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Demitido em cinco minutos

Ari Peixoto analisa volta à TV e conta decepção com demissão da Globo: "Surpresa"

Repórter trabalhou 34 anos na emissora, foi correspondente e participou de coberturas importantes


Ari Peixoto durante uma reportagem externa para a Globo
Ari Peixoto comenta surpresa com demissão da Globo após 34 anos - Reprodução/Globo
Por Marcela Ribeiro

Publicado em 02/02/2022 às 07:31:32,
atualizado em 02/02/2022 às 09:21:01

Após 34 anos de Globo, com coberturas importantes ao longo da carreira, que inclui o trabalho de correspondente na Argentina e Oriente Médio, Ari Peixoto foi demitido da Globo em outubro de 2021. Em entrevista ao NaTelinha, o repórter admite que foi surpreendido com a forma que foi dispensado pela emissora após tantos anos.

"Minha demissão foi uma surpresa. Eu não esperava porque estava e estou em plena produtividade. Trabalhei 483 dias em home office, fiz mais de 100 matérias daqui de casa, para a rede e para os jornais locais, fiz entradas ao vivo da sala da minha casa, feitas pelo celular", explica ele que contava com a ajuda da mulher, a jornalista Káthia Mello, que fazia a função de câmera usando as ferramentas de vídeo disponíveis.

"A forma como eu fui demitido é que me deixou decepcionado. Fui chamado à sala do diretor da Editoria Rio e, em cinco minutos, estava demitido".

Em sua carta de despedida da emissora, o jornalista escreveu que costuma dizer que se casou duas vezes em 1987: em abril, com a Globo, e cinco meses depois, com a mulher, Káthia. Ari de fato viveu as últimas três décadas para o trabalho e garante que não se arrepende de nada.

"Quando você trabalha numa grande empresa como a Globo, e faz o que mais gosta na vida, o pessoal e o profissional meio que se mesclam... Houve épocas em que eu passava mais tempo, mas muito mais mesmo, na redação do que em casa. E a vantagem de ser casado com uma jornalista alivia este lado, porque ela entendia a situação, sempre entendeu", conta ele.

Nos dez primeiros anos na Globo, Ari Peixoto era repórter local, fazia os telejornais locais, e um ou outro de rede, geralmente o Jornal Hoje e o Bom Dia Brasil, só depois que ele fez entradas no Jornal Nacional e revela sua rotina puxada de trabalho com carga horária que ultrapassava muitas vezes 10 horas diárias.

"No início não entrava no JN, que é a aspiração de todo repórter que chega à Globo. A partir de 97, 98, quando me tornei repórter de rede, aí sim começou a fase de muito trabalho, 10, 12, às vezes 14 horas dentro da emissora. Porque uma das regras do Jornal Nacional é que o repórter só pode ir embora depois que o texto foi aprovado pelo editor-chefe e a reportagem editada; e isso às vezes demorava, só acontecia ali pelas cinco, seis da tarde... imagina você ter entrado às 6 da manhã para fazer uma operação policial e ter que esperar até as oito da noite para poder ir embora", recorda.

Apesar de toda correria e cansaço, o repórter não reclamava e admite que curtia bastante a ralação diária, que incluía ainda escalas de plantões aos fins de semana e feriados.

"Nada disso era problema, eu ia embora cansado, mas feliz por ter cumprindo mais uma etapa da minha vida. Porque eu adoro jornalismo, é como o ar que eu respiro, e sempre fui fiel a uma frase que diz: 'se você faz o que gosta, então você não vai trabalhar nem um único dia na sua vida...' ".

Aos 65 anos, Ari reforça em vários momentos que se encontra plenamente ativo e com disposição de sobra para trabalhar e estuda propostas de outros canais. Por isso, não deve demorar muito para o público revê-lo em suas reportagens na TV.

"Sou jornalista raiz, tenho tesão na notícia, e onde ela estiver, eu vou querer estar. Seja na rua ou num estúdio, eu ainda me sinto plenamente capaz de desenvolver um bom trabalho, ao nível do que sempre fiz. Recebi algumas propostas desde a minha saída. Estou em fase de negociações".

Ari Peixoto precisou raspar barba para seguir "padrão Globo"

Ari Peixoto analisa volta à TV e conta decepção com demissão da Globo: \"Surpresa\"

Ari foi chamado para trabalhar na Globo em abril de 1987, depois de trabalhar três anos na TVE, mas com uma condição, deveria tirar a barba.

"Quando fui levar uma fita com reportagens minhas, ela foi analisada pela chefia de redação e pela Alice-Maria (diretora da Central Globo de Jornalismo). Todos gostaram do meu trabalho, e decidiram pela minha contratação, desde que eu tirasse a barba", explica ele, que concordou com o pedido para seguir o padrão Globo.

"É que nesta época, o padrão Globo de qualidade era alto, ao contrário de hoje. Naquela época, a gente subia favela de paletó e gravata, e ai de quem tirasse, a Alice comia o fígado da gente (risos). Depois, este código foi relaxado e a gente passou a usar blazer, e depois, quando eu voltei da correspondência no exterior, vi que camisa social era o bastante... Confesso que custei a me adaptar", conta.

O jornalista não sabe dizer bem o que motivou a mudança, mas acredita que pode ter sido para aproximar os profissionais do telespectador ou por conta do calor tropical do país.

"Claro que em ocasiões especiais, como a cobertura do presidente, ou cerimônias mais tradicionais, a gente usava paletó e gravata. Mas no dia-a-dia, talvez a camisa social com jeans seja mesmo a mais adequada".

Em sua longa trajetória, Ari não consegue eleger uma reportagem preferida, mas cita algumas que marcaram sua carreira. "Seria injustiça nomear a reportagem mais gratificante ou a mais difícil, é meio como que escolher o filho mais bonito ou o mais problemático... Mas no geral, posso dizer que reportagens que surtiam efeito na vida prática das pessoas são sempre gratificantes", conta.

Um exemplo foi quando ele entrou na clínica de idosos chamada Santa Genoveva, em 1996, que ficava em Santa Teresa, no Rio de Janeiro, após denúncia de que ela registrou a morte de 100 idosos após ingerirem água contaminada e comida estragada.

"A imprensa, quando a notícia vazou, ficava de plantão na porta, mas a gente não podia entrar. Só que, conversando com uns moradores da região, acabei descobrindo que havia um meio de entrar na clínica, por uma das laterais do prédio. Fizemos isso. E explico que não me senti um invasor. Estava correndo atrás da notícia, que estava no interior da clínica, e o nosso acesso era negado. Entramos, fizemos imagens, mostramos o caos que reinava na clínica, entrevistamos parentes, funcionários e a reportagem entrou no JN", recorda.

No dia seguinte, o ministro da Saúde da época, Adib Jatene, veio ao Rio e decretou o fechamento da clínica, com a transferência dos pacientes.

"Isso é um alento, uma mostra pequena de que podemos melhorar a vida das pessoas. Com relação às matérias mais difíceis, foram sempre aquelas em que houve risco de vida, não só da minha, mas de outros integrantes da equipe, como por exemplo, em tiroteios entre policiais e criminosos".

A queda do vôo que levava o time da Chapecoense, além de dirigentes e jornalistas para a final da Copa Sul-Americana,em 2016, fez com que Ari Peixoto se emocionasse ao vivo no Jornal Hoje.

"Foi uma das coberturas mais difíceis da minha vida. Sabe, existe uma máxima que a gente aprende cedo nas redações da vida, de que repórter não se envolve emocionalmente com o teor da reportagem. Eu já tinha passado por momentos difíceis, na cobertura de terremotos, na Primavera Árabe, morte de ídolos. Mas naquele vivo, especificamente, foi difícil segurar a emoção, porque eu falava sobre colegas de trabalho que tinham morrido no acidente. Foi uma barra muito pesada e ainda hoje o assunto mexe comigo".

Ao todo, 71 pessoas morreram no trágico acidente aéreo. Além da dor de ter perdido colegas de profissão, a queda do avião resgatou a memória do início de Ari na TVE. Ele seria contratado para cobrir uma licença-maternidade, em 1984, mas acabou ocupando a vaga de um jornalista que morreu em um acidente aéreo em Campos que cobria uma matéria sobre a Bacia de Campos em um vôo fretado pela Petrobrás que deixou 18 vítimas fatais.

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