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"Ligações Perigosas" tenta ser universal, mas escorrega em manias locais

Estação NT analisa caprichada minissérie da Globo

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Fotos: Divulgação/TV Globo
Redação NT

Publicado em 05/01/2016 às 14:06:28

Firme na sua tradição de começar a primeira semana do ano fisgando o telespectador com teledramaturgia de qualidade, enquanto a concorrência ainda se ocupa de reprises, a Globo lançou nesta segunda-feira (4) a minissérie “Ligações Perigosas”, baseada no romance francês homônimo de Choderlos de Laclos, publicado com escândalo no século 18 ao retratar os jogos sexuais da aristocracia.

O enredo, já adaptado inúmeras vezes para o cinema, o teatro e a TV internacionais, parece ser uma aposta segura nos rumos que a emissora carioca projeta há alguns anos, de olho no mercado global de televisão. A direção de arte cada vez mais cuidadosa, a linguagem próxima do cinema, as histórias menos locais e mais focadas nos temas universais de desejo, poder, sensualidade e etc colocam a teledramaturgia do canal em um cenário mais amplo e ambicioso, mas não sem desafios.

Com estes objetivos em mãos, a nova “Ligações Perigosas” se localiza no Brasil da década de 1920, sem grandes marcações de tempo ou de espaço.

Ambientada em uma cidade portuária fictícia, cujas cenas filmadas na Argentina e no Uruguai retiram qualquer sinal tupiniquim da tela (incluindo a iluminação fria, os figurinos em claro-escuro, a textura cinematográfica da tecnologia em 4K), a minissérie mostra a cumplicidade da marquesa Isabel (Patrícia Pillar) e do visconde Augusto (Selton Mello) em corromper a ingênua Cecília (Alice Wegmann), noiva de um amante de Isabel. Ao mesmo tempo em que embarca na aposta da marquesa, Augusto se apaixona pela carola Mariana (Marjorie Estiano), e é nesta teia de dissimulações sociais e sexuais que a trama, fiel ao livro, se desenrola.

A dificuldade a ser contornada em adaptar a obra de Laclos para o audiovisual é não desmontar a sutileza do enredo, construído pelas cartas trocadas pelos personagens, característica que destaca as ações e intenções dos envolvidos. Na TV, a imagem desvia o foco para os gestos e torna tudo explícito, cabendo a quem adapta a trama não cair nesta armadilha.

Manuela Dias, roteirista de “Ligações Perigosas”, antes colaboradora de Duca Rachid em “Cordel Encantado” (aqui supervisora de texto), junto com o diretor Vinícius Coimbra (de “Lado a Lado”), cria imagens interessantes, como as lembranças de Isabel durante a juventude no internato sobrepostas à sua narração, mas derrapa em clichês que empobrecem o quadro geral e mostram pouca confiança no telespectador, como a inexperiência de Cecília ao treinar o beijo em uma colega de internato, e o monólogo religioso de Mariana durante um ritual de lava-pés.

Esta falta de confiança é algo que os autores brasileiros, comparados aos seus pares estrangeiros, parecem não superar.

Sobre o elenco, é uma surpresa rever Selton Mello na televisão após sua dedicação por anos ao cinema, enquanto aproveitar Patrícia Pillar e Marjorie Estiano, recém saídas de trabalhos recentes no horário nobre, parece arriscado. Ao querer ser universal, “Ligações Perigosas” precisa tomar cuidado para, no capricho com a produção, não sacrificar o conteúdo, o entregando de bandeja para o público, que já provou e aprovou a história original há séculos.
 

Ariane Fabreti é colunista do NaTelinha. Formada em Publicidade e em Letras, adora TV desde que se conhece por gente. Escreve sobre o assunto há sete anos.

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