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Os efeitos de quando a sociedade se vê pela televisão

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Piada de Danilo Gentili motivou crítica
Redação NT

Publicado em 05/11/2015 às 08:57:19

Existem coisas na nossa sociedade que soam como mantra em nossos ouvidos: negro não tem vez, lugar de mulher é na cozinha, homem tem que ser macho, chorar é coisa de mulherzinha... Quem nunca ouviu algum comentário desses na vida?

A raiz de nossa sociedade é tão preconceituosa que o desígnio da raça humana no Brasil se resume à palavra “homem”... Não, não é “mulher”, é “homem”.

Já foi pior? Muito! Na Grécia antiga era comum que homens tivessem seus “parceiros intelectuais”, com quem mantinham relações sexuais à despeito de ter uma mulher em casa. E essa mulher, em geral, cuidavam de “seus homens” e dos parceiros deles.

Não muito distante, neste mesmo Brasil, mulheres não tinham direito a um emprego, não tinham direito a voto, não eram tratadas como pessoas, mas contabilizadas como “coisas”, propriedades do homem.

Atualmente, em algumas regiões do planeta, mulheres têm pouco ou nenhum direito, pouca ou nenhuma autonomia, ainda sendo tratadas como objetos. Estamos em um mundo onde existem “trabalhos de homem” e “trabalhos de mulher” e isso é impressionante.

Não vou ser hipócrita e falar que homens e mulheres são iguais. Isso é bobagem. São diferentes, muito, pensam de forma diferente, agem de forma diferente, mas são complementares em pensamentos e ações. Sem um, não existe o outro, é simples assim. Homem e mulher têm, em sua essência, necessidade um do outro, até para que se mantenha o equilíbrio.

Mulheres tendem a ser mais detalhistas, homens, mais impulsivos. Biologicamente, há a diferença. Mas isso não quer dizer que um seja melhor que o outro, nem que um não possa exercer funções tão bem quanto o outro.

Temos, reconhecidamente, bons costureiros e boas torneiras mecânicas, o que indica que qualquer dos dois pode exercer bem qualquer profissão, desde que treinado para tal, embora muitos digam que isso não seja possível.

Vivemos em uma sociedade que doutrina a mulher desde criança a cuidar da casa e dos filhos e o homem a mostrar sua masculinidade e cuidar do carro. Temos casos e casos de mulheres violentadas física e moralmente em metrôs, ônibus, trens, mesmo caminhando nas ruas, em shows, etc.

Já ouvi diversas vezes comentários como “ela está se oferecendo demais com esse shortinho” ou “eu sou homem, né?”.

Mas você deve estar se perguntando o porquê de tanta volta ou, se é um leitor atento às matérias do NaTelinha, deve ter associado às declarações infelizes de Danilo Gentili e sua equipe no “The Noite” da última semana, quando fez piada com o tema da redação do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) deste ano, “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”.

Bingo! Gentili (foto/principal), em sua série “Politicamente Incorreto”, citava diversas situações que me pareceram, em um primeiro momento, críticas ao pensamento e ao modo de vida dos políticos brasileiros. Pensei ser legal, uma bela iniciativa criticar algo tão absurdo.

Agora, fiquei em dúvida. Será que era realmente uma crítica ou uma homenagem? Porque, em seu programa, Danilo foi exatamente o que eu encarei como crítica na série/filme.

Me preocupei que tantos tenham levantado-se para aplaudir as declarações. Que muitos tenham incentivado outros comentários dessa natureza, mas aí, comecei a olhar para a nossa sociedade e percebi que isso nos é tão comum quanto tomar um copo d’água.

Vejam: falei comum, não positivo, tampouco natural. Mas somos aculturados o tempo todo para pensar de determinadas maneiras. E assim o fazemos. Somos doutrinados a levar uma vida que nos impõem. E a levamos.

Não sou favorável às feministas radicais. Penso que nada ao extremo é bom. Mas compreendo que, não fossem elas, muitas das conquistas das mulheres não teriam saído do papel. Para se andar em linha reta, é necessário que duas forças contrárias sejam equivalentes e, bem, o feminismo exagerado acaba por anular os efeitos do machismo cultural, trazendo a sociedade para um patamar mais aceitável de igualdade.

Danilo Gentili não é a escória da sociedade brasileira por pensar assim. Ele é apenas mais um na multidão. Sim, é lamentável que ele profira essas palavras em rede nacional, é lamentável que dissemine esses ideais, tão perturbadores às pessoas com bom senso, mas nada mais é do que reflexo daquilo que temos em nosso cotidiano, amplificado por um veículo de comunicação de massa, assim como vários vídeos, alguns até engraçadinhos, sobre o tema que vemos pela internet.

Gentili, ao contrário do que cheguei a ler, não é o que há de pior na televisão brasileira. Ele, ao menos, fala, pois acredito que muitos não sejam corajosos o suficiente para dar a cara à tapa, embora concordem com as afirmações do apresentador.

Não deveria, não poderia, mas assim o é. E cabe a nós, cidadãos brasileiros, reconhecendo nossas falhas e nossa cultura e fazendo por melhorar a cada dia, mudarmos essa situação.

Antes de criticarmos o humorista, vamos observar quantas pessoas o aplaudiram, o curtiram, o compartilharam e o quanto esse pensamento ainda é presente em nossa sociedade. Trabalhemos para que deixe de ser e, aos poucos, pensamentos como o de Danilo, irão, naturalmente, rarear.

Apaixonado por televisão, Helder Vendramini pesquisa e estuda esse meio há vários anos e é formado no curso de Rádio e TV. Aqui no site, busca fazer análises aprofundadas dos mais variados temas que envolvem a nossa telinha.

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