Opinião

Vai na Fé: Atores negros no núcleo pobre retrata realidade ou reforça estereótipos?

Nova novela das sete destinou ao núcleo pobre a maior parte do elenco negro


Sheron Menezzes e Carolina Dieckmann numa montagem das cenas da novela Vai na Fé
Sheron Menezzes faz uma suburbana pobre em Vai na Fé - Foto: Montagem/reprodução Globo
Por Sandro Nascimento

Publicado em 23/01/2023 às 15:45,
atualizado em 23/01/2023 às 17:02

Na divulgação da estreia de Vai na Fé, a Globo destacou que a novela escrita por Rosane Svartman tinha no seu casting 70% de atores negros. Fato que virou motivo de celebração visto que na indústria de dramaturgia esse percentual só era atingindo em histórias sobre a escravatura. Porém, ao assistir primeira semana da nova trama das 19h, a realidade me fez refletir se o avanço vendido não foi, na verdade, um passo atrás.

Vai na Fé é ambientada no bairro de Piedade, subúrbio do Rio, onde moram a maior parte dos personagens. O núcleo pobre, e seus inúmeros problemas financeiros, é dominante na história de Svartman e é neste núcleo onde está escalado a maior parte do elenco negro.

Sou defensor de uma televisão mais diversa e confesso que fiquei na expectativa de assistir - e ainda não foi dessa vez em Vai na Fé, infelizmente - um casting formado por negros atuando em personagens bem-sucedidos. Que não tenham sua luz cortada por falta de pagamento ou que estejam desempregados por um currículo sem formação acadêmica, como é contada na história.

Podemos questionar e devemos. Por que Sheron Menezzes precisava ser a vendedora de quentinhas e a loiríssima Carolina Dieckmann, a advogada bem-sucedida? Por que nas tramas paralelas fora do subúrbio o percentual de atores negros contratados são a minoria? A decisão artística da Globo retrata a realidade de uma sociedade desigual ou reforça estereótipos de que somente negros são os pobres e moradores das comunidades? Será que o subúrbio é o novo nicho de trabalho para atores negros?

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Por outro lado, Vai na Fé trata de assuntos belicosos no seu arco dramático, e que mereciam, já de um algum tempo, ganhar o protagonismo numa novela, como racismo estrutural, violência doméstica e o machismo. No entanto, a autora não vem conseguindo abordar esses temas, pelo menos na primeira semana, com textos mais profundos, e essa superficialidade nos diálogos atrapalha até na emoção de algumas cenas.

No vídeo, os destaques da novela são as excelentes atuações de Jean Paulo Campo (que menino talentoso), Sheron Menezzes e José Loreto.

Sandro Nascimento

Como produto da Globo, de tudo que foi exibido, Vai Na Fé vai desafiar a icônica frase de Joãozinho Trinta: “Pobre gosta de luxo; quem gosta de pobreza é intelectual”. 

Audiência da 1ª semana de Vai Na Fé (Kantar Ibope SP)

  • 16 de janeiro - 22,4 pontos
  • 17 de janeiro - 21,5 pontos
  • 18 de janeiro – 21,0 pontos
  • 19 de janeiro – 19,3 pontos
  • 20 de janeiro – 19,4 pontos
  • 21 de janeiro – 17,2 pontos
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