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Sérgio Mamberti relembra Eugênio, mordomo gay de Vale Tudo: "Procurei evitar a caricatura"

Um dos maiores sucessos da carreira do ator, personagem chegou a ser o principal suspeito da morte de Odete Roitman

Sérgio Mamberti relembra Eugênio, mordomo gay de Vale Tudo: "Procurei evitar a caricatura"
Mordomo de Celina (Nathália Timberg), Eugênio era amigo e protetor da sobrinha da patroa, Heleninha (Renata Sorrah), em Vale Tudo - Foto: Reprodução/Globo

Walter Felix

Publicado em 22/07/2020 às 04:30:00

Eugênio não era um personagem central, mas acabou se tornando uma das figuras mais marcantes de Vale Tudo, novela de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères que chegou ao Globoplay no último domingo (19). O ator Sérgio Mamberti, de 81 anos, elege o requintado mordomo como um de seus maiores sucessos em seis décadas de carreira. À época da exibição original, ele chegou a ser apontado como principal suspeito do assassinato da vilã Odete Roitman, vivida por Beatriz Segall.

“Quando comecei a gravar as cenas que me incriminavam (na reta final de Vale Tudo), também pensei que pudesse ser eu. É aquela história: o mordomo é sempre o culpado”, diz Sérgio Mamberti em entrevista exclusiva ao NaTelinha. Em 1989, reportagem do Fantástico revelou que Eugênio era a principal aposta do público: 24% dos participantes de um sorteio acreditavam ser ele o assassino de Odete Roitman.

O mordomo, daquela vez, não era o culpado, mas ainda assim ganhou espaço na memória do público, segundo o ator. “Ele era o exemplo de fidelidade, de finesse. A relação com a Heleninha (Renata Sorrah) era muito especial, de solidariedade e de uma amizade muito profunda. Foi um personagem que marcou muito a minha carreira”, avalia.

“Às vezes, [os atores] fazem mordomos afetados, uma coisa mais caricata. Procurei evitar a caricatura, porque o personagem foi construído em cima de sutilezas. Até mesmo a sugestão que ele pudesse ter uma vida homossexual só aparece na reta final da novela, quando ele fala que gosta de ir à praia para ver os rapazes jogando futebol”, lembra Mamberti.

Criado a quatro mãos, Eugênio foi pagamento de uma “dívida afetiva” do autor Gilberto Braga

Sete anos antes de Vale Tudo, Sérgio Mamberti havia trabalhado com o autor Gilberto Braga em Brilhante. Na novela de 1981, interpretou o advogado Galeno, que vivia em função da esposa, Renée (Suzana Faíni). “O personagem foi muito bem no início da história, mas depois ficou esquecido porque as outras tramas se desenvolveram mais”, recorda.

Ao final da trama, ele recebeu uma promessa do novelista: “Ainda vou escrever outro personagem para você”. Em 1988, sabendo do gosto do ator pelo cinema, Gilberto propôs que eles criassem o mordomo de Vale Tudo a quatro mãos. Cinéfilo, Eugênio teria sempre uma referência da sétima arte na ponta da língua. “Foi uma espécie de dívida afetiva que se cultivou e acabou resultando nesse lindo presente”, define Mamberti.

“De fato, houve uma colaboração minha muito grande. Existe muito disso em uma obra em progresso: o ator pode dar a sua contribuição”, avalia. Para compor o personagem, o intérprete também se inspirou em Gonzaga, copeiro do próprio Gilberto Braga naquela época.

Por conta de Eugênio, Mamberti conta que passou a valorizar mais o trabalho de um copeiro. “Tive que aprender a levar bandeja em uma mão, a servir à francesa e à inglesa, arrumar devidamente uma mesa. Tínhamos mais tempo para nos aprofundar nos personagens. Hoje, é tudo mais imediatista”, observa.

“Eugênio não era um personagem com tantas falas, era muito mais de olhares. Ele tinha um olhar sobre aquela família (os Roitman) e sobre toda a trama, que falava de um Brasil que precisava mostrar a sua cara. Esse lado da novela cabia muito bem para aquele momento político que estávamos vivendo.”

Sérgio Mamberti foi ovacionado em Havana por conta do trabalho em Vale Tudo

Logo que acabaram suas gravações em Vale Tudo, no verão de 1989, o ator partiu para o Nordeste. Buscando descanso, em um shopping de Recife, foi abordado por uma multidão de fãs ansiosos para saber quem matou Odete Roitman. Ele conta que assistiu ao último capítulo na Praia de Galinhos, no Rio Grande do Norte, junto à população local. Na aldeia de pescadores, o desfecho da história foi um verdadeiro evento.

Por seu desempenho como Eugênio, Sérgio Mamberti foi eleito o melhor ator coadjuvante na TV em 1989 pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte). Ele também viu o reconhecimento de seu trabalho e teve o carinho do público no exterior, como em Portugal. O veterano se diverte ao lembrar como foi recebido em Cuba, em 1990, quando participou do Festival de Cinema de Havana.

“Cheguei no aeroporto e de repente encontrei um monte de fotógrafos. Pensei: ‘Quem será essa estrela que está chegando?’. Quando vi, era para mim, porque ‘o Eugênio ia chegar’. Fui a grande vedete daquele festival (risos)”, brinca. O jornalista Artur Xexéo, que o acompanhava na viagem, comentou: “Mamberti, esse é seu momento popstar”.

Sobre Regina Duarte: “Lamento que ela tenha feito essa escolha”

Para o ator, Vale Tudo é certeira ao destacar a corrupção praticada por parte da população, que, por vezes, cobra honestidade de seus governantes, mas não a exerce no dia a dia. “As mesmas pessoas que demonizam a política nem sempre são éticas nas suas relações diretas, querem dar o famoso ‘jeitinho’”, avalia.

Cofundador do PT (Partido dos Trabalhadores), Mamberti ocupou secretarias do Ministério da Cultura e foi presidente da Funarte (Fundação Nacional de Artes) entre os governos de Lula e Dilma Rousseff. Ele comenta a rápida passagem da colega e amiga Regina Duarte (protagonista de Vale Tudo, como a correta Raquel Accioli) à frente da Secretaria Especial de Cultura, atualmente vinculada ao Ministério da Turismo.

“Fiquei muito triste com o que aconteceu com a Regina, por ela ter se exposto daquela maneira. Lamento que ela tenha feito essa escolha. Como conheço a complexidade de um ministério, sabia que ela não ia poder fazer nada pela cultura. Soube de servidores que a Regina até tentou, mas não conseguiu fazer nada, porque não havia espaço para ela.”

Sobre Mário Frias, nomeado para o cargo após a exoneração da ex-global, Mamberti afirma: “Nem conhecia esse rapaz, que me parece totalmente despreparado. Mas como esse cargo não existe realmente... Ele é ornamental. Nem digo em relação à boa vontade que possa ter, mas realmente ele não tem condições para contribuir”.

O artista critica o descaso com a cultura no governo de Jair Bolsonaro. “O [ex-presidente Fernando] Collor, quando extinguiu o Ministério da Cultura [em 1990], percebeu que deu um golpe contra si mesmo. É o que também acontece com esse senhor que está presidente. Acho lamentável a condução do governo como um todo, mas particularmente em relação à cultura”, assinala.

Para Mamberti, o momento de pandemia reafirma a importância da arte e seu caráter contestador. Após tantas décadas dedicadas aos palcos – só no ano passado, aos 80, esteve em cartaz com três espetáculos –, o veterano se reinventou no meio virtual para continuar colocando seu talento em prática. “O teatro precisa da presença, mas estamos conseguindo levar arte às pessoas pelo ambiente virtual, aliviando um pouco a tristeza do isolamento”, conclui o ator.

Confira a leitura dramática de Sérgio Mamberti para texto do poeta espanhol Federico García Lorca (1898-1936):

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