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Conheça o ator que fará travesti na nova novela de Glória Perez

"A Força do Querer" estreia em abril

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Fotos: Divulgação - Silvério e Glória Perez
Sandro Nascimento

Publicado em 13/01/2017 às 07:00:06

Da pobreza do sertão à tela da Globo. O ator Silvero Pereira é uma das grandes apostas de Glória Perez para a próxima novela das nove, "A Força do Querer".

O nordestino vai dar vida ao motorista Nonato, que durante a trama vai passar por uma transformação na sexualidade e se descobrirá travesti. "Eu ainda não comecei a gravar, começo em fevereiro. A informação que eu tenho é que o personagem tem muito a ver com minha personalidade, isso me abstém um pouco do workshop, desse trabalho preparatório que eles fazem para outros atores. Eu só entro na novela a partir do vigésimo capítulo", revela Silvero, com exclusividade ao NaTelinha.

Glória Perez conheceu o artista quando assistiu ao espetáculo "BR-TRANS". A montagem é o resultado da pesquisa dele torno do universo das travestis e transsexuais por 14 anos. "Ela não foi com a intenção de me convidar para a novela, foi mais para ter um acervo sobre as histórias, me conhecer e trocar ideias sobre o universo trans para entrar na trama. Dentro desta troca de ideias, surgiu o convite para fazer parte do elenco", explica o ator, que faz parte do coletivo artístico "As Travestidas", que realiza debate sobre sexualidade. O grupo é composto por atores, transformistas, artistas plásticos, músicos, fotógrafos, designers e publicitários.

No Rio, Silvero Pereira está no teatro Poeira com a peça "Uma Flor de Dama". "É um espetáculo que originou minha pesquisa sobre esse universo. Ele estreou em 2002 e só agora estamos chegando no Rio de Janeiro. Depois da temporada de sucesso que foi o 'BR-TRANS', as pessoas agora vão assistir um trabalho que originou essa pesquisa, que originou meu grupo, 'Coletivo artístico As Travestidas'", conta o ator.

Confira a entrevista completa:

Convite


Eu fico muito honrando por entrar neste universo da televisão, principalmente pelas mãos da Glória Perez. Quando ela assistiu ao meu espetáculo, eu vi nela uma mulher muito generosa, muito interessada e dedicada a este assunto. Eu já sabia que ela estava planejando abordar este tema na novela. Quando a Glória foi assistir, foi mais por indicação de amigos que disseram para ela que era importante ver meu trabalho do universo trans já que faço há 14 anos.

O espetáculo era uma pesquisa feita pelo Brasil pelo universo trans. Ela não foi com a intenção de me convidar para a novela, foi mais para ter um acervo sobre as histórias, me conhecer  e trocar idéias sobre o universo trans para entrar na trama. Dentro desta troca de ideias, foi que surgiu o convite para fazer parte do elenco.

Personagem

Eu ainda não comecei a gravar, começo em fevereiro. A informação que eu tenho é que o personagem tem muito a ver com minha personalidade, e isso me abstém um pouco do workshop, desse trabalho preparatório que eles fazem para outros atores. Eu só entro na novela a partir do vigésimo capítulo. Tem uma relação da ficção e vida real muito próxima.

É um nordestino que sai do Nordeste para tentar a vida no Sudeste. O título da novela "A Força do Querer", a buscar o sonho, de desbravar e contar essas histórias de tantos artistas que eu conheço, eu mesmo, que há 14 anos faço teatro no Ceará, aqui em Fortaleza, e de repente vou para o Rio de Janeiro. Faz mais ou menos um ano e meio que comecei a fazer teatro na cidade, ter começado, ter espaço e visibilidade na crítica especializada carioca. Tem muita relação parecida com minha vida.

Medo do convite

Não é um medo, mas um receio de realmente fazer jus ao trabalho. Principalmente por conta dessa relação tão agradável que foi conversar com a Glória. Ela realmente é uma mulher muito dedicada ao trabalho e como ela se aprofunda nos assuntos. De poder cumprir com que ela espera do meu trabalho na televisão.

Então, meu receio é que se trata de um universo que eu não sei trabalhar, eu tenho experiência no teatro há 14 anos, eu tenho experiência no audiovisual no cinema, mas na televisão é minha primeira experiência e eu sei que há uma diferença de atuação neste ramo. Eu tenho esse receio de não atingir as expectativas, mas acho que é algo natural de quem está iniciando qualquer trabalho.

Estou encarando isso como mais uma oportunidade de trabalho, como se fosse uma nova peça de teatro ou um novo filme à ser feito. Mas estou com uma expectativa imensa de aprender. Eu vou estar do lado do Humberto Martins e da Lília Cabral, que são pessoas que eu admiro muito como artistas. Eu espero muito aprender do lado deles,  assim como eu aprendi com outras pessoas no cinema e no teatro.


 

A descoberta da sexualidade do personagem

Na verdade eu ainda não sei o que acontece com ele durante um período. O que eu sei é que será a história de artista que sai do Nordeste pra tentar a vida no Sudeste. Por conta da minha pesquisa, muito provavelmente eu devo me envolver com esse núcleo trans.

Eu não sei se este envolvimento é mais próximo da atriz Carol Duarte, que também estreará na TV e vai fazer o transhomem na novela. Como ela vai fazer um transhomem, talvez esteja mais próximo deste núcleo do meio para o fim da novela.  Porque será um dos personagens que vai apoiar. Enfim, fazer que essa luta para essa discussão, se torne mais forte e necessária.

A sexualidade na televisão

Eu acho que fazendo teatro há 14 anos com essa temática eu não vou conseguir atingir o que em uma semana o universo da televisão consegue de visibilidade. Por isso também é muito importante estar neste trabalho.

O Brasil ainda é um país que finge uma democracia, um liberdade. Ainda assistimos casos parecidos com o Metrô de São Paulo, onde um senhor foi assassinado porque defendeu uma travesti.

Ainda vivemos numa sociedade que não respeita o limite do outro ou a necessidade do outro. Estamos sempre pensando no que a gente quer. Ainda não aprendemos a lição de amar o próximo como a si mesmo.

Preconceito na pele

Com a relação à classe social, a minha infância e adolescência foram marcadas por um discriminação social. Como eu fui de uma família extremamente pobre, sem ter o que comer e o que comprar, sempre fui muito excluído das festinhas e das amizades da minha cidade natal, Mombaça, no Ceará.

Posteriormente, por conta da minha sexualidade eu também fui discriminado pela sociedade em geral e dentro da classe artística também, por optar em fazer um trabalho que fala sobre o travesti, transexuais e transformistas.

Eu fui taxado como um militante e não como artista. Para mim não é o problema ser taxado como militante, mas me discriminar dizendo que não sou artista porque estou fazendo militância, isso me incomodou profundamente. Eu tive que lutar durante muito tempo, para fazer que a classe artística no Ceará e no Brasil começasse a  reconhecer meu trabalho artístico, mesmo que seja um trabalho artístico militante.  

A luta

A maior luta é o reconhecimento por direitos, igualdade e respeito. Se cobra muitos os deveres das travestis e transexuais, mas quais são os direitos? Às vezes só cobramos um lado.

A expectativa de Glória Perez

A Glória sempre me deixou sempre à vontade. Até o nome do personagem ela perguntou. Ela tem essa delicadeza de cuidar dos artistas, de ter uma parceria de construção. Eu acho que o que ela espera do meu trabalho é que seja exatamente o que ela viu no teatro.

Peça de teatro

"Uma Flor de Dama" é um espetáculo que originou minha pesquisa sobre esse universo. Ele estreou em 2002 e só agora estamos chegando no Rio de Janeiro. Depois da temporada de sucesso que foi o "BR-TRANS", as pessoas agora vão assistir a um trabalho que originou essa pesquisa, que originou meu grupo, "Coletivo artístico As Travestidas". Vão entender como tudo começou.

A peça é uma história de uma travesti que passa a noite conversando com um rapaz. Nestas conversas ela fala sobre família, falta de afeto, violência e sobre sonho de um dia chegar num lugar de igualdade.
 

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