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Record instaura medo em jornalistas após rebaixamento de Adriana Araújo

Colegas de emissora se surpreendem com punição a apresentadora; saiba mais

Adriana Araújo
A apresentadora Adriana Araújo na bancada do Jornal da Record
Paulo Pacheco

Publicado em 25/06/2020 às 04:01:00

Adriana Araújo se despediu dos agora ex-colegas de Jornal da Record na última terça-feira (23), provocando choro na equipe por dois motivos: tristeza pela perda de uma amiga e profissional competente; e medo de demissões. Conforme noticiou o NaTelinha no sábado (20), a emissora tem feito uma "caça às bruxas" atrás de funcionários críticos ao governo Bolsonaro.

Nos bastidores, apurou a reportagem, a saída da apresentadora foi interpretada como um recado: qualquer profissional contrário ao presidente pode sofrer represálias. No caso de Adriana Araújo, a "punição" por discordar da cobertura da crise política e da pandemia de coronavírus foi a transferência para o Repórter Record Investigação, que está fora do ar e voltará em julho.

Colegas de Adriana ouvidos pela reportagem se mostraram surpresos pela forma como a jornalista saiu do telejornal que comandou durante uma década. A apresentadora é a terceira profissional do vídeo a ser perseguida pela direção da emissora, mesmo sem ser militante partidária.

Desde o início do governo de Jair Bolsonaro, a Record se prontificou a apoiar o presidente, com um discurso alinhado ao da Igreja Universal do Reino de Deus e do Republicanos, partido político liderado por ex-bispos e ex-executivos da emissora (Marcos Pereira, vice-presidente da Câmara dos Deputados, já foi o número 2 da Record).

Os primeiros alvos da ala evangélica foram profissionais ideologicamente de esquerda, contratados quando a emissora apoiava o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e que poderiam incomodar a gestão Bolsonaro. Paulo Henrique Amorim perdeu a apresentação do Domingo Espetacular em junho de 2019. Morreu duas semanas depois. A suspensão da Record, confidenciam pessoas próximas, prejudicou a saúde do apresentador.

Record instaura medo em jornalistas após rebaixar Adriana Araújo

Durante a pandemia de coronavírus, em abril de 2020, a emissora demitiu o repórter Rodrigo Vianna alegando "reestruturação". A redação ficou preocupada, esperando uma demissão em massa. Entretanto, a tal reformulação nunca aconteceu, e os jornalistas trocaram a apreensão pela certeza de que o colega, outro defensor declarado dos governos do PT e opositor de Bolsonaro, havia sido mais uma vítima de perseguição política.

Diferentemente de Paulo Henrique Amorim e Rodrigo Vianna, que escancaram suas preferências ideológicas, Adriana Araújo nunca se posicionou a favor ou contra o governo. A "discordância", citada por ela própria em vídeo publicado em sua rede social, foi determinante para seu "rebaixamento" (palavra que a jornalista prefere não usar).

Jornalistas ligados a Adriana temem que qualquer posicionamento pode colocar seus empregos em risco, como aconteceu com Márcia Cunha, editora de reportagens especiais. Em sua rede social, ela criticou a "gripezinha", como Bolsonaro chama o coronavírus, e se declarou "antifascista" após os protestos contra o governo. O presidente já rotulou manifestantes antifascistas de "terroristas".

Outro jornalista declaradamente contrário a Bolsonaro, Luiz Carlos Azenha ainda tem respaldo pela proatividade e pelo prestígio. Com Márcia Cunha, faturou o Prêmio Esso de Telejornalismo, em 2013, pela série As Crianças e a Tortura, sobre filhos de perseguidos pela ditadura militar. Por ter mais de 60 anos, o repórter cumpre quarentena em sua casa, mas segue contratado da emissora, pelo menos enquanto a ala evangélica não reclamar.

O NaTelinha perguntou para a Record quantos jornalistas foram demitidos, se a demissão de Márcia Cunha foi provocada por críticas ao governo ou pela proximidade com Adriana Araújo, se a apresentadora deixou a bancada do JR por insatisfação com a cobertura de temas sensíveis ao governo e se setores acima do jornalismo interferem no conteúdo do telejornal. Quando e se a emissora responder, a reportagem será atualizada.

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