Impeachment deixa Globo mais tempo ao vivo do que no 11 de setembro

Record também acompanhou toda a votação; SBT foi o único a ignorar

Foto: Agência Brasil

Publicado em 18/04/2016 às 10:05:21

Por: Lucas Félix

A histórica votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), que aconteceu neste domingo (17) na Câmara dos Deputados, é repleta de números superlativos muito além dos 367 votos favoráveis ao encaminhamento do processo ao Senado.  

Na televisão, os dados também são impressionantes. Foram 491 minutos consecutivos sem interrupção de cobertura ao vivo na Globo, sendo a maior parte deles em faixa nobre no mais importante dia da semana. Esse tempo não foi em vão. No momento de maior audiência da noite, foram 37 pontos sintonizados apenas na emissora na Grande São Paulo. Ou mais de 7 milhões de lares.

O número é superior ao total de manifestantes que saíram nas ruas em 13 de março, data da maior mobilização popular contra o governo. Segundo os organizadores, nesse dia foram 6 milhões e 800 mil de pessoas envolvidas em protestos a favor do impeachment espalhados por todo o país. Para a PM, o número é de 3 milhões e 600 mil, ou seja, metade da plateia global na noite de ontem.
 
A cobertura foi iniciada cedinho, ainda nos intervalos. Às 9h22, William Bonner fez sua primeira intervenção, mostrando plenário e ruas ainda vazios. Ele retornou por várias vezes dentro do “Esporte Espetacular” e do “SuperStar” para fazer novos giros, marcados por confusões de identificação dos repórteres chamados.

As reuniões populares, porém, decepcionaram. Uma grande estrutura foi armada para mostrar os movimentos de ambos os lados, porém os partidários não repetiram nem de longe suas melhores performances em termos de aglomeração. A dificuldade em estabelecer a imparcialidade nesse contexto engessou a cobertura e tirou um pouco do seu dinamismo.

A missão de exibir as duas correntes foi cumprida, porém a obrigatoriedade de dosar isso a cada instante limitou eventuais esticadas em links que rendessem mais, por exemplo. Uma das poucas extensões foi quando Bonner questionou Vladimir Netto, de Brasília, sobre o significado da palavra “baculejo”, usada para se referir ao procedimento adotado pelos policiais para revista dos indivíduos.

Justiça seja feita, o time brasiliense não decepcionou. Os mais perdidos estavam mesmo nas praças, enquanto os nomes do primeiro time na capital federal demonstravam maior precisão em suas entradas.

O problema é que sem uma retaguarda com VTs que refizessem a trajetória do processo ou explicassem o andamento do rito no dia, o “pré-jogo” beirou o tédio na maior parte do tempo. Por exemplo, Heraldo Pereira e Alexandre Garcia, ao vivo do plenário, tal qual em 1992 no impedimento do então presidente Collor, ficaram divididos a barulheira emitida pelos deputados e as constantes interrupções de Bonner, que encarnou Fausto Silva na ausência inédita do original.  

Sim, o “Domingão”, que foi ao ar em outros domingos históricos, como os das mortes de Ayrton Senna e dos integrantes da banda Mamonas Assassinas e também nos dias do tetra, do penta e da final da Copa do Mundo no Maracanã, dessa vez não resistiu. Acabou limado, assim como a exibição dominical do futebol. Em algumas praças, como São Paulo, a emissora até conseguiu adiantar a exibição dos jogos para o sábado. Mas na maior parte da rede, que acompanha o Campeonato Carioca, a exibição da derradeira rodada da Taça Guanabara não foi possível.  

Os lances que agitaram a tela a partir das 15h39 emanavam mesmo era do Congresso Nacional. E no momento em que foi iniciada a votação em si, fez-se um silêncio sepulcral, difícil de acontecer nos gramados. O sinal da TV Câmara foi retransmitido com a simples adição de caracteres próprios.

Nenhuma intervenção de Bonner foi ouvida até o instante da “prorrogação”, quando já eram precisas poucas dezenas de votos para a aprovação do impeachment e o placar entrou em contagem regressiva. E a emissora pública também estava interessada em aparecer para a audiência. Seu logotipo inicialmente tapado por um dos GCs globais acabou rapidamente indo parar do outro lado da tela.

Essa sobriedade foi um problema, porém. Ao deixar Eduardo Cunha livre com o microfone, a emissora perdeu a chance de diferenciar se quem votava era uma surpresa ou uma certeza... Figuras de peso político, como ex-ministros e líderes partidários, passaram ao olhar do telespectador comum da mesma forma que coadjuvantes de fato.

Para se destacar nesse clima, só mesmo o palhaço Tiririca, a figura mais ovacionada da noite no circo do Congresso. Outros nomes reconhecíveis ao telespectador de todo o país foram os de Jean Wyllys e Celso Russomano. E se o contratado da Record não usou o espaço para manifestações sobre suas preferências televisivas, o mesmo não pode se dizer do cabo Daciolo, deputado do Rio de Janeiro.

O parlamentar vociferou “fora Rede Globo” sem explicar muito bem seus motivos. Fato é que mostrou pouco entender de TV. Enquanto falava suas palavras de ordem olhando para os profissionais do canal que estavam presentes no local, ele se virou de costas para as câmeras, proferindo boa parte do discurso sem ser visto pelo público.

Às 23h07, passadas as maiores confusões, enfim Bonner cravou, logo após o voto de número 342 no sim: “a Câmara acaba de autorizar o prosseguimento do processo de impeachment”. A partir desse momento, a tela foi finalmente dividida com as concentrações populares, que depois de uma rápida euforia, começaram a se esvair antes mesmo do término da votação, acompanhada integralmente pela emissora, mesmo após a definição do resultado.
 
Só meia hora depois, às 23h49, o especial, exibido sem nenhuma interrupção comercial, chegava ao fim. Foram oito longas horas em que a sobriedade imperou, deixando um tom quase que de funeral do governo Dilma. Esse período supera outros momentos que entraram para história. Em 30 de agosto de 2001, foram seis as horas ininterruptas de cobertura do sequestro do apresentador Silvio Santos. 12 dias depois, nos atentados aos Estados Unidos, o tempo foi menor ainda: cerca de cinco horas.

Na eleição do papa Francisco e em eventos da Jornada Mundial da Juventude, assim como no Casamento Real, o tempo padrão contínuo foi em torno de duas horas. Recentemente, apenas coberturas locais se equivalem em duração, mas com alcance bem inferior ao Plantão nacional presenciado neste domingo: a ocupação do complexo do Alemão por forças policiais em 2010 foi acompanhada também por cerca de oito horas pela Globo Rio.

Já a Globo Nordeste até superou esse tempo: ficou praticamente 10 horas acompanhando o sepultamento do ex-governador pernambucano Eduardo Campos.

Curiosamente, após o voto que cravou a aprovação do pedido, o ex-presidenciável do PSB foi maciçamente citado. Explica-se: a votação era revezada entre as unidades da federação, cabendo naquele momento a fala aos parlamentares de Pernambuco.
 
Na sequência desse momento, o “Fantástico” prolongou em cerca de 60 minutos a programação contínua ao vivo. O dominical teve boas matérias, mas não conseguiu se fazer histórico. Cumpriu seu papel, como em ótima reportagem de Gioconda Brasil detalhando o caminho para o processo andar no Senado Federal, porém o factual foi pouco impactante.

Mesmo o encerramento, que mesclou imagens de protestos e da votação, foi curto, sem força para comover.

O saldo do dia na Globo foi nessa linha: prioridade ao jornalismo e boa estrutura, mas com um sabor insosso, seja por precaução para não ser acusada de partidarismo, seja pela limitação do tempo.

Na Record, Gottino e Adriana brilham em meio aos problemas técnicos
 
A Record acertou a mão ao escalar uma dupla habilidosa para coberturas ao vivo. Em um boletim aproximadamente de duração similar ao global (começou e terminou pouco antes), Reinaldo Gottino e Adriana Araújo formaram uma boa dobradinha.

As falhas técnicas foram várias, é verdade, como o vazamento dos bastidores de um link no Rio de Janeiro e a confusão até se acertar o sinal da TV Câmara, que foi exibido de diversas formas.
 
Também é de se lamentar a ausência de um simples link em alta definição de Brasília. Por melhor que fosse a informação a ser passada por Eduardo Ribeiro e Christina Lemos, a imagem dela vinha em qualidade duvidosa. Mas boas ideias suplantaram isso, como o acompanhamento comentado dos votos de ponta a ponta e a divisão de tela entre os discursos e a reação a eles nas praças.

Mais bem sacado ainda: não se optou em ficar apenas em Brasília ou São Paulo, cidades que reuniam os maiores grupos. Em diversas ocasiões, se dividia a imagem entre as falas dos parlamentares de determinado estado com a reunião popular na sua respectiva capital.

O efeito desse recurso deu um ar diferente do padrão que era visto em praticamente todas as outras redes durante as zapeadas.  

O “Domingo Espetacular”, porém, terminou a noite conseguindo ser ainda mais frio que o seu concorrente direto. Pouco parecia estar em um dia de tamanha relevância.

Outras emissoras
 
A Band se destacou pelo lado analítico, ouvindo cientistas políticos, por exemplo. Ricardo Boechat dispensa comentários sobre seu traquejo. O único revés foi a identidade visual totalmente adaptada do “Jornal da Band”.

A ideia de “copiar” o telejornal diário como padrão para uma cobertura especial fez com que ela parecesse banal. Valia o esforço de desenvolver uma estrutura especial para o momento.
 
A RedeTV! novamente cumpriu bem seu papel durante a votação, já que nos momentos anteriores se limitou a boletins. A emissora talvez seja a que tenha feito maior esforço em prol da notícia. Protelou o “Encrenca”, sua audiência número 1, para exibir a votação de ponta a ponta. Louvável.

Quem dera que o exemplo tivesse sido seguido pelo SBT... Cumprindo ordens do dono, a emissora nem mesmo flashes fez ao longo do dia. Surpreendentemente, porém, o programa do patrão foi cortado na “hora H” para um boletim relâmpago de um minuto. E diga-se que a atração interrompida foi uma pegadinha, não uma fala do próprio Silvio Santos.
 
Quando pode ocupar o espaço, o jornalismo do SBT não fez feio. Roberto Cabrini, adentrando pela madrugada, fez boa apresentação do “Conexão Repórter”.

Como curiosidade, o canal assim deixou de passar os votos dos dois genros de Silvio que são deputados federais, Guilherme Mussi e Fábio Faria. Ambos votaram pela admissibilidade do impeachment.

Nos estados...

De ponta a ponta do país, até canais regionais tiveram esquemas pitorescos em suas grades.

A TV Meio Norte, do Piauí, dividiu tela entre um jogo do campeonato estadual e a votação do impeachment. A maior imagem mostrava a bola rolando e o placar com os gols e o tempo de partida, enquanto no canto era retransmitida a TV Câmara, que era também a “dona” do áudio.

Ou seja, o futebol foi mostrado, mas não narrado. Não fez falta, já que o placar entre River e Flamengo (as versões locais, não as da Argentina e do Rio de Janeiro) terminou em 0 a 0.

No Rio Grande do Sul, a TV Pampa, afiliada da RedeTV!, também optou em diversos momentos por retransmitir a TV Câmara diretamente. E sem dividir espaço com mais nada. O procedimento vinha sendo feito ocasionalmente desde o começo dos discursos na sexta-feira (15).

 


O colunista Lucas Félix mostra um panorama desse surpreendente território que é a TV brasileira. Ele também edita o http://territoriodeideias.blogspot.com.br e está no Twitter (@lucasfelix)



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