Milton Leite diz que "Pânico na TV" foi irresponsável em caso Rogério Ceni: "Colocaram minha segurança em risco"

Narrador também é a voz do game "Pro Evolution Soccer", da japonesa Konami

"É um mistério até hoje não esclarecido", diz Milton Leite sobre vídeo que viralizou no YouTube - Divulgação/SporTV

Publicado em 07/04/2017 às 06:30:00

Por: Thiago Forato

Milton Leite, a principal voz do SporTV, canal esportivo da Globosat, completa 12 anos de casa neste mês de abril.

Com alguns tradicionais bordões, ele admite que um dos principais, o "que beleza", na verdade, não é dele. "É do Wanderley Nogueira, eu me apropriei", conta.

No SporTV desde 2005, Milton tem três Copas do Mundo e três Olimpíadas no currículo pela emissora. Narrando também diversas vezes pela Globo, ele diz que queria ter tido continuidade: "Meus resultados no período em que narrei na aberta foram muito bons, mesmo narrando esporadicamente. Mas, não foi possível".

Em 2017, completa 10 anos de um famoso episódio que viralizou no YouTube. Na cena, Milton aparece ao lado de André Rizek e fala que Rogério Ceni, atual treinador do São Paulo, "é chato pra c...". Não teve jeito. Foi uma febre e até hoje o episódio é lembrado.

Para Milton, o programa "Panico na TV" e o site Kibe Loco terem proliferado o conteúdo foi uma irresponsabilidade. "Colocaram minha segurança em risco", avalia.

Confira a entrevista na íntegra:

NaTelinha - Você tem um humor muito particular em suas transmissões. De onde vem tanta inspiração para isso, além dos bordões como "agora eu se consagro" ou o mais tradicional, "que beleza"?

Milton Leite - Acredito que minhas transmissões são bem-humoradas porque eu sou assim. Não criei nada, não bolei um jeito engraçado para transmitir futebol. Sempre fui assim e faço aquilo naturalmente, como faço nas minhas rodas de amigos, com a família.

Os bordões eram expressões ou frases que já existiam nas minhas conversas com amigos, nas brincadeiras com a família. Muitos deles nem fui eu quem criou. Como já faziam parte da minha linguagem no dia a dia, um dia entraram numa transmissão, as pessoas foram gostando, ficaram. Mas não fico em casa pensando em bordões novos, nem vou para um jogo pensando em quais vou usar ou não. Dependendo do jogo, eles nem aparecem.

O “que beleza”, por exemplo, nem é meu, é do Wanderley Nogueira, repórter e apresentador da Rádio Jovem Pan, com quem trabalhei muitos anos. Ele é o criador, eu me apropriei. O “agora eu se consagro” é meu, mas nem lembro em que circunstâncias ele surgiu.



NaTelinha - Você tem algum ídolo ou inspiração na sua profissão?

Milton Leite - Sou de uma geração (estou com 58 anos), que aprendeu a acompanhar o futebol pelo rádio. Portanto, minhas primeiras referências são do rádio. Quem já teve a chance de ver minhas primeiras narrações em TV, na extinta Jovem Pan TV, no começo dos anos 1990, sabe que eu era muito mais radiofônico do que agora, falava muito mais do precisava. Fiori Giliotti, Joseval Peixoto, José Silvério, Osmar Santos sempre foram meus favoritos. Em TV gostava muito da equipe da TV Cultura dos anos 1970, com Orlando Duarte e Luiz Noriega. Atualmente sou fã do Jota Jr, que além de um grande narrador é um grande amigo. E, em minha opinião, Luciano do Valle foi o maior de todos, na televisão.

NaTelinha - Você está no SporTV há muitos anos sendo o principal narrador da casa. Em algumas ocasiões, no entanto, você narrou jogos na Globo, principalmente em 2012, né? Existe o desejo de narrar jogos na TV aberta?

Milton Leite - Agora em abril completo 12 anos de SporTV/TV Globo. Quando fui para o grupo, tinha como objetivo chegar à TV aberta, saber se lá conseguiria os mesmos resultados da TV paga. Narrei na Globo entre 2006 e 2013, a partir de 2010 fiz jogos de futebol – inclusive uma final de Champions League, em 2011, em Londres.

Com o crescimento dos eventos no SporTV, muitas viagens, as possibilidades de atender escalas na Globo diminuíram muito. Meus resultados no período em que narrei na aberta foram muito bons, mesmo narrando esporadicamente. Gostaria de ter continuado, mas não foi possível.

NaTelinha - Quais as diferenças em narrar jogos no SporTV e na Globo?

Milton Leite - Percebi que o que muda fundamentalmente é o público. O SporTV é um canal especializado em esportes, em geral a maior parte dos que assistem são mais “especialistas” no assunto, você tem que ser mais profundo nas informações, no conhecimento.

Na aberta, em geral, o público na frente da TV é mais heterogêneo, pessoas que estavam vendo a novela e ficaram para ver o jogo, junto com alguém da família que curte futebol. Ou que estão esperando o programa do Faustão que vem depois… E você tem que falar para todas essas pessoas ao mesmo tempo, tentando entreter todas elas. A linguagem tem que ser um pouco diferente.

NaTelinha - Desde o ano passado, você é o narrador do game "Pro Evolution Soccer", da Konami. Como aconteceu essa negociação? Quem te convidou? Gostou do resultado? Quais os feedbacks que você recebe em relação a isso?

Milton Leite - Fui procurado pelo próprio pessoal da Konami, porque em 2015 eles fizeram uma pesquisa entre os jogadores e fãs e o meu nome foi o mais indicado para ser o narrador do jogo. O acerto foi muito rápido e fácil, porque eles têm pessoas super profissionais, que desde o começo me deram muita atenção, atendimento VIP.

Os resultados foram bons, do meu ponto de vista, as pesquisas que a Konami fez com jogadores e nas redes sociais mostram que acertamos mais do que erramos. Acredito que as próximas edições ficarão muito melhores. Já estamos conversando sobre o jogo que sairá no segundo semestre e em breve começamos a gravar.

NaTelinha - Como você vê o crescimento dos concorrentes do SporTV, adquirindo direitos de transmissões importantes, como o Esporte Interativo, que tem por trás um grupo com muito dinheiro?

Milton Leite - Eu acho ótimo. Não existe nada melhor para melhorar o trabalho de um canal de TV do que um concorrente que nos obrigue a isso, que jogue para cima o nível de exigência. Do ponto de vista individual também é ótimo, é mercado de trabalho em crescimento.

NaTelinha - Qual foi a maior saia justa que passou numa transmissão? E o caso mais engraçado?

Milton Leite - Saia justa me lembro de apenas uma, mas não em transmissão. Foi numa participação no programa “Arena SporTV”. Eu fiz uma crítica ao Vanderlei Luxemburgo, que era técnico do Palmeiras. Ele ligou na TV, quis entrar no ar para me contestar. Tivemos uma discussão ao vivo, ele me ameaçou com um processo (o que nunca aconteceu, porque ele não tinha nenhuma razão) e só.

NaTelinha - Sei que já faz muito tempo, mas é impossível não perguntar. Em 2017, faz 10 anos que você disse que o Rogério Ceni é "chato pra c...". Mas afinal, como foi que isso aconteceu? Como isso vazou para o YouTube? Ainda te incomoda?

Milton Leite - Como isso foi parar no YouTube é um mistério até hoje não esclarecido. Na época se falou que isso poderia ter sido captado por alguma antena parabólica, que conseguiu pegar o sinal que saía do caminhão e ia para o satélite, para dali chegar à emissora, no Rio. Mas pode ter sido alguém do próprio caminhão, da produtora que estava fazendo o jogo. Estranho porque apesar de o episódio ter sido no meio de 2007, só chegou ao YouTube em janeiro de 2009, ficou meses despercebido e só ganhou relevância quando o site “Kibe Loko” descobriu e colocou no ar. E depois o “Pânico” levou para a TV.

A mim nunca incomodou e, pelo que sei, inclusive de conversar com ele, ao Rogério também não. Até porque não houve xingamento nenhum e hoje em dia o próprio Rogério se diz “muito chato mesmo”. O ruim é que eu era incomodado pelos torcedores do São Paulo sempre que chegava ao estádio, muitas vezes minha segurança ficou em risco.

Acredito que foi irresponsabilidade do "Pânico" e do "Kibe Loko" terem colocado aquilo no ar sem sequer falar comigo, ainda mais que sabiam que aquilo não tinha ido ao ar. Colocaram minha segurança em risco, sem me dar chance de explicar o contexto.

NaTelinha - Em 2014, você fazia aulas de piano. De lá para cá, o quanto conseguiu aprender? Teremos um Milton Leite pianista em breve?

Milton Leite - Continuo fazendo aulas de piano, estou no quarto ano. Claro que se eu não viajasse tanto e não tivesse tantos eventos para transmitir já estaria num estágio mais avançado. Toco muitas músicas, me sinto bem tocando. Antes tocava num piano digital que comprei quando comecei a aprender. No meu último aniversário minha mulher me presenteou com um piano acústico, o que motivou ainda mais para continuar.

Aliás, minha mulher é minha melhor ouvinte e minha grande incentivadora. Não pretendo tocar publicamente, mas o desafio de aprender coisas novas, algumas vezes complexas, com a minha idade, é estimulante, a música me faz muito bem.



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