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Após rebaixar Adriana Araújo, Record faz "caça às bruxas" de jornalistas contra o governo

Apresentadora foi tirada da bancada do Jornal da Record; saiba quem foi demitido

Após rebaixar Adriana Araújo, Record faz
Adriana Araújo em seu última edição do Jornal da Record

Publicado em 20/06/2020 às 21:03:43 ,
atualizado em 21/06/2020 às 19:49:39

Por: Paulo Pacheco

A saída de Adriana Araújo do Jornal da Record é apenas uma das mudanças editoriais do jornalismo da emissora, que vive em pé de guerra nas últimas semanas. Profissionais que se opõem ao governo Bolsonaro têm sido observados e, em casos extremos, demitidos.

Na mesma semana em que Adriana foi rebaixada para o Repórter Record Investigação (que está fora do ar e volta em julho), a emissora demitiu jornalistas alinhados ao posicionamento da ex-âncora do JR. Nos bastidores, ela discordava da cobertura do coronavírus e outros temas sensíveis ao governo federal, apoiado pela Record.

Uma das profissionais demitidas, apurou o NaTelinha, foi Márcia Cunha, editora de reportagens especiais. Na emissora desde 2004, ela recebeu o Prêmio Esso de Telejornalismo em 2013, pela série As Crianças e a Tortura, sobre filhos de perseguidos pela ditadura militar.

Em suas redes sociais, a jornalista, uma das colegas mais próximas de Adriana Araújo, criticou a “gripezinha”, como Bolsonaro chama o coronavírus, e se declarou “antifascista” após os protestos contra o governo. O presidente já rotulou manifestantes antifascistas de “terroristas”.

Procurada pela reportagem, Márcia optou por não se pronunciar. Entretanto, após sua publicação, ela se despediu da Record em post no Instagram neste domingo (22). "Foram quase 16 anos. tempo que passou ra?pido e deixou marcas fortes", escreveu.

Nos corredores da Record, parte da redação está inconformada com o conflito editorial entre o jornalismo e a direção da emissora, interessada em agradar o governo. O melhor exemplo aconteceu na última edição do Jornal da Record apresentada por Adriana Araújo, na quinta (18). O fato mais importante do dia, a prisão de Fabrício Queiroz, ficou escondido entre outras reportagens policiais.

Antes de informar sobre a prisão de Queiroz, o JR falou sobre feminicídio, produtos falsificados, brigas de trânsito, prisão de suspeitos de um grupo de extermínio, golpes na internet e a reconstituição da morte de um garoto assassinado pela própria mãe. Somente após noticiar os casos de coronavírus, o telejornal exibiu a reportagem sobre o ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente.

Para efeito de comparação, enquanto o Jornal da Record destinou cinco minutos para cobrir a prisão de Queiroz, o Jornal Nacional, da Globo, gastou 41 minutos, mais da metade da duração completa do telejornal.

Adriana Araújo, que comandou o Jornal da Record entre 2006 e 2009 e de 2013 a 2020, deixou a bancada sem se despedir. Nas redes sociais, tranquilizou o público ao dizer que está “bem e serena”. Na sexta (19), já foi substituída por Janine Borba. A partir da próxima segunda (22), o telejornal será apresentado por Christina Lemos.

O clima entre Adriana e a direção da Record ficou ainda mais pesado quando repercutiu mal a interação entre ela e o humorista Carioca durante a apresentação para a imprensa da nova programação dominical da emissora. Vestido de Bolsonaro, o comediante, que horas antes havia interagido com o presidente na porta do Palácio do Alvorada, zombou da repórter Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo, insultada pelo chefe do Executivo.

Adriana, que tinha assinado um manifesto, com outras jornalistas, em apoio à repórter da Folha e repúdio às ofensas de Bolsonaro, foi cobrada pela reação sorridente à fala de Carioca e precisou se explicar em sua rede social.

No mesmo dia em que Adriana Araújo foi tirada do Jornal da Record, uma entrevista gerou insatisfação na ala próxima à apresentadora. Na Live JR, realizada pelo portal R7, os jornalistas Eduardo Ribeiro, Thiago Nolasco e Celso Freitas (que cumpre quarentena em sua casa) bateram um papo muito cordial com o primeiro vice-presidente da Câmara dos Deputados. Ninguém menos do que Marcos Pereira, ex-vice-presidente da Record e bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus.

Em meio a perguntas simples, como as atribuições de Marcos Pereira no Congresso, o afago saiu da boca de Celso Freitas, que dividiu a bancada do JR com Adriana Araújo durante 14 anos e, nesta pandemia, é substituído por Sergio Aguiar.

"Eu queria manifestar meu respeito, minha admiração pelo deputado Marcos Pereira pelo histórico dele. Uma infância humilde, conquista uma profissão de advogado, hoje é professor de direito no Instituto Brasiliense de Direito Público, e porque preside uma bancada de dois senadores e 32 deputados. Na primeira legislatura, assume a primeira vice-presidência da Câmara, parabéns”, elogiou o apresentador.

O NaTelinha perguntou para a Record quantos jornalistas foram demitidos, se a demissão foi provocada por críticas ao governo ou pela proximidade com Adriana Araújo, se a apresentadora deixou a bancada do JR por insatisfação com a cobertura de temas sensíveis ao governo e se setores acima do jornalismo interferem no conteúdo do telejornal. Quando a emissora responder, a reportagem será atualizada.

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