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Por que as novelas de Gloria Perez são um fenômeno no Globoplay?

Fã de Salve Jorge e especialista em teledramaturgia opinam sobre sucesso da autora no streaming

Giovanna Antonelli em O Clone (2001) e Rodrigo Lombardi e Nanda Costa em Salve Jorge (2012): novelas de Gloria Perez são vistas e revistas no Globoplay - Foto: Divulgação/Globo
Por Walter Felix

Publicado em 21/12/2023 às 04:44:00,
atualizado em 21/12/2023 às 07:31:11

Quatro novelas de Gloria Perez apareceram nesta semana na lista de títulos mais consumidos do Globoplay. Nenhuma delas é recente, e algumas nem fizeram tanto sucesso quanto passaram na TV. Além disso, as tramas também não tiveram qualquer divulgação especial pela plataforma de streaming que justifique a alta audiência. O que explica, então, o fenômeno alcançado pela novelista no serviço on demand?

No ranking de novelas antigas recordistas na plataforma, está O Clone (2001), como quarta colocada. Já na lista de atrações mais consumidas do Globoplay nesta semana, aparecem: Salve Jorge (2012), como terceira colocada; América (2005), hoje em cartaz no Canal Viva, em quarto lugar; Caminho das Índias (2009), em sexto; e A Força do Querer (2017), em oitavo.

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O caso mais curioso é o de Salve Jorge. Exibida entre 2012 e 2013, a novela foi marcada por baixa audiência para os padrões da época. Também foi amplamente criticada na imprensa e por parte do público. As críticas nas redes sociais, inclusive, eram diariamente rebatidas pela própria autora.

Mas foi justamente a repercussão na web que fez o estudante de engenharia civil Henrique Silva, de 29 anos, dar uma chance à trama. Algumas cenas são compartilhadas até hoje – como aquela famosa em que Lucimar (Dira Paes) anuncia aos vizinhos que a filha Morena (Nanda Costa) está viva.

“Não tive a oportunidade de acompanhar na época em que foi televisionada. Só me lembrava da abertura. Quis assistir porque a novela aborda o tema do tráfico humano e a prostituição. Acredito que o assunto abordado desperta a curiosidade das pessoas, assim como a repercussão nas redes sociais, que não eram tão fortes naquela época”, opina Henrique.

“Gosto do núcleo da favela, que é muito bem filmado e tem cenários bem produzidos; da música de abertura [Alma de Guerreiro, com Seu Jorge]; da Dona Helô (Giovanna Antonelli) e do Stênio (Alexandre Nero), como alívio cômico; das vilãs Wanda (Totia Meirelles) e Lívia (Claudia Raia) e de toda a trama envolvendo o tráfico de pessoas.”

Henrique Silva, fã de Salve Jorge

No Globoplay, Henrique já maratonou algumas novelas, mas só concluiu Senhora do Destino (2004), de Aguinaldo Silva, e pretende seguir com Salve Jorge até o fim. Ele conta que não tem mais o costume de ver os folhetins na TV. “Prefiro assistir no streaming por conta da praticidade.”

Para especialista, Gloria Perez sabe dosar fantasia e realidade

Doutor em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e especialista em teledramaturgia, Lucas Martins Néia destaca que Gloria Perez sabe dosar fantasia e realidade, levando à cena temas candentes na sociedade.

“É uma autora que contrapõe tradição e modernidade em algum grau. Ao mesmo tempo em que consegue levantar discussões atuais, ela traz o arcabouço fantasioso e melodramático que está na gênese do folhetim, que originou a telenovela.”

Lucas Martins Néia, especialista em teledramaturgia

“Às vezes, essa mescla sai um pouquinho ali do controle”, reconhece Néia. Ele lembra a frase “Pobre de quem não sabe voar”, dita pela autora na época de Salve Jorge ao rebater as acusações de que sua novela seria inverossímil. Na época, furos do roteiro e da direção, erros de continuidade e sequências sem muita lógica irritaram o público.

Para o especialista, O Clone, exibida entre 2001 e 2002, deixa mais evidente o potencial da autora. A novela foi sucesso não só no Brasil como no exterior e ganhou até um remake na Telemundo, canal dedicado à comunidade hispânica nos Estados Unidos. “Quando ela acerta a dose, é incrível observar seu poder para catalizar a audiência.”

Repercussão nas redes sociais, ainda que negativa, pode contribuir

O fenômeno alcançado por Salve Jorge no Globoplay não surpreende o especialista. “O público da TV aberta não é o mesmo do streaming. Há ainda a questão temporal. De repente, algumas novelas que não repercutiram tão bem quando foram exibidas depois podem até ganhar o status de cult.”

A trama exibida há 10 anos já é de uma época em que a Globo colocava suas produções na web. Com o avanço do streaming, a novela ganhou a adesão de um público específico. “Talvez pela repercussão que ela sempre teve nas redes sociais”, destaca Néia.

“Se for pensar em termos de audiência, a novela pode não ter tido a mesma audiência que a antecessora, Avenida Brasil, mas, principalmente do meio para o final, alcançou índices satisfatórios. Era justamente no ambiente digital que a novela mais repercutia, ainda que muitas vezes negativamente.”

“Acho natural que nesse mesmo ambiente em que havia defensores detratores a novela se perpetue de alguma maneira. Entre 2012 e 2023, ela já fazia parte da discursividade do ambiente digital, lugar em que permanece mesmo depois de 10 anos.”

Lucas Martins Néia

Ele acredita que o êxito no Globoplay não necessariamente garantiria uma boa audiência no Vale a Pena Ver de Novo – os boatos de uma reprise na TV aberta ganharam força neste ano. “Seria interessante observar. Acho Salve Jorge uma novela popular. Pode não ter tido um grande sucesso na primeira exibição, mas as novelas da Glória Perez têm apelo.”

Travessia também tem chances de “viralizar”? Especialista opina

Segundo Lucas Martins Néia, o streaming tem propiciado algo inédito às novelas. “Elas não ficam mais só na lembrança, o público pode assistir no tempo que for. A ideia original da produção da telenovela é um capítulo que vai ao ar uma vez e ponto final. Tanto que há a ideia da recapitulação constante, para o caso de o espectador ter perdido alguma informação. O máximo que se pensava antigamente era a novela ser reprisada uma ou duas vezes.”

“Esse novo ecossistema audiovisual, em que temos acesso a esses conteúdos depois que eles foram ao ar, pode tanto consolidar algumas impressões quanto desfazê-las”, aponta Néia. Afinal, frisa o especialista, tem-se acesso às obras em um tempo diferente.

Além de produções exclusivas e originais, o Globoplay utiliza o arquivo da emissora como uma arma na guerra do streaming. Segundo Néia, as novelas antigas se tornaram “agente competitivo dentro do mercado nacional, com capacidade de competir com atrações transnacionais”.

É nesse espaço que Gloria Perez consolida êxitos de sua carreira e também reverte más impressões. Para Néia, não é impossível que Travessia, trabalho mais recente da autora no horário nobre, faça algum barulho no futuro. Ele opina que a trama mal sucedida foi prejudicada pelo planejamento da emissora, que antecipou a produção e impediu que a sinopse fosse bem desenvolvida.

“Não tenho dados oficiais, mas acredito que Travessia tenha repercutido um pouco menos do que Salve Jorge. Então, não sei se terá essa tendência de propagação no ambiente digital. O que acho interessante do streaming é que alguns títulos podem ser redescobertos. Talvez Travessia entre nesse circuito e também conquiste web espectadores do futuro.”

Lucas Martins Néia

Veja a lista de novelas de Gloria Perez disponíveis no Globoplay:

Partido Alto (1984, escrita com Aguinaldo Silva)
Barriga de Aluguel (1990)
Explode Coração (1995)
O Clone (2001)
América (2005)
Caminho das Índias (2009)
Salve Jorge (2012)
A Força do Querer (2017)
Travessia (2022)



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