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"Imitaram macaco"; "chefe quis mudar meu cabelo": Jornalistas revelam casos de racismo

Maju Coutinho, Zileide Silva, Aline Midlej, Flávia Oliveira, Lilian Ribeiro e Heraldo Pereira debateram discriminação

Jornalistas relatam casos de racismo durante programa da GloboNews

Publicado em 03/06/2020 às 22:23:06 ,
atualizado em 03/06/2020 às 22:49:23

Por: Paulo Pacheco

Seis jornalistas negros debateram o racismo na GloboNews nesta quarta-feira (3), após críticas por discutir o tema apenas com convidados brancos no dia anterior. Maria Júlia Coutinho, Aline Midlej, Flávia Oliveira, Lilian Ribeiro e Zileide Silva relataram casos de discriminação que sofreram na vida pessoal e na carreira jornalística.

Heraldo Pereira, mediador do debate, também desabafou sobre o preconceito. Entre as revelações, Maju contou que vizinhos imitaram macaco na frente dela, Zileide Silva sofreu discriminação em uma entrevista, Lilian Ribeiro afirmou que precisa mostrar o microfone para se identificar como repórter, Flávia Oliveira foi confundida em um hospital de classe alta e Aline Midlej relatou um episódio racista quando ainda era produtora em uma emissora de TV.

Zileide Silva, repórter da Globo e integrante do programa Em Pauta, da GloboNews

Eu tenho uma experiência, já repórter, repórter da TV Cultura, de São Paulo. Eu fui até a Fiesp, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, para entrevistar o presidente, e eu estava com um cinegrafista branco, loiro, de olhos azuis. Eu entrei, e a secretária não se dirigiu a mim, ela só conversou com o cinegrafista, o Ricardo. De repente, a porta abriu e saiu o presidente da Fiesp, veio e me deu um abraço, falou: ‘Zileide, que ótimo você aqui!’. Eu só olhei para a cara dela, ela completamente constrangida. O que eu fiz, Heraldo? Eu levantei o nariz, porque não dá para aceitar esse tipo de situação em nenhum momento, e eu falo isso porque eu quero que colegas negras e colegas negros, como eu, saibam que não dá, jamais, para baixar a cabeça, em nenhum momento, em nenhuma hipótese, mas eu nunca esqueci esse momento.

Flávia Oliveira, comentarista de economia e integrante do programa Em Pauta, da GloboNews

Ter a pele negra é algo que nos acompanha a vida toda. Mesmo experimento alguma mobilidade social, como é o meu caso e das minhas companheiras que dividem essa tela do Em Pauta, ela não nos livra de situações constrangedoras de racismo. Vou contar talvez o episódio mais recente, que exemplifica bem a discriminação que os negros sofrem no sistema de saúde, já que estamos vivendo uma pandemia. Eu fiz uma cirurgia, uns anos atrás, para a retirada de um nódulo no seio, era benigno, não se preocupem. Ao me internar, como eu sou uma mulher de candomblé e era uma sexta-feira, eu estava vestida de branco. No quarto do hospital de classe média alta da zona sul do Rio, onde me internei, a enfermeira que foi preencher o questionário para a intervenção, me viu vestida de branco, uma mulher negra, e perguntou: ‘Ué, a dona Flávia já foi para o centro cirúrgico?’. Eu respondi: ‘Sou eu a dona Flávia’. Ela disse: ‘Nossa, é que você parece tão bem que não achei que fosse a paciente’. Uma mulher vestida de branco em um quarto de hospital de rico é, naturalmente, a acompanhante da madame, e nunca a paciente. Esse é o retrato do racismo brasileiro, ora velado, ora escancarado. 

Lilian Ribeiro, repórter da Globo e da GloboNews

Acho que a imagem do racismo, para mim, está no olhar. No olhar de quem não nos vê ou no olhar de quem nos vê em determinados lugares. A Zileide falou da experiência dela, eu tenho uma tática já, que é sempre chegar de microfone em punho para ninguém ter dúvida de que naquela situação eu sou a repórter, eu sou a jornalista. Sim, estou aqui para te entrevistar, para discutir temas relevantes com você, e sou também uma mulher negra. Esse olhar que nos acompanha, muitas vezes dentro das lojas também, esse olhar, para mim, é a marca do racismo à brasileira.

Maju Coutinho, apresentadora do Jornal Hoje

Acho que minha experiência de racismo é desde o nascimento, desde a infância. Eu tenho memórias muito de criança, pequena, de seis anos de idade, de uma coleguinha, em escola particular, ter perdido o estojo e de repente ela decidiu que eu peguei o estojo dela, sem nenhum motivo. Ou, ao mesmo tempo, eu me lembro de experiências, e essa foi muito marcante, que eu já era adulta, estava na casa dos meus pais, eles têm casa de praia no litoral norte de São Paulo, Barequeçaba, eu passei na rua sozinha e, de repente, tinha um grupo de jovens brancos em uma casa vizinha à dos meus pais, mas acho que não sabia que não morávamos lá, e começaram brincadeiras com barulhos de macaco. Eu sei que voltei daquela cena muito revoltada para a casa dos meus pais, comentei o que tinha acontecido, chorei, fiquei brava, mas eu também voltei à casa desses jovens, ao quintal, e estraguei a festa mesmo. Falei: ‘Isso não pode se repetir. Isso que vocês estão fazendo é uma atitude racista, vocês têm que tomar cuidado’. Eu sei que todo mundo se assustou com a minha fala naquele momento. Como a Lilian falou, essa questão de você às vezes estar com o microfone empunhado quando você é repórter da Globo para provar que você é repórter mesmo. Outra experiência que eu já tive com o meu marido, que a gente viajou para o exterior, e meu marido, negro, saiu para passear à noite em um parque em uma cidade, e eu não pude ir dessa vez porque não estava passando muito bem, e ele voltou radiante falando assim: ‘Pela primeira vez, eu me senti livre de passar ao lado de mulheres brancos e não sentir um olhar de repulsa e de medo’. Essa experiência de racismo é a experiência também das mortes que acontecem mais cedo na nossa comunidade. Quantos parentes eu já perdi mais cedo, e a gente sabe que é por desgaste emocional, porque o racismo mata, sim, o racismo nos fere, das violências diárias que a gente acaba tendo que olhar e enfrentar, e esse enfrentar é um gasto de energia tão grande que a gente precisa se trabalhar muito para realmente a gente não sucumbir e manter a cabeça erguida como a Zileide disse.

Aline Midlej, apresentadora do Edição das 10, da GloboNews

Eu, como vim de uma família miscigenada, vivi isso de determinadas formas, e cada uma de nós aqui também. Uma experiência marcante, não faz muito tempo, eu com um ex-namorado, frequentando um clube muito bacana em uma praia do litoral norte de São Paulo, eu estive nesse condomínio, de piscina, muita gente abastada, com muito dinheiro, um lugar muito pautado por isso, pelas aparências. Eu era a única negra naquele lugar, como foi assim a minha vida inteira praticamente, na escola eu era a única, na universidade eu era a única, isso não era novidade para mim, mas naquele lugar ali, cercada pela família dele, eu achei que estava tudo bem. Quando cheguei na piscina, acompanhada das sobrinhas dele, todas brancas também, eu praticamente fui barrada pelo segurança do condomínio para entrar na área da piscina porque achava que eu era uma babá. Isso não foi vocalizado, mas ficou evidente. Meu namorado, na época, estava comigo do lado e é branco, falou: ‘Ô!’. ele nem precisou falar, o segurança olhou para mim, pediu desculpas e eu passei. Trazendo um pouco para a trajetória jornalística, quando eu fiz a transição da produção, dos bastidores, para o vídeo, e eu virei repórter, eu era muito boa produtora, eu tinha 22 anos, já faz mais de 15 anos, entreguei minha idade, meu chefe na época dessa emissora, me disse: ‘Aline, eu só acho que a gente precisa mudar umas coisinhas’. Eu falei: ‘Em que sentido?’. Ele falou: ’Não, assim, umas coisinhas, porque você é bonita, tem presença, sua voz é boa, mas sabe assim, o cabelo, não sei, acho que não vai ser bem assimilado isso, acho melhor’. Falei: ‘Então não é aqui que eu vou começar’. Acabei começando em outro lugar, e a vida dá voltas, depois de poucos anos eu fui chamada para voltar a essa emissora e não voltei por algumas dessas razões, claro, esse tipo de resposta que eu tive dele quando eu fui tentar dar um caminho adiante na minha carreira, e fico até hoje me perguntando quando ele me vê no ar o que será que ele sente, até porque me procurou depois disso outras duas vezes para que eu voltasse a esse canal.

Heraldo Pereira, apresentador do Jornal das 10, da GloboNews

Eu digo sempre que os negros e as negras, especialmente no Brasil, a situação da mulher negra é muito pior do que a situação do homem negro no Brasil, que já é uma situação de muita dificuldade, de muito enfrentamento. Quem é negro no Brasil, quem é negra no Brasil, enfrenta a questão racial todo dia, a todo momento tem barreira racial. Em um país com essa diversidade, com esta maravilha, que é o nosso imenso Brasil e que a gente vai construir coisas boas neste país, negros e brancos.

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