Repórter da Record vira fenômeno em MG com humor em denúncias de bairro
Asafe Alcantara comanda o Bairro a Bairro no Balanço Geral MG

Publicado em 31/03/2025 às 12:25
Desde 2023, o repórter Asafe Alcantara passou a comandar o quadro Bairro a Bairro no Balanço Geral Minas, se tornando um fenômeno na região devido ao seu humor, pouco convencional para telejornais, ao tratar de denúncias sobre problemas nos bairros. Em entrevista ao NaTelinha, o jornalista da Record relata que, ao ser abordado nas ruas pelo público, que lhe pergunta se ele interpreta um personagem, responde: "Sou doido da cabeça. Meus amigos e parentes já estão acostumados”.
Nas reportagens, Asafe chama atenção com sua risada alta, o uso de megafone, as brincadeiras com os moradores, por andar a cavalo e o jeito descontraído de falar, usando expressões como “bafão”.
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“Eu poderia fazer da forma 'padrão', mas preferi juntar um pouco da minha personalidade com o drama das pessoas e fazer uma mistura legal. As pautas continuam sérias. O problema existe e é grave. As pessoas estão sofrendo”, conta o repórter da Record.
E completa: “A forma com que eu faço o Bairro a Bairro percebo diariamente nas ruas que as pessoas lembram, comentam e riem, mas ao mesmo tempo falam que depois que eu sai do bairro a rua foi arrumada. O buraco foi fechado. E esse é o objetivo final: que resolva o problema”.
“O Bairro a Bairro é a esperança de dar luz a um problema ou ir a lugares que nenhuma outra emissora ja foi.”
Asafe Alcantara
Confira a entrevista com Asafe Alcantara, do Balanço Geral MG
Como surgiu o convite para comandar o "Bairro a Bairro" no Balanço Geral Minas?
Asafe Alcantara - Em janeiro de 2023 fui chamado pra ser repórter na Record Minas para uma vaga temporária de férias. Inicialmente de 6 meses. Com poucas semanas, dentre tantas pautas, fiz algumas de comunidade e denúncia de moradores em BH e Região Metropolitana. (Não sei ao certo se foi sorte, ou uma coincidência), mas as matérias tiveram destaque pelo meu olhar e comportamento, um pouco diferente do convencional, em conduzi-las. Lembro de ter feito uma denúncia de uma cratera na BR 381 e entrei no buraco.
Na primeira semana de fevereiro, o então diretor de jornalismo me chamou pra conversar e disse que estavam com uma ideia de voltar a fazer mais reportagens ou até mesmo um quadro de comunidade.
Eu disse que amava a ideia e que tinha muito a ver com o meu perfil. Começamos a pensar no nome, outras pessoas da redação também sugeriram e, chegamos num acordo de ser 'Bairro a Bairro'. No mesmo dia eu perguntei: quando começa? Ele me respondeu: amanhã! A estreia foi no dia 15 de fevereiro de 2023. Com 6 meses eu fui efetivado.
Adotar o tom bem-humorado do quadro foi sugestão sua?
Asafe Alcantara - Todos os dias as pessoas me abordam na rua e perguntam se tudo aquilo é um personagem. Eu sempre respondo "isso é porque eu sou doido da cabeça. Sou assim mesmo. Meus amigos e parentes já estão acostumados". As pessoas me gritam nas ruas, eu grito de volta. Elas usam muitos os meus bordões e apelidos, eu respondo da mesma forma.
Sou muito comunicativo, amo fofoca, sou atento a muitos detalhes (por isso brinco com a cara das pessoas até mesmo falando de algo sério. Interrompo mesmo). Nada passa despercebido dos meus olhos e tudo tento fazer com leveza, humor, risadas, gritos. Tudo pra mim pode ter um pouco de humor.
Como você equilibra o tom bem-humorado com a seriedade necessária para abordar questões como infraestrutura e educação?
Asafe Alcantara - Eu poderia fazer da forma 'padrão', mas preferi juntar um pouco da minha personalidade com o drama das pessoas e fazer uma mistura legal. As pautas continuam sérias. O problema existe e é grave. As pessoas estão sofrendo. A forma com que eu faço o Bairro a Bairro percebo diariamente nas ruas que as pessoas lembram, comentam e riem, mas ao mesmo tempo falam que depois que eu sai do bairro a rua foi arrumada. O buraco foi fechado. E esse é o objetivo final: que resolva o problema.
Percebo que as pessoas acompanham o Bairro a Bairro como se fosse um episódio de série. Elas querem saber o que vai acontecer. Onde vou. Quem vou xingar. Toda vez que encontro algum vereador ou prefeito, eles me abordam assim: você num vai me xingar não, né?
No ano passado eu fui cobrir uma reunião da Associação Mineira do Municípios. Estavam todo os prefeitos da região metropolitana. Eles quiseram tirar foto comigo, uma questionava o outro: você já teve o privilégio de receber o Bairro a Bairro na sua cidade. Bom, fui pra pauta com medo de retaliação, e fui super bem recebido.
Qual foi o momento mais marcante que você vivenciou enquanto percorria as comunidades de Belo Horizonte?
Asafe Alcantara - São vários. Não consigo citar apenas um porque todos os dias são locais diferentes, pessoas diferentes, histórias diferentes. Marcam positivamente ou negativamente. Já me deparei, por exemplo, com muitas famílias que não tinham o que comer. Uma vez entrei numa casa, ao vivo, e pedi pra abrir a geladeira. Não tinha quase nada. E perguntei porque estava sem luz. A moradora disse que não ligava há muito tempo porque não tinha comida pra colocar lá dentro e nem dinheiro pra pagar conta de luz. É muito triste.
Já fui em casa que os moradores precisaram construir uma barreira de cimento e tijolo na porta pra água não invadir todas as vezes que chove. O que mais impressiona é que existem muitas pessoas em situação de extrema pobreza bem perto da gente. Em bairros de Belo Horizonte mesmo. Não precisa ir longe pra presenciar essas cenas.
Uma vez uma moradora me disse assim: "pode ser que nem resolva o esgoto a céu aberto na minha porta, mas só de você vir e me ouvir, me dar um abraço, me deixou feliz".
Isso mexe muito comigo. Quem me dera se eu ou Balanço Geral pudéssemos resolver os problemas das pessoas. Muitos bairros resolvem depois da denúncia, mas não são todos.
Quais são os maiores desafios que você enfrenta ao dar voz aos moradores e cobrar melhorias das autoridades?
Asafe Alcantara - Antigamente, quando o Bairro a Bairro ainda estava começando, o desafio era de juntar pessoas. Muitos idosos, adultos, crianças e cachorros caramelos (risos). Essa é a cara da comunidade. Gosto da bagunça. Daquela mistura gostosa. Era difícil de juntar. Eu batia de porta em porta. As pessoas não me conheciam e eu insistia muito pra elas me ajudarem a formar um grupo grande pra denunciar.
Mas rapidamente o Bairro a Bairro caiu no gosto da população e as pessoas começaram a sair das casas pra denunciar o problema. Então hoje, assim que chego no local, facilmente lota. Isso me deixa muito feliz.
O principal desafio é ter um retorno das prefeituras e dos órgãos públicos. Afinal de contas é pra isso que eu to ali. Tem prefeitura que nem ao menos envia nota de resposta. Um descaso horrível! E eu sempre falo ao vivo "Prefeitura, não precisa responder pro Bairro a Bairro ou pra Record. O mínimo é responder aqui pra população!".
O sentimento é de abandono, infelizmente. E o Bairro a Bairro é a esperança de dar luz a um problema ou ir a lugares que nenhuma outra emissora já foi.
Hoje eu não tenho medo de entrar em nenhuma comunidade, favela ou periferia. Já fui em todas! De BH e região metropolitana. Sou muito bem recebido. Inclusive, em muitas delas, já fui abordado por chefes do tráfico que falam assim "você é o único que tem total acesso aqui dentro. Seja sempre bem-vindo". É assustador, mas ao mesmo tempo uma responsabilidade muito grande. Ou seja, o Bairro a Bairro quebra barreiras pra chegar a locais de todos os tipos.
Existe alguma história ou transformação que você acompanhou e que te inspirou profundamente?
Asafe Alcantara - Toda vez que alguém me conta que o problema foi resolvido depois que o Bairro a Bairro denunciou, eu me emociono. Essas histórias são as que mais mexem comigo. Mesmo porque esse é o objetivo do quadro. Me emociono também, diariamente, com o carinho das pessoas nas ruas e nas redes sociais. Crianças e bebês entusiasmados na frente da TV. Recentemente eu mostrei a reação de duas idosas, de quase 100 anos, e uma criança com paralisia cerebral ao me verem. É emocionante.
Eu estava em um determinado bairro, aí moradores me abordam, fazem parar o carro de reportagem, pra falar que numa determinada casa tem uma idosa que é minha fã. É claro que eu paro o carro e vou até o local. Faço surpresa e entro. É impressionante. De arrepiar.
Ahhh, lembrei de algo engraçado e ao mesmo tempo inusitado. Com dois anos de Bairro a Bairro eu já descobri três bebês que se chamam 'Asafe' em homenagem ao meu nome. 3 cachorros, 4 gatos e 2 calopsitas. Eu penso: como assim, meu Deus? É surreal isso.
Inacreditável pensar que as pessoas colocam o nome dos filhos e dos pets de 'Asafe' por minha causa. Nas minhas redes sociais eu postei isso.Eu ainda não me acostumei com esse tipo de "homenagem" (risos)
Eu falo todos os dias e agradeço a Deus porque o Bairro a Bairro mudou a minha vida. Sou grato a Record por me proporcionar tudo isso. Eu tenho 15 anos de jornalismo. Trabalhei em todas as emissoras, mas a Record foi a única que me deu a oportunidade de fazer um quadro que é tão importante pra sociedade e, melhor, do meu jeito.
Assista a um trecho do Bairro a Bairro com Asafe Alcantara, da Record: