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Histórias de Hebe: De briga com Clodovil, início do "selinho" a jantares com Silvio Santos

A segunda parte do especial sobre os bastidores de Hebe contados por Aurora Prado, sua ex-diretora

Histórias de Hebe: De briga com Clodovil, início do
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Publicado em 27/08/2020 às 04:00:48

Por: Sandro Nascimento

A apresentadora Hebe Camargo (1929 - 2012) teve por 20 anos Aurora Prado à frente da direção dos seus programas na Band e SBT. Durante este período, elas criaram um vínculo profissional e uma forte amizade. Na última semana, Prado revelou ao NaTelinha histórias ainda inéditas dos bastidores da eterna rainha da TV, como o dia em que Hebe foi barrada no aeroporto com as malas cheias de caviar.

"Ninguém obrigava a Hebe a fazer nada. Eu nunca fui diretora da Hebe, eu sempre fui diretora do programa. Hebe era indirigível. Não existia essa de dirigir a Hebe. Ela fazia o que queria. Desde o primeiro passo até o último no cenário", pontua Aurora Prado.

Nesta quinta-feira (27), na segunda e última parte da reportagem especial do NaTelinha, "Histórias inéditas de Hebe Camargo", Aurora conta, dentre outros bastidores, como iniciou a briga da apresentadora com Clodovil, o início do famoso selinho na TV e como Hebe e seu esposo, o empresário Lélio Ravagnani (1922 - 2000), com quem ficou casada por 25 anos, encontraram a solução para acompanhar Silvio Santos em jantares.

Confira:

As histórias de Hebe Camargo por Aurora Prado

 A briga com Clodovil

Eu senti muito a briga deles porque adorava o Clodovil. Começou porque ele foi num jantar na casa da Hebe junto com Jô Soares e vários artistas. Ela adorava oferecer jantares aos amigos. Hebe, sempre muito educada e carinhosa, no dia seguinte da reunião mandou uma caixa de chocolates para cada convidado, mas para o Clodovil entregaram errado. Os chocolates foram com o nome de Jô Soares. Clodovil ficou irritado e não gostou. A Hebe contou que ele ligou dizendo: "Credo, você precisa prestar atenção quando manda as coisas".

Depois, teve o lançamento do CD da Hebe numa casa noturna no Ibirapuera. A gravadora distribuiu convites para todo lado e nós da produção do programa também. Trabalhamos juntos com a gravadora e convidamos o Clodovil, lógico. No palco, ela não agradeceu a presença dele. Citou todos os artistas, mas não falou o nome do Clodovil. Acabou, foi a mágoa que ele levou para o resto da vida.

Hebe Camargo e o filho do cinegrafista do SBT

Teve um dia que a Hebe chamou no camarim o Fernando Cesar, que era câmera dela no SBT. Ele chegou, sentou no sofá e ouviu o maior esporro. Enviaram para a produção do programa um fax sobre um filho dele, ainda não reconhecido em cartório, do interior da Bahia. Na verdade foi o próprio filho.

Fernando tentou justificar que não tinha assumido a criança por problemas financeiros. Porém, Hebe não aceitou as desculpas. "Nada disso. Tá pensando que filho é brinquedo que enjoa e joga para um canto? Filho não é assim não. Quanto que você precisa para assumir esse filho?". O clima esquentou.

Cesar explicou que precisaria de três dias para ir até a cidade e voltar para São Paulo e que somente no fim do ano faria isso. "Você vai agora", disse Hebe. Ela deu um cheque de R$ 5 mil e conseguiu que ele fosse liberado do SBT por alguns dias. Ele aceitou a ajuda e disse que pagaria à Hebe em suaves prestações.

Na semana seguinte, Fernando retornou da viagem e mostrou o registro do filho à Hebe. Ele agradeceu a ajuda e foi pagar a primeira prestação do empréstimo.

"Você trabalha tanto tempo ao meu lado, é tão carinhoso comigo e com as minhas coisinhas... Eu não quero esse dinheiro de volta. Eu não te emprestei, eu dei para você. Faz o seguinte, você ficou tanto tempo sem conviver com seu filho, com esse dinheiro compra um presente para ele no fim do ano", pediu Hebe. Ela era assim, gostava de ajudar.

Hebe e o conjunto desafinado

Hebe sempre falou o que pensava, não tinha papas na língua, mas também era uma pessoa muito influenciável. Não negava nada a ninguém. O cabeleireiro dava uma ideia e ela fazia a gente colocar no programa. A estilista falava algo e lá vamos nós colocarmos no programa.

Uma vez a Hebe foi num jantar na casa de uma amiga e tinha um conjunto musical de samba tocando com três ou quatro pessoas. Essa amiga elogiou muito e sugeriu para que ela levasse esse pessoal ao programa. No dia seguinte a Hebe fez o pedido à produção e atendeu a amiga.

Ligamos e marcamos a participação do conjunto. Porém, no dia do programa os caras se perderam no caminho. Quando chegaram aos estúdios do SBT já estávamos no ar e não deu para ensaiar.

Rapidamente, durante o comercial, ligaram os microfones, cavaquinho e o violão. Na hora que começaram a tocar, nunca vi uma coisa tão ruim na vida (risos). Desafinados. A Hebe olhava para os lados com um jeito que parecia pensar: "O que eu fiz? Por que foi pedir esses caras no programa?" (gargalhadas).

Orgulho do filho

A Hebe nunca interferiu ou deu palpite na vida do Marcelo. Sempre o deixou muito à vontade para fazer o que quisesse com os amigos que quisesse. Ele acabou fazendo um programa de entrevistas em São José dos Campos, interior de São Paulo. Ela ficou muito feliz e orgulhosa e chegou a ir ao estúdio. No dia da estreia ficou o programa inteiro com o Marcelo ajudando.

Hebe adorava quando ele levava os amigos no programa para assistir ao vivo. As meninas pediam autógrafos para as mães e ela achava muito engraçado. Quando o Marcelo estava na primeira fila do estúdio, todo mundo que participava, a Hebe dizia: "Olha, aquela lá é meu filho. Olha que lindão!".

Veto ao cantor que bateu na esposa

Dercy Gonçalves era uma pessoa que ela amava. Sempre pedia. A Hebe era assim, quando gostava, amava. Quando não gostava, odiava. Não tinha muito "eu perdoo o que você me fez".

Ela ajudou um casal de artistas e um dia ela foi na casa deles e a mulher tinha apanhado do marido. A Hebe ficou muito revoltada. Essa pessoa ficou quase um mês hospedada na casa dela. A Hebe nunca mais falou com o cantor e nunca mais deixou levá-lo ao programa. Nem podia citar o nome. Ela passou a sentir ódio dele, comentava com a gente, mas nunca deu entrevistas sobre isso.

Jantares com Silvio Santos

A Hebe adorava sair com o Silvio Santos e a Íris. Eles moravam muito perto. Para ter uma ideia o Silvio morava na quadra de cima. Então, o Lélio e a Hebe caminhavam até a casa do Silvio e de lá iam jantar. Ela dizia que adorava sair com o Silvio porque ele era muito engraçado, mas que o apresentador não bebia nada alcoólico e só suco de uva. Então, para acompanhar o Silvio, ela e o Lélio tomavam uma bebidinha e intercalavam com um suco para serem gentis. (risos)

Diretor do SBT tirou a emissora do ar por causa de Hebe Camargo

Ninguém obrigava a Hebe a fazer nada. Eu nunca fui diretora da Hebe, eu sempre fui diretora do programa. Hebe era indirigível. Não existia essa de dirigir a Hebe. Ela fazia o que queria. Desde o primeiro passo até o último no cenário.

Ela era conhecida no SBT de estourar o horário na grade. A emissora inteira ficava preparada porque sabia que ela iria estourar ou demorar em chamar os comerciais.

Eu ajoelhava do lado do palco, na época ainda era produtora, pedindo para Hebe chamar os breaks ou encerrar o programa. Um dia, de várias vezes, estávamos atrasados cerca de 20 minutos. Você imagina atrasar a grade uma emissora por quase meia hora.

Com a situação, tinha um gerente do SBT que desligou a chave da parte elétrica e o programa saiu do ar. A rede saiu do ar, a emissora saiu do ar. Foi uma escuridão total que a gente não conseguia nem ir para o camarim. Eu disse: "Hebe, a emissora saiu do ar". Ela, para variar, foi gargalhando dizendo: "Eu tirei a emissora do ar, eu não acredito". 

O anticomercial de margarina

Hebe fazia um merchandising de margarina e nesse dia estava o Paulo Autran. Ela estava lendo o texto no teleprompter, e de repente, o Paulo interrompe o merchan e fala: "Hebe, eu não acredito que você está falando bem de margarina. Isso é veneno para saúde das pessoas. Isso faz mal e você não pode fazer isso". Bom, não continuou o merchandising, lógico.

Foi para os comerciais e ela não parou de mais de dar risada. No fim, o programa perdeu o merchan da margarina. Foi muito engraçado, mas nunca mais tivemos ações de margarina no programa (risos).

A sala de jogos do Lélio

O Lélio gostava muito de jogar e sempre viajava, duas vezes por ano, para Las Vegas. Um dia, a Hebe resolveu fazer uma sala de jogos para o Lélio e começou a reformar devagarzinho o espaço. Ficou uma graça.

Ela colocou quadros, mesinhas, umas cadeiras maravilhosas... O Lélio não ficou sabendo de nada até o dia da inauguração. Ele nunca passava pelos fundos da casa.

Para inaugurar, a Hebe chamou uns amigos para jogar baralho. Na hora que o Lélio viu o espaço ficou emocionado. "Hebinha, que surpresa. Adorei", disse. Quando ele viu os convidados, Lélio era muito sarcástico e irônico, brincou: "Com esses jogadores e hoje que vou sair daqui sem as calças" (risos).

Quando começou o selinho

Eu não me lembro do dia que começou o selinho, mas com certeza era uma mulher. Uma cantora ou atriz que foi no programa. E também carioca. Porque os cariocas têm o hábito de dar dois beijinhos e os paulistas apenas um.

Essa pessoa entrou, que não me lembro do nome, e foi direto dar dois beijinhos na Hebe. Deu de um lado, quando foi para o outro, como a Hebe estava acostumada apenas com um beijo, as duas se encontraram e beijaram na boca.

A Hebe começou a dar risada e falou que não foi um beijo, mas um selinho. E na hora ela falou: "Um selinho da Hebe, viu plateia!". Em 1997, Rita Lee consolidou o selinho no palco com a Hebe. Virou marca registrada.

Band barrou Hebe após ter assinado com o SBT

Lélio amava o Chaves. Não perdia o programa nenhum dia e ria igual uma criança. A Hebe dizia que quando assistia o Chaves com ele, gargalhava mais da risada do Lélio do que do programa.

No dia que a Hebe assinou com o SBT, ela foi fazer o programa normalmente na Band. Quando chegou à emissora, tinha uma ordem da diretoria que ela não iria entrar no ar. Avisaram a gente no camarim.

 A Hebe ficou muito triste porque queria se despedir do público. Eu avisei ao restante da produção e pedi pra cancelar todos os convidados da noite. Quando voltei, ela me disse: "Liga para o Lélio e pede para ele me buscar agora". Ele chegou muito preocupado e entrou correndo no camarim. A Hebe desabou nos braços dele e começou a chorar. Eles ficaram abraçadinhos.

Ajudei a Hebe a arrumar a mala e levei o casal até o carro. Chegando lá, a Hebe me abraçou tão apertado, quase quebrou nossos ossos (risos): "Morenona, me liga amanhã. Preciso conversar sério com você".

Ela entrou no carro e falei para o Lélio dar uma cerveja bem geladinha para Hebe em casa. Ele respondeu: "Imagina, amanhã ela ficará muito feliz. Amanhã ela vai para a casa do Chaves. A melhor casa do Brasil" (risos).

O Silvio Santos estava de olho na Hebe já de algum tempo. Na Band, ela estava incomodando o Ibope do SBT nas sextas-feiras. Depois soube por um diretor que na época ele tinha dado um ultimato a ele para sua contratação. Na Band, Hebe estava sem contrato, com salários atrasados e ela não teve dúvida na troca.

A morte do Lélio

Quando o Lélio morreu o SBT disse que poderia reprisar um programa, mas a Hebe não quis. "Quero fazer ao vivo", disse. Quando ela chegou ao estúdio, entregou um porta-retratos do Lélio e pediu para colocar no balcão do bar: "Eu vou falar dele e quero que vocês fiquem mostrando a foto". No ar, a Hebe falou de como ele era companheiro, amigo e como iria sentir saudades. Estava muito emocionada.

A Hebe sempre gostou muito de cachorro, mas o Lélio não gostava. Então, eles não tiveram cachorro. Quando ele morreu, cerca de um mês depois, decidimos dar um cachorro para Hebe. Arrumamos um filhote de Schnauzer, uma coisa mais "fofica". Compramos o enxoval: caminha, roupinha e ração. Tudo completo e colocamos no camarim.

Ela ainda estava muito caidinha e chegava meio cabisbaixa no SBT.  Porém, na hora que ela entrou no camarim e viu o cachorrinho na caminha, nossa, começou a chorar. Abraçava e beijava.

À noite, ela entrou com o Schnauzer no colo no programa, ao vivo. Depois dele veio um monte. Ela adotou inclusive um que estava perdido no Tietê. Ela adorava animais.

Hebe no velório do fã

A Hebe tem até hoje os seus fãs fanáticos. Todos eles seguiam, religiosamente, ela onde se apresentava. O programa poderia ser longe ou perto que lá estavam esse fãs. Ela sempre queria os fãs nas primeiras filas. Um dia, um deles, não foi.

A Hebe ficou muito preocupada e quando acabou o programa perguntou a produção o motivo da ausência do fã. Eu expliquei à Hebe que a mãe dele tinha morrido e que naquele momento estava no velório. Ela falou: "Pode procurar o endereço que eu vou para lá". E foi mesmo.

Quando ela chegou ao velório o fã estava ao lado do caixão da mãe. Na hora que ele viu a Hebe começou a chorar, a abraçou e disse: "Hoje é o dia mais feliz da minha vida".



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