Alô, criançada...

Bozo 40 anos: Palhaços relembram perrengues e comentam apelido de Bolsonaro

Programa lançado por Silvio Santos estreou em 15 de setembro de 1980


Wanderley Tribeck como Bozo, em 1981
Wanderley Tribeck como Bozo, em 1981 (Foto: Erasmo de Souza/SBT)

Há exatos 40 anos, um palhaço norte-americano desembarcou na TV brasileira para nunca mais sair do imaginário popular: Bozo. Xodó de Silvio Santos, o personagem rivalizou com Balão Mágico, Xuxa e heróis japoneses, marcou a primeira década do SBT e hoje, como ícone pop, virou até apelido do atual presidente da República, Jair Bolsonaro.

Por que um palhaço nascido nos Estados Unidos em 1946 fez tanto sucesso no Brasil? O NaTelinha viajou no tempo e encontrou diferentes intérpretes de Bozo no SBT para desvendar as razões do êxito do personagem.

Bozo ocupava boa parte da programação diária do SBT, que recebeu o apelido de "Sistema Bozo de Televisão". Entretanto, o palhaço estreou quase um ano antes da inauguração da rede. Na ocasião, o programa ia ao ar pela TVS, no Rio de Janeiro, e pela Record (que pertencia a Silvio Santos) em São Paulo.

Em 1979, o comediante Wanderley Tribeck (Wandeko Pipoka) foi escolhido pelo criador do Bozo americano, Larry Harmon (1925-2008), para ser o primeiro brasileiro a vestir oficialmente o uniforme azul do palhaço. Em menos de dois anos, a audiência das manhãs do SBT saltou de 12 para 43 pontos.

Com o sucesso, vieram os problemas. Tribeck começou a se desentender com Silvio e se recusou a atender crianças por telefone ("Interessa ao SBT condicionar a criança a jogar. Eu não quis participar disso", desabafou em entrevista ao Jornal do Brasil, em 1983).

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Luis Ricardo como Bozo e atualmente (Foto: Montagem/Divulgação/Reprodução/SBT)

Silvio se lembrou então do "menino do circo", um adolescente que já tinha apresentado números circenses no Bozo. Descoberto com 16 anos por Valentino Guzzo (1936-1998), produtor e intérprete da Vovó Mafalda no programa, Luis Ricardo foi contratado para interpretar o palhaço e ganhou a confiança do patrão (até hoje, é seu substituto imediato no SBT).

"Em um show, o Vandeko não quis descer de balão. Fiz e o Silvio viu a fita, e perguntou para o Valentino sobre o 'menino do circo'. Ele pediu para eu fazer os números de circo, mas vestido de Bozo", recorda o apresentador.

Incomodado com os rumos do programa após a saída de Tribeck, Silvio chegou a colocar Bozo na "geladeira", mas retornou com Luis Ricardo ao telefone com os telespectadores mirins. "Nem ele esperava tantas ligações, deu até problema na Telesp [empresa paulista de telecomunicações], queimava torres e tudo. Gravei a primeira secretária eletrônica para evitar o congestionamento das linhas", conta Luis Ricardo.

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Wanderley Tribeck, Arlindo Barreto, Marcos Pajé e Décio Roberto: quatro Bozos do SBT (Montagem/Divulgação/SBT)

Perrengues

Ainda como Bozo "estagiário" e com o contrato prestes a vencer, Luis pediu para conhecer Silvio, seu grande ídolo. Ao ver o jovem artista, o dono do SBT perguntou: 'Você é o novo Bozo? É muito bonito para ficar só de máscara, o que mais você sabe fazer?'". A partir daí, nunca mais parou de trabalhar na emissora.

"Era uma loucura. Eu fazia o Bozo no domingo, das 7h às 11h, ao vivo. Silvio começava a gravação do Show de Calouros às 11h. Ele dava uma atrasadinha, eu saía correndo e ia para o Cine Sol compor o júri. Chegava ainda com a marca do elástico do nariz no rosto", diz o apresentador ao NaTelinha.

Pelo excesso de gravações, Luis Ricardo começou a ficar rouco. Diagnosticado com calos nas cordas vocais, percorreu circos atrás de novos Bozos. Entre os principais intérpretes, estão Arlindo Barreto (retratado no filme Bingo, de 2017), Marcos Pajé e Décio Roberto (1958-1991). Eles também tinham substitutos: Edilson Oliveira (que também interpretava Tereuteuteu e anos depois ficou conhecido pelo personagem Chiquinho), Luiz Leandro e Paulo Seyssel Neto (sobrinho-neto do palhaço Arrelia e primo de Gibe, o Papai Papudo do programa).

Luis Ricardo ainda viajou pelo Brasil para treinar Bozos regionais (Silvio Santos queria aproveitar o sucesso do palhaço em outros estados). No Rio de Janeiro, se revezavam no papel Charles Myara e Nanni Souza. Na Bahia, o escolhido foi Cau Alves. Em Minhas Gerais, Jonas Santos e Evandro Antunes representaram o palhaço, também com boa audiência e muitos perrengues.

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Evandro Antunes como Bozo e atualmente (Foto: Montagem/Evandro AntunesAcervo pessoal)

"Trabalhei como apresentador e assistente de produção. Lembro que a Alterosa não dava muita importância. Eu arrumava a peruca, que já estava bem ruim. Entregava os brinquedos para as crianças descaracterizado. Por contrato, não podia falar para ninguém. Só pessoas próximas sabiam, mas minha mãe falava para Deus e o mundo. Um dia eu estava almoçando e chegou uma 'escola' na porta de casa: 'Falei para os meninos da minha escola que você é o Bozo, eles vieram te conhecer'. Saí de cara lavada e eles não entenderam", lembra Evandro Antunes, que trocou o emprego em uma fábrica de dentaduras para provocar risadas naturais como Bozo.

"Quando fiz o teste para o personagem, me deram uma fita VHS do Bozo de São Paulo, Luis Ricardo, que fazia as brincadeiras pelo telefone. Assisti várias vezes para  fazer o teste e ter maior chance de passar, pois reproduzi como ele fazia e, aos poucos, fui colocando meu estilo. Deu certo", diz Charles Myara, intérprete do palhaço no Rio entre 1982 e 1985.

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Charles Myara como Bozo e na série Detetives do Prédio Azul (Foto: Montagem/Reprodução/SBT/Instagram)

Segredo do sucesso

Bozo mais longevo do SBT (oito anos no ar), Luis Ricardo acredita que o programa virou fenômeno a partir de quando se afastou do formato norte-americano. Ele convenceu Silvio a mexer na atração para ficar com "cara de Brasil".

"Se fosse o Bozo americano, não teria feito sucesso. O humor é totalmente diferente. Falei para o Silvio Santos isso. Sempre o respeitei muito, mas na época tinha 16 anos e não tinha nada a perder. Eu o tratava como se fosse meu pai. Ele falou para eu fazer como eu quiser. Eu acabei abrasileirando o Bozo", afirma à reportagem.

Tietados por fãs crescidos, os Bozos são meros desconhecidos das crianças de hoje, mais interessadas em uma tela menor. "Eu tenho um netinho de três anos que até assiste a um ou outro desenho na TV, mas prefere o celular. O que a televisão está mostrando hoje as crianças não ligam mais. Se não gostam, passam o dedo na tela", compara Evandro Antunes, que atualmente trabalha com uma companhia de cultura em Nova Lima (MG).

De todos os Bozos, o único que ainda trabalha para crianças na televisão é Charles Myara, o Theobaldo da série Detetives do Prédio Azul (Gloob): "Bozo foi importante na minha trajetória, guardo as lembranças com muito carinho. Falar com crianças não foi um problema porque comecei no teatro infantil. Amo fazer DPA. Na TV, é o melhor que tenho".

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Acadêmicos de Vigário Geral levou o "presidente Bozo" ao desfile do grupo de acesso do Carnaval do Rio de Janeiro, em fevereiro (Foto: Reprodução/Twitter)

Afinal, Bolsonaro é "Bozo"?

"Me chamam de Bozo o tempo todo. Eu dou risada", disse Bolsonaro em maio, incorporando o apelido pejorativo que ganhou de opositores. A proximidade entre os dois nomes e a associação manjada de um político a um palhaço ajudaram a transformar o ídolo das crianças nos anos 80 em sinônimo do presidente em 2020. 

"Ele ama", brinca Luis Ricardo ao comentar o apelido. Wanderley Tribeck já gravou um vídeo em apoio ao presidente afirmando que é um "elogio" a esquerda chamar Bolsonaro de Bozo. O intérprete mineiro, em contrapartida, não vê graça na comparação e prefere proteger a imagem de seu principal papel na televisão.

"Acho ruim, porque o Bozo é um palhaço infantil, trabalha com coisas legais. As crianças de hoje vão achar que o Bozo é um político, e não tem nada a ver. Para a imagem do presidente Bolsonaro, é bom, porque o perfil do Bozo é de um cara legal, mas para o Bozo não é bom, porque associa sua imagem à de um político, e políticos fazem umas coisas que… meu Deus do céu. Vejo por esses dois lados", reprova Evandro Antunes.

Na opinião de Charles Myara, Bolsonaro foi esperto ao se associar ao palhaço: "Raciocine comigo, se o personagem palhaço Bozo foi tão amado pelo público infantil, independentemente do ator que o interpretava, logo, se você chama alguém de Bozo com tom pejorativo não procede, na verdade você está fazendo um elogio. Faz sentido?".


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