Mauro Cezar Pereira comenta viés de entretenimento no jornalismo esportivo e diz: "não sou humorista"

Fotos: Divulgação

Publicado em 30/03/2017 às 00:02:35

Por: Thiago Forato

Mauro Cezar Pereira é um dos jornalistas mais conhecidos da ESPN, onde trabalha desde 2004. Contundente em suas opiniões, não liga para uma possível fama de turrão. "Não faço meu trabalho me preocupando com isso", diz ele em entrevista exclusiva ao NaTelinha.

Por conta de suas opiniões, também movimenta o Twitter e não raramente bloqueia quem o desagrada. "Não vou perder meu tempo com quem fica na timeline perturbando", justifica Mauro.

Há 13 anos na TV fechada, não vislumbra nem tem como objetivo chegar à TV aberta. "Vou trabalhando aqui o tempo que for possível", projeta, reiterando nesta entrevista a liberdade que a ESPN lhe dá.

O jornalista ainda fala sobre suas inspirações na profissão e sua paixão pelo Racing, clube da Argentina. Mauro avalia que não há nenhuma torcida de clube brasileiro que se aproxime da relação que o torcedor de lá tem. "O clube (Racing) me deu a oportunidade de me comportar como torcedor", diz ele.

Confira a entrevista na íntegra:

NaTelinha - Mauro Cézar, você é sempre muito contundente nas suas opiniões, que fazem a internet e até técnico de futebol burbulhar. Você acha que tem a fama de turrão? Como lida com isso?

Mauro Cezar Pereira - Quem tem que falar se eu sou turrão ou não, são as pessoas. Eu faço meu trabalho. Elas podem achar o que elas quiserem, não faço meu trabalho me preocupando com isso ou aquilo. Às vezes, as pessoas não prestam muita atenção no que você fala e já criam suas próprias conclusões. Muitas vezes o cara não entende o que você falou, acha que uma crítica contra um time é contra o clube. Não dou muita importância, não. Grande parte dessas conclusões são conclusões muito contaminadas por paixão clubista, por esse tipo de coisa. Não dá para ficar pensando muito nisso, não. Não tenho a pretensão de agradar ou desagradar ninguém. Esse não é o papel de jornalista, ficar querendo agradar ninguém. O papel de jornalista é fazer o bem seu trabalho da melhor forma possível. Gostar mais ou menos de um ou outro é natural, é do jogo.

NaTelinha - Vários internautas alegam que você os bloqueia no Twitter por nenhum motivo. Isso é verdade? Qual critério você usa para bloquear internautas?

Mauro Cezar Pereira - Eu bloqueio toda vez que eu percebo duas situações: uma quando o cara é o hater, que só quer polemizar, provocar, discutir, então já bloqueio de cara. Você nota quando o camarada está só para perturbar. Ele não quer conversar. Então, já bloqueio, porque não vou perder o meu tempo com quem fica na timeline perturbando. E é muito comum o cara que ofende você com palavrão, seja colocando em dúvida sua idoneidade profissional, seja debochando de algo que você falou. Discordar é uma coisa. Aí o cara pega e fala que não fez nada. Ele nunca faz nada. Você já viu atleta que se dopa falar 'eu me dopei'?

NaTelinha - Ah, difícil, né?

Mauro Cezar Pereira - Não existe essa história. Nenhum deles se dopou. O cara vai lá, faz uma bobagem e reclama que foi bloqueado, fala que não fez nada. Pode ter acontecido, acidentalmente de eu ter clicado no arroba errado. Pode até ter acontecido. Não vou dizer que não. Pode ter ocorrido. São muitas pessoas ali. A questão é que a internet abriga as pessoas pelo que elas têm de bom e de ruim. O anonimato na internet, ou pseudo anonimato, desperta a coragem, entre aspas, de ofender, agredir. E não vou perder tempo com esse tipo de gente. Ali é uma via de mão dupla. Você pode se comunicar com as pessoas e elas podem se comunicar com você. Se o cara tem educação, se o cara discordar, concorda de forma aceitável, tudo bem, beleza. É até bom que as pessoas discordem. Se o camarada tá ali pra criar polêmica, não se perde tempo com isso. Segue o jogo. Não tem nenhuma necessidade disso.

Eu tenho opiniões muitas vezes fortes, não fico de meias palavras, não é minha característica, falar pela metade, é comum que algumas pessoas não entendem, ou não concordem, ou não aceitem. Mas ele não é obrigado a me seguir. Ele não é obrigado a ler o que falei. Ele vai porque ele gosta, porque ele quer. E o que acontece? Geralmente ele toma block mas continua assistindo a TV, às vezes cria até outro perfil para seguir. Ele xinga, mas não vive sem, porque sabe que alguma coisa de relevante vai ser dita. Essa é a parte mais engraçada. Agora, é isso. Tem gente que fala do block anti-democrático. Por que block anti-democrático? Alguém é obrigado a ler desaforo? Ora, isso é uma piada. Ninguém é obrigado a ter rede social, ninguém é obrigado a aturar gente mal educada, ninguém é obrigado a aturar gente que não tem respeito pelo trabalho das pessoas.

Quando dá o block você simplesmente higieniza a timeline, passa a falar com pessoas que tem opinião, respeito, que discordam com argumentos, que usam a ferramenta de maneira legal. A ferramenta é maravilhosa, tem que saber usar. Não é feita para ninguém xingar um ao outro. Não é assim que muita gente usa. Alguns se aproveitam dessa proximidade virtual... Então, é por isso que bloqueio, acho que é um direito meu. Até para inibir a ação dos covardes virtuais, que tem esse comportamento imundo, digamos assim. É minoria. Não são tantos assim, não.

NaTelinha - Não é uma minoria que faz barulho?

Mauro Cezar Pereira - Barulho para quem vai atrás deles, pra mim não. Pra mim não faz barulho nenhum. Toma block e acabou. Pra mim, se fazem barulho, não chega pra mim.

NaTelinha - Você é jornalista, mas nos últimos tempos, cada vez mais ex-jogadores têm entrado nesse âmbito esportivo, comentando, analisando em programas, etc. O que você acha de ex-jogadores estarem entrando em transmissões esportivas?

Mauro Cezar Pereira - Isso tem no mundo inteiro. Não é uma coisa que tenha só no Brasil. Tem na Inglaterra, na Argentina, Espanha, em outras modalidades também. É uma questão de opção de cada veículo. É uma opção da empresa. Não é uma coisa que caiba a mim a dizer o que acho. Sou comentarista, não sou diretor do canal. Não sou eu que contrato as pessoas. E outra coisa, o que penso ou deixo de pensar, é irrelevante, porque não é meu papel fazer isso. Meu papel é fazer meu trabalho. Não tenho o que dizer sobre isso. É uma coisa que não foi inventada aqui. As empresas é que tomam a decisão de contratar ex-jogadores ou não. É opção de cada um. Fica ao gosto do freguês. Tem espaço pra todo mundo. Vários canais, sites, jornais, espaço é o que mais tem. É questão de ver se aquele ex-jogador, profissional, ou não, acrescenta alguma coisa ou não. A decisão é de quem contrata, de quem monta a equipe.

NaTelinha - Como você vê os concorrentes crescendo em direitos de transmissões? Como você viu o fato da ESPN ter perdido a Champions e a Copa do Brasi?

Mauro Cezar Pereira - Essa entrevista tem que ser feita com algum diretor da ESPN, não com um comentarista. As perguntas que você está fazendo são perguntas mais compatíveis com alguém que tenha um cargo de direção, que participa de negociações de direitos. Repito, eu sou comentarista, eu não comento mercado. Eu não sei quanto custa um evento, analisar os concorrentes. Cabe a quem negocia. A ESPN não tem mais a Champions League, mas tem a exclusividade da Premier League (Campeonato Inglês), tem o Espanhol, Italiano, Alemão, tem jogo à beça. Isso envolve outras questões. Não sei quanto foi pago pela Esporte Interativo, que comprou a Liga dos Campeões. Tem que fazer essa pergunta para alguém que tenha elementos para falar, que trabalha com isso. O que eu for falar aqui, vai ser muito raso, vago, não gosto de falar sobre assuntos que eu não tenha total domínio.

NaTelinha - Tem algum comentarista que você se inspira ou se inspirou?

Mauro Cezar Pereira - Pra mim inspiração é João Saldanha e ex-jogador, é o Tostão. Eu vejo dessa maneira. Outros caras muito bons, trabalhei com alguns ótimos, aqui mesmo na TV, com Juca Kfouri, trabalhei com José Trajano e outros que tive a chance de trabalhar, mas eu citaria esses dois que são fontes de inspiração, referências. São estilos diferentes, independentes, estilos que não são parecidos exatamente, mas são pautados pela sinceridade, coragem, dizer o que tem que ser dito sem receio. Pra mim é fundamental.

João Saldanha que é o João Sem Medo, não é à toa, um dos apelidos dele. Tostão que é um sujeito inteligentíssimo, que se prepara, que não se contenta em falar sobre futebol somente o que viveu como atleta. Se prepara, estuda, se aprofunda para falar sobre o futebol de hoje, não fala só da parte técnica e tática, vai além disso. É sempre um prazer ver o que o Tostão escreve. Tenho uma profunda admiração.

NaTelinha - Você já está na ESPN há muitos anos, que é um canal fechado. Embora a TV paga esteja mais acessível, acaba sendo mais restrita. Você tem o objetivo de ir para alguma TV aberta? Acredita que há espaço?

Mauro Cezar Pereira - Não, não. Tô trabalhando, o que vou fazer do futuro, só Deus sabe. Não se estabelece "vou trabalhar em tal lugar". Por mim vou trabalhando aqui o tempo que for possível. Não dá para traçar um objetivo assim. Não dá para falar sobre isso. É prever o futuro, não tem como. Não tem motivo para ficar pensando nisso. Trabalho aqui há muito tempo, tenho liberdade de expressão, faço meu trabalho com prazer, com responsabilidade como tem que ser.

NaTelinha - Você é torcedor do Racing, da Argentina. Como surgiu essa paixão cujo país de origem é de uma rivalidade histórica com o Brasil?

Mauro Cezar Pereira - Primeiro que isso de rivalidade é uma bobagem colossal. Muitas vezes é fabricada por alguns setores da mídia do que uma coisa realmente à flor da pele. Ao não ser quando as seleções se enfrentam e tal. Sempre tive uma admiração pelo futebol argentino, pelos times, jogadores, torcida especialmente, e passei a acompanhar o Racing num momento que o clube não ganhava um campeonato há muito tempo, e fez uma final de Supercopa com o Cruzeiro em 92, o Cruzeiro goleou no primeiro jogo. No segundo, o Racing tinha que golear, passou o jogo na TV Bandeirantes, foi 1x0 pro Racing e a torcida apoiava, apoiava, como se estivesse 5 a 0. Obviamente o título não seria do Racing, mas o comportamento dos torcedores, como sempre é, e na Argentina isso é muito comum, era de um apoio, alento impressionante. E a partir dali conheci a história do clube, passei a acompanhar mais e me identifiquei. Acho que no futebol uma das coisas mais importantes e bonitas é o amor incondicional por um clube. Independente se ele te der títulos ou não, se te faz feliz ou não. Você simplesmente gosta daquele clube e ele faz parte da tua vida. E a torcida do Racing se destaca por essa característica.

Comecei a acompanhar, depois veio a internet, comecei a ler mais notícias do clube, mais nos vídeos pela internet, e cada vez mais fui acompanhando. Com a rede social, passei a ter contato com vários torcedores e jornalistas argentinos. Tenho muitos seguidores argentinos. O clube me deu possibilidade de me comportar como torcedor sem estar preocupado com o que as pessoas vão dizer. Porque não é um time brasileiro, não é um time que está se confrontando toda hora contra os clubes que são alvos de nossas análises.

Então, fico mais à vontade do que falar do Flamengo, que é meu time no Brasil. Falo uma coisa do Flamengo e posso estar chateando as outras pessoas que torcem para outros times. Tenho que respeitar isso. O Racing não. Está lá em outro universo, fica mais fácil de você tirar um sarro, brincar. Tem que ter um pouco de zoeira, brincadeira, não se pode levar tudo tão a sério. Então as pessoas falam, 'ah, você tem fama de turrão'... As vezes as pessoas não entendem que você está brincando com determinada situação. E aí elas acabam deturpando um pouco.

NaTelinha - Foi a paixão do torcedor que te seduziu?

Mauro Cezar Pereira - Sem dúvida, sem dúvida. Se qualquer torcida brasileira tivesse metade ou até 30% da relação que a torcida do Racing tem com o clube seria disparada a melhor torcida do Brasil. Aquilo é algo muito incomum. Diferente do parâmetro.

NaTelinha - Você acha que no Brasil tem alguma torcida que chega perto da relação que o torcedor do Racing tem com seu time?

Mauro Cezar Pereira - Não, nenhuma. Nenhuma. Nem de perto. Quem conhece, sabe o que eu estou falando. Quem não conhece, vai dizer "que absurdo". É completamente diferente. O brasileiro, é claro, nem todos, não tem o constrangimento nenhum de dizer o seguinte: "ah, não vou ver esse time jogar não. Tá uma porcaria, nem vou ver". Não tô falando só de ir ao estádio não, tô falando de acompanhar, de ver. Não quer nem saber. O brasileiro fala isso. No Uruguai, o conceito também é outro. Tem que estar ao lado do clube em qualquer situação e isso é o que move essas pessoas. É meu ponto de vista.

Mauro Cezar Pereira

Eu sou jornalista, eu não sou humorista, não sou ator

NaTelinha - No ano passado, José Trajano declarou ao UOL que não gosta de jornalistas engraçadinhos, e o Alê Oliveira, em entrevista ao NaTelinha, disse que pra entender de futebol não precisa fazer cara feia. E a sua, qual a sua preferência, se é que ela existe?

Mauro Cezar Pereira - Eu faço meu trabalho do jeito que vocês veem. Não estou aqui para ficar julgando o trabalho dos outros. Um estilo agrada uma parte do público, outro estilo agrada outra parte, o que posso te falar é o seguinte, eu não sou um personagem, procuro ser o mais honesto possível. Eu sou jornalista, eu não sou humorista, não sou ator. Trabalho com informação e opinião porque hoje tenho uma posição de analista de futebol.

Não é calçada do nada. Tenho quase 34 anos de profissão, trabalhei em vários lugares, eu fiz muita coisa. Dei aula em faculdade, trabalhei com economia, trabalhei em várias áreas, cobri clube de futebol, sabe, já encarei dirigente. Entrevistei jogador, vi muito jogo na beira do campo, soube de muita coisa que não pude publicar, outras coisas a gente pôde. Tive vivência nisso, mas nunca deixei de ser um repórter. Eu apuro muito a informação, dou muita, antecipo muita informação, que é uma coisa que a maioria dos comentaristas não faz. São poucos que têm esse perfil. O que também é o perfil de cada um. Eu não consigo viver sem isso. Quero ser repórter a vida inteira. Alio as duas coisas, essa é a minha forma de trabalhar. É para eu ter mais informações sobre os assuntos, você forma a sua opinião. Acho que isso é importante. Cada um tem seu estilo. O público é quem faz a escolha.

Só te digo uma coisa: eu faço jornalismo, não faço entretenimento. É isso que eu falo. O jornalismo esportivo na televisão tem um viés de entretenimento. Claro.

NaTelinha - É um viés?

Mauro Cezar Pereira - Presta atenção no que eu vou te falar, por favor, até pra você entender bem e reproduzir da maneira exata: o jornalismo econômico, onde já trabalhei, ele se caracteriza pelo quê? Em geral, as pessoas leem sobre economia porque precisam se informar sobre o assunto. Tem matérias de economia que são mais leves, mas o noticiário duro da economia, Taxa Selic, Bolsa de Valores, CDB, fundos de investimento, estratégia para segurar a inflação, elas acompanham não por prazer, mas para se informar, porque precisam, elas têm que saber o que está acontecendo. Precisam acompanhar o noticiário econômico. Não se procura por prazer apenas, mas sim porque a informação é importante pra você.

O esporte, não. O esporte também é prazer, você acompanha porque você gosta, porque te dá prazer. Assistir um jogo de futebol, de basquete, é algo prazeroso, é lazer também, você paga pra ver isso. O jornalismo no esporte tem um 'Q' de entretenimento. Tem que ter um pouco de leveza, de bom humor, diversão, não se pode ficar duas horas ali falando sobre o assunto, sério, sério, fica chato. É diferente você ver um programa de economia que fale sobre o mercado financeiro, dificilmente vai ter uma situação minimamente "relax", mais à vontade, porque o assunto é muito pesado, muito árduo. Então, entendo que o jornalismo esportivo tenha um viés para o entretenimento sim. A pessoa em casa quer se divertir, quer um pouco de leveza.

Fiz muitos anos um programa aqui na casa com o Lúcio de Castro, João Carlos Albuquerque e o Paulo Vinícius Coelho, e a gente falava sobre muitos assuntos de futebol, além do futebol, e a gente cansava de dar risada. O João Carlos é super divertido, um homem culto, inteligente que sabe falar sério, o Lúcio é um imenso jornalista, mas várias vezes a gente brincava com ele. Então, o futebol, o programa esportivo, a transmissão esportiva, ela pode e deve ter um lado mais leve. Mas, na minha visão, tem que ser algo muito natural e não pode ser o carro-chefe, nós não somos humoristas. Se eu tentar ser o tempo todo engraçadinho, vou cair no ridículo.

Um exemplo é o "SportCenter", com Antero Greco e Paulo Soares, não é um programa humorístico, é um jornal. Mas os dois são super carismáticos, o Antero é uma pessoa divertida e de ótimo humor, o Amigão morre de rir das coisas que ele fala e acontece situações que são engraçadas e o público adora. Mas eles não entram no ar pensando em contar uma piada, querendo fazer uma graça, de forma proposital.

NaTelinha - Não é premeditado...

Mauro Cezar Pereira - Não é premeditado. O roteiro do programa não diz "vamos contar uma piada aqui", as coisas acontecem. Elas surgem. Por isso é legal, na minha visão. É assim que eu vejo. Agora, existem outros estilos. Não tenho nada contra.

NaTelinha - Você poderia dar o exemplo de alguém que faça, na sua visão, isso de maneira premeditada?

Mauro Cezar Pereira - Não. Seria leviano da minha parte, não tô ali com ele preparando o programa pra falar um negócio desse. Tô falando que não pode ser, não que alguém faça. É só minha opinião. As pessoas acompanham aquilo que elas gostem ou curtem. Não existe isso de ser só sério ou engraçado. Dá pra ser os dois. Cada dia é um dia. Tem dia que o programa tá engraçado, porque as pessoas estão mais ou menos inspiradas. Por exemplo, na semana que aconteceu a tragédia com a Chapecoense, tinha como alguém ficar brincando com algum assunto? Não tinha como, eu quase chorei no ar, foi difícil segurar. Lembrei de amigos que morreram e outros companheiros, tentei segurar, não tem como ficar ali de graça. Mas tem outro dia que pode ter acontecido algo divertido, engraçado, e o programa tem uma outra pegada. Não tem uma receita só. Eu entendo isso e sei muito bem. O jornalismo esportivo tem sim um viés para o entretenimento, mas na minha visão, como jornalista que sou, primeiro a informação com responsabilidade, com credibilidade, e ao mesmo tempo, a opinião contundente sempre que possível, de forma direta, sem meias palavras, com conhecimento do que está sendo falado.

E aí tem momentos que vão ser mais engraçados. Tem que rir de uma forma espontânea. Mas, insisto: não tenho nada contra nada. E as pessoas assistem aquilo que elas gostam. O programa de televisão, de futebol, as pessoas assistem muito em função de quem está no ar, com a identificação de quem está no ar. É muito comum e varia de pessoa para pessoa, é muita preferência pessoal, com aquele jornalista e com aquele apresentador.

NaTelinha - Você disse que fez muita coisa. Mas alguém nesse mundo pescou você em algum lugar pensando que poderia dar certo como comentarista. Como foi esse "descobrimento"? Quem te garimpou?

Mauro Cezar Pereira - Eu tinha pessoas aqui que eu conhecia. Na época o Paulo César Vasconcelos, que trabalhamos juntos no Jornal do Brasil, e o Paulo Vinícius Coelho, trabalhamos juntos na Revista Placar, conhecia o Paulo há muitos anos. Houve um momento que a TV estava criando uma nova edição do "Bate-Bola" e precisavam de novos comentaristas. E surgiu o meu nome. Numa conversa informal com o Trajano o Paulo César Vasconcelos citou o meu nome, até porque momentos antes estava ao telefone com o Paulo Vinícius, conversando alguma coisa e ele comentou, que hoje trabalha no SporTV... E logo depois conversou com o Trajano, precisamos de mais comentaristas e precisava de algumas indicações, e dentre esses nomes, apareceu o meu.

O Trajano chamou o PVC, o PVC me ligou, isso foi em 2004, e eu atendi. O Trajano perguntou se eu podia conversar com ele amanhã, e no dia seguinte eu estava lá, fazendo o "Bate-Bola".

NaTelinha - Foi rápido assim?

Mauro Cezar Pereira - Aqui tudo anda rápido (risos). Comecei a fazer o "Bate-Bola", comecei a fazer o "SportCenter" e depois comecei a comentar jogos. Depois de alguns meses, o Trajano me fez uma proposta. Eu trabalhava em alguns lugares, eu dava aula em faculdade, no site do programa "Auto Esporte" da TV Globo, escrevia no Valor Econômico, eu fazia muita coisa nessa época.

NaTelinha - Você deixou tudo isso para se dedicar a carreira de comentarista esportivo?

Mauro Cezar Pereira - Eu continuei conciliando algumas coisas com a TV, eu só fazia o programa e ia embora. Aí o Trajano mais adiante me convidou para ficar em definitivo aqui. O PVC era chefe de reportagem e eu e ele passamos a dividir essa função. Um ficava de manhã e outro ficava à tarde. À tarde pra noite, e outro de manhã com um pedaço da tarde. Ele me fez uma proposta, eu aceitei e fui aos poucos deixando as outras atividades, isso foi já em 2005. Fiquei direto aqui o tempo todo e estou até hoje.

NaTelinha - 2005 foi o ano que você largou tudo para se dedicar a ser comentarista?

Mauro Cezar Pereira - Foi, foi 2005. Eu passei a trabalhar só aqui, mas continuei dando aula até o ano seguinte, até 2006 que dava para conciliar. E depois parei, voltei por um perído, depois parei de novo. Foi o que aconteceu. Meu nome veio pra cá por intermédio do Paulo Vinícius Coelho e Paulo César Vasconcelos, e quem me chamou para trabalhar aqui foi o José Trajano.

NaTelinha - Há alguma pergunta que eu não fiz, mas que você gostaria de responder?

Mauro Cezar Pereira - Uma coisa que é uma mensagem importante, são duas coisas: uma é a rede social, que você falou no começo da nossa conversa. Ela permite que a gente converse, tem muita gente que ajuda, o fã de esporte, pessoas legais mesmo. Conheço hoje pessoalmente ou virtualmente gente a partir da internet. É uma ferramenta fantástica, permite que o cara que admire seu trabalho possa trocar ideia com você. As pessoas tem que ser menos intolerantes, e muitas vezes o que acontece são as ofensas gratuitas. A cisma infantil do cara achar que você é contra o time dele, o que é uma besteira. Eu tenho bloqueado gente de todos os times, gente do Flamengo, que é meu time, e o que mais tem é torcedor do Flamengo. Talvez eu critique mais o Flamengo, às vezes mais o Flamengo que os outros. E o cara às vezes não aceita, ele te xinga, e eu bloqueio. Não quero nem saber. Vou ficar xingando ele também? O melhor a se fazer é dar um block e não conversamos mais. É muito comum gente pedindo desculpa, gente pedindo para desbloquear.

Até no domingo participei de um programa na internet sobre futebol e eu brinquei uma hora lá, tanta gente pedindo a eles para eu desbloquear, e eu falei que faria uma Sessão do Desbloqueio, junta todos, depois me manda que eu desbloqueio a galera lá.

NaTelinha - E desbloqueou?

Mauro Cezar Pereira - Não, ainda não porque eles ainda não mandaram (risos). Aí eu desbloqueio quando as pessoas pedem, ao não ser que seja aquele cara, você vê ele xingando vários jornalistas, querendo criar polêmica, aí não adianta. Vejo ele xingando colega de outro canal, da emissora de rádio... Do nada, ofendendo, falando palavrões, aí esse cara tem que procurar um tratamento.

No exercício da profissão, o jornalista, ele tem que colocar em primeiro lugar o trabalho dele. Se colocar o time de coração, vai trabalhar pior e não muda o resultado do jogo. Se você tentar, digamos, falsificar a realidade, usar a sua opinião pra mudar a percepção das pessoas, não vai mudar o resultado, não vai fazer a bola entrar. Eu não caio nessa. Falo sempre que eu tenho problemas desse tipo com torcedor de qualquer time. Eu não quero saber a cor da camisa.

Agora, concordo que a pessoa entenda que nem todos os jornalistas consigam fazer essa separação. Lógico que não. Cada um é cada um. Cabe a você avaliar isso e prestar atenção. Não pode generalizar. É aquela coisa quando o cara fala "vocês da imprensa". Como assim "vocês da imprensa"? Não existe isso, como se tivesse uma opinião única. Temos várias opiniões dentro da imprensa, várias reações. Não existe uma opinião única na imprensa. Basicamente é isso. Melhoraria se as pessoas entendessem isso. Que a opinião do jornalista é só uma opinião, que não signifique que ele seja a favor desse ou daquele time.

A pessoa confunde esse tipo de coisa, é o trabalho do cara. Se você não gosta, não acompanha. Pode parar de acompanhar, não assistir mais, a gente não entra a força na casa de ninguém. O cara liga e paga pra assistir. Não tenho a expectativa que as pessoas mudem, isso infelizmente é a natureza do ser humano, muitas vezes. Mas, as pessoas que se esforçarem nesse sentido tem a possibilidade de conviver melhor, com a oportunidade que a internet nos oferece, aproximando. É uma questão do cara se esforçar, ele só vai ter a ganhar, a lucrar com isso.



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