Humberto Carrão). Este último se revelou apaixonado por Érica (Nanda Costa) em um capítulo para dar um toco na moça na semana seguinte.

Raul (Murilo Benício) é outro em alta rotatividade. Largou Lídia (Malu Galli) por conta de seu caso com Estela (Letícia Lima), mas se apaixonou por Érica e a abandonou para reviver o amor do passado com Vitória (Taís Araujo), A advogada, por sua vez, começou casada com Paulo (Fabrício Boliveira), engravidou de Davi, mas o romance não resistiu aos ideais do ambientalista.

Nos próximos capítulos, novos casais vão se formar - alguns bem inusitados. Entre eles, a proximidade entre Betina e Sandro soa aleatória e foge do que os personagens mostravam há poucos capítulos: ela era perdidamente apaixonada por Magno, enquanto ele só tinha olhos para Érica. O filho de Lurdes, aliás, será seduzido por Lídia.

Idas e vindas dificultam torcida por casais de Amor de Mãe

Os personagens de Amor de Mãe não só trocam de pares com facilidade como rapidamente se desvinculam dos antigos relacionamentos para investir de cabeça no parceiro da vez. É difícil torcer por Raul e Vitória, um casal que não enfrentou nenhum grande conflito para ficar junto. O amor entre eles, que vem do passado, não foi construído aos olhos do telespectador, o que também dificulta a torcida pelo romance.

Nesse caso, semelhante ao que ocorre nos demais, parece que a história só tem dado voltas para que, ao final, a advogada volte para Davi e o empresário reate com Érica, já que esses casais tinham mais química, histórias sólidas e bem construídas. Os sentimentos dos dois personagens eram mais verossímeis junto a seus parceiros iniciais, mas o roteiro não dá sinais de que esses romances serão retomados.

Parece incrível, ainda, que Magno tenha abandonado Betina depois de o casal ter superado barreiras bem maiores que a repentina disparidade social entre eles. A ex-enfermeira relevou o envolvimento do frentista na morte de seu irmão, por exemplo. O affair da moça com Sandro, por outro lado, surgiu do nada e não causará surpresa se chegar ao fim em igual celeridade.

Competência da autora em outras frentes ameniza o problema

É compreensível que, como ocorreria na vida real, personagens adultos troquem de pares até que encontrem o ideal. Na novela, contudo, aparentes grandes amores são descartados por motivos, por vezes, banais. Releva-se que o troca-troca ocorra no mesmo círculo de personagens, já que tais coincidências se estendem à toda a novela; limitar a ação àquele grupo de pessoas é parte da proposta da autora.

Novos interesses românticos, sem razão de existir e em nada acrescentando à narrativa, têm surgido como meros combustíveis para que as tramas não fiquem estagnadas. Cabe questionar, por exemplo, o porquê de Betina e Davi terem trocado beijos há alguns meses, já que os personagens tomaram rumos diferentes e, pelo visto, dificilmente voltarão a contracenar. Serviu unicamente como rusga, à época, para o relacionamento dele com Vitória. A artimanha torna os personagens volúveis e seus sentimentos, pouco críveis.

Se há um contemporizador nesse caos afetivo é a competência da autora em outras frentes. Manuela Dias consegue manter o interesse em suas tramas, ainda que o excesso de coincidências e a fugacidade dos romances incomode. Defendidos por bons atores e com ótimos diálogos, os personagens trazem alguma verdade, mas não demora muito para que as idas e vindas amorosas coloquem isso a perder.

A continuidade ou não desses romances, porém, deve demorar, já que as gravações da novela foram paralisadas por tempo indeterminado por conta da pandemia do coronavírus. A exibição de Amor de Mãe entra em hiato a partir do próximo sábado, 21 de março.




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