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Polêmicas

Com crack, pedofilia e aborto, estreia de Passione completa 10 anos

Ancorada no suspense, novela de Silvio de Abreu ousou ao tocar em tabus

Marcello Antony e Mariana Ximenes foram destaques em Passione, novela de Silvio de Abreu
Segredo de Gerson e a vilã Clara movimentaram Passione, em 2010 - Fotos: Reprodução/Globo
Walter Felix

Publicado em 03/05/2020 às 12:30:00

Passione, novela escrita por Silvio de Abreu com direção de Denise Saraceni, completa 10 anos de estreia no próximo 17 de maio. Com uma trama imbricada, repleta de mistérios, o autor ousou ao tocar em temas polêmicos, geralmente evitados na teledramaturgia, como aborto, pedofilia, prostituição infantil e o vício em crack.

O ponto de partida era a busca de Bete Gouveia (Fernanda Montenegro) por seu filho perdido, Totó (Tony Ramos). No leito de morte, o marido da milionária revela que entregou o recém-nascido, gerado com outro homem, aos cuidados de Gema (Aracy Balabanian), a empregada que partiu com a criança para a Itália.

A revelação chega aos ouvidos dos amantes Clara (Mariana Ximenes) e Fred (Reynaldo Gianecchini). Arrivistas, eles resolvem ir para a Toscana, onde a vilã consegue seduzir o herdeiro. Em seu decorrer, a história é marcada por reviravoltas, segredos revelados e um misterioso assassinato.

Abuso e exploração infantil eram chave de mistério em Passione

Lançada com grande expectativa, a novela demorou para fisgar o público. Nos primeiros meses, as atenções giraram em torno do segredo de Gerson (Marcello Antony), filho de Bete que passava horas aficionado em frente à tela do computador. Revelado a três meses do fim, o tal mistério não surpreendeu ninguém: o personagem assistia a vídeos de sexo bizarro.

O fato que chocou em relação ao personagem só seria exibido na reta final. Sua compulsão sexual era resultado de um trauma de infância. Quando criança, Gerson foi abusado por Valentina (Daysi Lúcidi), que trabalhava em sua casa. Avó de Clara, a “velha porca”, como era chamada pela vilã, também cafetinava as netas - além de Clara, fazia o mesmo com Kelly (Carol Macedo).

Com crack, pedofilia e aborto, estreia de Passione completa 10 anos

O entrecho, aliás, era a peça-chave para solucionar o grande mistério da trama: quem matou Saulo (Werner Schünemann)? Ainda menina, Clara foi estuprada pelo executivo, com o consentimento de Valentina, e resolveu se vingar. A revelação só ocorre em flashback na última cena de Passione. “Pedófilo desgraçado, vai pro inferno!”, cravou a vilã após esfaquear o mau-caráter em um motel.

Aborto e vício em crack estavam entre as polêmicas da história

Cinco anos antes de Verdades Secretas, o flagelo do crack foi abordado no horário nobre com o personagem Danilo (Cauã Reymond), ciclista de sucesso que experimenta a primeira pedra e perde o controle. Na época, a mídia começava a destacar o crescimento do número de viciados na droga, atentando a seu potencial destrutivo superior às outras.

Com crack, pedofilia e aborto, estreia de Passione completa 10 anos

Filho de Saulo e Stela (Maitê Proença), Danilo é expulso de casa pelo pai e desaparece. Na época, Cauã Reymond precisou se afastar das gravações para se recuperar de uma cirurgia no quadril. O personagem só voltou à cena meses depois, usando muletas. Ele é encontrado vivendo debaixo de um viaduto, na Cracolândia de São Paulo, e dá início a um tratamento para superar a dependência.

Outro tabu convocado por Silvio de Abreu foi o aborto. A jovem Fátima (Bianca Bin) se descobre grávida, resolve abortar em uma clínica clandestina e corre risco de morte após o procedimento. O tema voltou à cena no decorrer da história quando a maquiavélica Melina (Mayana Moura) chantageia Diana (Carolina Dieckmann) para que a mocinha tire o bebê que espera de Mauro (Rodrigo Lombardi).

Novela demorou para cativar a audiência

Temas tão polêmicos, aliados a uma história que caminhava a passos lentos, podem ter afugentado o público. Passione teve a menor média no Ibope entre novelas de sua faixa horária, até então: 35 pontos na Grande São Paulo. Só nas últimas semanas, com a falsa morte de Totó e a derrocada de Clara, o folhetim conseguiu elevar os números.

Foi também a última novela de Silvio de Abreu para as 21h da Globo. Após o remake de Guerra dos Sexos (2012), para a faixa das 19h, ele atuou como supervisor de texto até assumir a direção de dramaturgia da emissora. Nunca reprisada, Passione está disponível, na íntegra, no Globoplay.