Celso Freitas relembra carreira e fala sobre RecordTV: "Hoje temos uma identidade própria"

Foto: Edu Moraes/RecordTV

Publicado em 30/03/2017 às 00:00:47

Por: Redação NT com Thiago Forato e Gabriel Vaquer

Tido como uma das vozes mais bonitas da televisão, Celso Freitas está na RecordTV há 13 anos, contratado a peso de ouro junto à Globo, na fase em que o canal de Edir Macedo dizia estar "a caminho da liderança".

Começou apresentando o jornalístico "Domingo Espetacular", que ainda engatinhava na programação dominical da emissora.

Em entrevista exclusiva ao NaTelinha, Celso relembra o convite da RecordTV. "Não me deixaram sair daqui sem assinar contrato", orgulha-se. O jornalista ficou na atração até 2006, quando assumiu a bancada do "Jornal da Record".

Uma de suas paixões, o rádio, não poderia passar batido. Ele conta um pouco de sua trajetória no segmento e se recorda ao chegar em São Paulo: "Nos primeiros meses foram tristes, me assustei com a cidade".

Com tanto tempo de carreira, Celso Freitas contou uma das notícias mais difíceis de dar: "O acidente do Ayrton Senna".

Confira o bate-papo na íntegra:

NaTelinha - Você cuida muito da voz? Você tem uma que é tão sua...

Celso Freitas - Não tenho uma preocupação maior. Algumas coisas do tipo... Gravei dois programas do "Repórter em Ação". Tô com garganta aquecida, não posso tomar um copo de água gelada, dá choque término. Tem que ter esse cuidado, porque já ocorreu no início da carreira de perder um pouco da voz por conta disso.

NaTelinha - Vou voltar lá atrás. Li que você foi descoberto num velório...

Celso Freitas - (risos) Foi. Estudava no colégio Marista e meu pai tinha um primo distante, o chamado primo rico, dono da emissora de rádio. E fui no velório de um tio meu, e esse meu primo tava lá. Meu pai me apresentou. Cumprimentei o primo rico e ele disse: "você tem uma voz boa, por que não vai na rádio fazer um teste?". Acabei indo. Me apresentei na emissora dizendo que tinha sido indicado pelo dono a fazer um teste e queria saber se era minha vocação ou não. Acabei gostando.

Sentei do lado do estúdio e dada as características, naquele época, só algumas empresas tinha o comercial gravado. Só dois ou três anunciantes pagavam o custo de ter uma gravação contínua e padronizada. O resto era lido pelo locutor do horário. Tinha uma caixinha com várias textos, e minha primeira função foi interpretar os textos. Tecidos da casa imperial, enfim, um exercício de interpretação utilizando a voz.

O que você faz no comercial? Capacidade de persuasão, convencimento e paralelamente a isso, houve uma vaga de rádio escuta, se a gente for pra década de 60, não tinha Embratel, não tinha nada. Com fone de ouvido você ouvia os noticiárias das grandes emissoras de rádio. Pra extrair o noticiário internacional, nacional e foi meu exercício como redator. Para compor.

Tive uma paixão com o rádio, a notícia, a ponto de eu ter desprezado a continuidade do Marista. Zerei todas as matérias, fiquei por meio ponto em Química. Eu estudava à noite e com a carteirinha da rádio, ao invés de ir pro colégio ganhar esse meio ponto, em fevereiro, tava estreando um filme novo no cinema local. A carteirinha facilitava. Fui pro cinema. Parei com os estudos e trabalhei durante três meses na rádio Eldorado de Criciúma, fui demitido. Houve um enxugamento de gente na emissora, e dois meses depois a concorrente, a Difusora precisou de gente, e eu fui pra lá.

Fui assimilando aos poucos. O fato de usar o microfone, ler a notícia, a narrar, que durou três meses numa emissora, três na outra. Aí acabou também nessa Difusora, houve oportunidade... Queria ir pra capital, tipo Florianópolis, e não, diziam que só dava cobra. Acabei em Joinville. Não tinha tanta função de notícia, mas era uma rádio musical. Desprezei uma oportunidade da capital, mas seis meses depois tava voltando pra Florianópolis, pra rádio Diário da Manhã como noticiarista e redator. Isso em 1970, tinha 16 anos e meio.

NaTelinha - Foi tudo muito rápido...

Celso Freitas - Três meses em um, três meses na outra, seis meses na outra. Em Florianópolis fiquei de 70 até 72 quando vim pra Brasília.

NaTelinha - Quando você foi pra TV?

Celso Freitas - Eu tive uma rápida experiência como redator do Banco Regional do Desenvolvimento do Extremo Sul. Era um noticioso econômico.

NaTelinha - Se lembra da experiência?

Celso Freitas - Sempre fui muito envolvido, em fuçar. Acho que visitei a TV Cultura de Florianópolis com um colega e acabei sendo apresentado, e fui contratado para apresentar três ou quatro meses enquanto não embarcava para Brasília. O aprendizado mais extenso foi com a Globo quando apresentei o "Jornal Nacional" em Brasília, final de 72, começo de 73, na época do Médici, regime da ditadura. Meu antecessor foi demitido por fazer uma careta e o pessoal da ditadura não gostou.

Tinha que se ater ao script, porque ele foi demitido pois interpretou. Ele achou nessa interpretação que estivesse em off. O diretor de TV ou coisa parecida, botaram a careta dele no ar e acabaram fazendo uma interpretação épica. E arranjaram um substituto que trabalham alguns meses e fui apresentado como alternativa. Tinha que ter sensibilidade em não fazer nenhuma expressão que desagradasse ao regime.

NaTelinha - Você acha que a geração mais nova exagera nas críticas a quem fazia jornalismo naquela época, com script?

Celso Freitas - Exageram, a concessão era do Governo, e tinham autoridade para cassar a concessão. Quantas foram fechadas na época? Questão de bom senso. Era a regra do jogo, não podia extrapolar essa regra. Tinha que respeitar na medida do possível, para derrubar essas barreiras. É diferente ter como alternativa os jornais. Outras publicações que acabavam sofrendo pressões, represálias.

NaTelinha - Você de Brasília veio pra São Paulo? Como foi essa chegada?

Celso Freitas - Foi. Ao chegar em São Paulo, nos primeiros meses foram tristes, me assustei com a cidade.

NaTelinha - Por quê?

Celso Freitas - Porque você sai do interior, pra uma cidade planejada como Brasília. Saí de lá e estava sendo instalado os primeiros semáforos em 75. Lá tem esse respeito, há um comportamento. Não tinha que pagar estacionamento, em qualquer quadra, departamento, edifício, não pagava. Se acostumar com essa coisa de poluição, barulho, eu comecei só apresentando o "JN" local e de rede. Os primeiros meses foram assustadores, pensei em ir embora daqui.

Acabei arranjando atribuições. Tive que fazer faculdade, cumprir os estudos, o supletivo em menos de seis meses e estava aprovado pouco depois em Jornalismo na Cásper Líbero. Em menos de dois anos tive duas úlceras. Não tive espaço para curtir a vida. Acordava às 4h, fazia jornal na Rádio Globo, das 6h às 8h, ia pra faculdade, tinha perdido uma hora de aula, fazia à tarde, ia pra TV às 17h30, voltava pra faculdade à noite repor, e nos finais de semana viajava pra fazer o "Fantástico". Não dava tempo pra pensar.

Achava que tinha vitalidade, mas depois da úlcera puxei o freio de mão.

NaTelinha - Você lembra da notícia que mais ficou abalado?

Celso Freitas - Várias ao longo da carreira. Na Globo, 32 anos. Aqui, mais 12. Abalado em termos de quê?

NaTelinha - Pessoalmente falando...

Celso Freitas - Emocionalmente falando o que marca é o acidente do Ayrton Senna. O episódio do presidente Tancredo Neves. Éramos escalados seis ou oito horas por dia para ficar de plantão na redação. Durante este período, chegava na redação por volta das 15h e saía às 22h. A gente tinha um esquema de revezamento. Na noite que ele morreu, eu cumpri meu horário e saí. Alice Maria, que era chefe de jornalismo, não gostou porque eu perdi a oportunidade ou coisa parecida. Mas era uma coisa de compromisso, era meu colega, a oportunidade dele.

NaTelinha - Você encerrou uma trajetória na mudança pra RecordTV. Se lembra como foi o primeiro contato da emissora?

Celso Freitas - Recebi um telefonema que estava aqui conduzindo a produção do "Domingo Espetacular", do Carlos Amorim, havíamos trabalhado juntos no "Fantástico". Vim pra trabalhar e ouvir, e tomou uma proporção... Se não me engano, foi feito uma proposta para um piloto do "Domingo Espetacular", na época era "Domingo da Record", "Legal", alguma coisa. Tinha várias apresentadores. Me colocaram lá, gravei, acharam espetacular. E aí ficou. Acho que foi isso que aconteceu. E não me deixaram sair daqui sem assinar contrato.

O que aconteceu? Nos últimos anos eu estava restrito na Globo ao Globo News e tinha me envolvido com uma produtora de material jornalístico, tinha produzido pra GNT, boletins pro rádio, forneceria material pro Globo.com. A Globo tinha feito uma promessa de comprar esses produtos e me atender. Não aconteceu, houve a bolha e todo o investimento que tinha feito com a produtora, acabou.

Disse que tava aí a oportunidade de desbravar um caminho. A proposta do "Domingo Espetacular" era muito boa.

NaTelinha - E você virou a voz da RecordTV nessa nova fase, né?

Celso Freitas - Nunca ninguém de peso ou imagem da Globo tinha abandonado ela como eu fiz. Não tinham grandes nomes como repórteres para o "DE". Mas a qualidade foi muito boa, a diretoria da emissora resolveu investir, foi um ponta de lança para o investimento de jornalismo. Um ano e meio depois estava no "Jornal da Record".

NaTelinha - Queria voltar a fazer o "Jornal da Record"?

Celso Freitas - Não. Estava acostumado a fazer um programa semanal. Um dos motivos de eu ter feito a produtora, foi fazer com que eu desenvolvesse a minha capacidade de diretor, um cargo que eu não quero ocupar hoje em dia numa redação. Exige uma dedicação muito grande. Passei dessa fase. Mas voltar pro diário foi um desafio, o "DE" já era um sucesso, em termos de comercial, e tinha essa proposta de jornal diário bem feito e espírito de rede. Me sinto partícipe de ter trazido profissionais de renome, que é hoje a consagração do "Jornal da Record". É o segundo jornal mais visto do Brasil. O grande desafio quando a gente começou era para que pudéssemos aproveitar a oportunidade dos grandes acontecimentos.

NaTelinha - Você acha que no início houve um exagero de dizerem que estavam xerocando a Globo?

Celso Freitas - O fato de a gente estar trabalhando com profissionais conhecidos encurtou o caminho. Talvez tenhamos assimilado um pouco do grafismo, da linguagem, que já era consagrada. Hoje temos uma identidade própria. As pessoas sabem distinguir quem é Record e quem é Globo. Acho que a Globo construiu uma consciência, característica de jornalismo que começamos a praticar, o jeito de abordagem, os grandes que lucraram são os profissionais e principalmente o telespectador, que tem uma segunda vertente de informação. Estavámos acostumado a uma única emissora que era capaz de fazer bom jornalismo. A RecordTV tá aí fazendo um bom jornalismo.

NaTelinha - A Ana Paula Padrão e a Adriana Araújo dizem que você é muito generoso no ar. Como é sua relação com as colegas de bancada?

Celso Freitas - Não sei se é porque sou mais longevo na profissão, eu sou camarada. Estamos dividindo um trabalho. Não estou brigando para buscar notoriedade. Eu já construí, o telespectador já me deu ao longo dos anos. Não estou disputando espaço para dizer ou coisa parecida. Já foi feita ao longo do tempo. Não sei se em outros canais há a disputa.

NaTelinha - É errado ter vaidade para aparacer?

Celso Freitas - Quando você fala isso, minha escola é a seguinte: somos mero carregadores da informação, não cabe ao profissional fazer juízo ou coisa parecida, para fazer a cabeça do telespectador. Não é esse o objetivo. Temos que ser um elo simpático entre a informação e o telespectador. É minha filosofia.

NaTelinha - Você sente falta do "Entrevista Record News"?

Celso Freitas - Sinto falta. Porque a gente na apresentação do jornal não temos a oportunidade de externar um sentimento, no Record News eu sou um curioso, um telespectador entrevistando um profissional em busca da informação.

NaTelinha - Voltaria? Tem vontade de fazer algo no YouTube, por exemplo?

Celso Freitas - Tenho. Foi uma coisa que aprendi aqui, quando cheguei fazia o "Link Brasil" na Record Internacional, mas era uma entrevista que eram dois por programa. Durava quase uma hora, grandes personagens. Se perdeu o material aqui dentro. Quando comecei meu trabalho em Santa Catarina eu não era elogiado, depois eles mudaram esse tipo de coisa e tinham orgulho do meu trabalho.

NaTelinha - O que você assiste na TV hoje?

Celso Freitas - (risos) Eu assisto alguns documentários, ontem mesmo tava fuçando na Netflix e descobri um de "Polo a Polo", produção americana, depois pulei pra um da África da BBC. Coisas que englobam boa imagem, captação, narração, coisas que eu desconheço... seriados.

NaTelinha - Tipo?

Celso Freitas - Acabei de assistir "Prision Break", enfim, uma porrada deles.

NaTelinha - "Black Mirror"?

Celso Freitas - Vi o primeiro episódio, tem sobrinhos que estão estudando jornalismo mas nunca realmente assisti um outro episódio.

NaTelinha - Tô descobrindo um Celso Freitas viciado em série ou é impressão minha?

Celso Freitas - Não, tô viciado em série (risos).

NaTelinha - Lembra uma que precisava ver um episódio, uma coisa muito louca?

Celso Freitas - Não, realmente "Prision Break" fiquei assistindo. Vi cinco de uma vez. Eu e a mulher. Agora tô enjoado. Acho incrível, gostaria de maiores informações. A vocação da televisão é com busca de documentários, reportagens especiais, porque você é abastecido profundamento pela internet. E tem que ser diferencial. Temos feito isso com séries especiais. Tem agregado um valor muito grande para o "Jornal da Record" e vai chegar uma época que teremos mais que uma série.

NaTelinha - Como você vê o Brasil hoje?

Celso Freitas - Tô decepcionado com tudo que tá ocorrendo, mas a gente que acredita que tem uma luz no fim do túnel. Precisamos de um grande líder pra botar as coisas nos eixos. É uma reversão de valores, desrespeito às regras, temos que buscar uma alternativa, de conscientização, cumprir as leis, e não um jeito de burlar. O que a gente tem lamentavelmente de vários membros do Congresso Nacional que deveriam estar focados nos problemas, então digamos assim, eles estão tentando salvar a pele ou o cargo.

NaTelinha - Vê alguma saída para 2018?

Celso Freitas - Sinceramente, a grande carência é apostar em quem comandar. Gostaria que o Brasil tivesse o parlamentarismo por um certo período. A Itália sofreu há alguns anos, e tinha governo que durava um mês, 15 dias ou coisa parecida, mas conseguiu contornar sérios problemas. E também tiveram um grande problema. Culturalmente ou até historicamente tem exemplos para se fundamentar. A Itália com o parlamentarismo, ela trocava de primeiro ministro, governo, a cada 15 dias. Alternativas com caminho. A gente tem problema de reforma da previdência, política, trabalhista, presídios, ninguém levanta uma bandeira para solucionar isso. Tem que ter uma atitude do Congresso, de uma liderança, e dizer: vamos apertar o cinto pro nosso navio caminhar tranquilamente.

Lamentavelmente, a gente passou a obedecer um parâmetro que é coisa do império. Quem é amigo do rei, tá próximo. E não é por aí o caminho.

NaTelinha - Como você vê o jornalismo hoje?

Celso Freitas - O jornalismo é você ter paixão pela informação. Mas ter paixão com responsabilidade. Às vezes, tem aí, graças às tecnologias, blogs, internet, pessoas que se autopromovem como jornalistas ou coisa parecida mas que não tem responsabilidade de aprofundamento da notícia. Respeito de dar vários ângulos da informação. Para que quem dê o juízo seja o leitor.

Sou contrário aqueles em credibilidade, informação, de querer fazer a cabeça das pessoas. Às vezes dá vontade, mas ninguém te institui com o poder de direcionar ou conduzir o público ou o consumidor da informação. Sou contra isso. Não temos esse direito de pré-julgar.



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