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Estilo Bruntiano: poemas que mostram por que Vanessa Brunt é estudada em universidades

Uma das principais vozes da literatura atual vai muito além dos famosos aforismos e desfaz ferozmente do que achamos que sabemos


Vanessa Brunt
Vanessa Brunt

Nos últimos anos, o mercado literário brasileiro tem visto surgir trajetórias que fogem do caminho tradicional. Entre esses novos percursos está o da escritora baiana Vanessa Brunt, que vem chamando atenção pelo seu formato literário peculiar, frequentemente descrito em estudos universitários como ‘Estilo Bruntiano’.

A também empresária, fundadora da agência de alto padrão Brunt CiAtive, é analisada em unidades como a Federal da Bahia (UFBA), Universidade Presbiteriana Mackenzie, de São Paulo, e a do Estado da Bahia (UNEB). Pesquisadores que analisam sua produção costumam mencionar que o Estilo Bruntiano é caracterizado por paradoxos e jogos bastante específicos de palavras. A escrita frequentemente trabalha com contrastes e quebras de expectativa, ressignificando conceitos sociais e exibindo palavras dentro de outras.

Entre os exemplos mais citados estão frases como: “Transbordo em tudo. Fico onde couber”. Ou ainda construções que brincam com a própria estrutura das palavras, como: “De-morar: só de(more) onde puder sempre estar.”

Mas há o engano de pensar que o fenômeno ocorre apenas em aforismos e trechos curtos. Entre contos distópicos, crônicas e outros gêneros, estão os poemas da autora, que são também analisados em provas e salas de aula, podem exibir ainda mais a força da sua literatura. “Acima de tudo, sou poeta. Quando trago personagens, eles servem como metáforas para, de alguma maneira, poetar”, exclama Brunt.

Um dos exemplos de versos que mostram seu estilo de escrita singular é o Poema 1, que exibe como um ponto oposto pode ser a primeira solução para algo contrário:

“Tem coisa que a gente só enxerga 
quando se distancia.
Tem barulho que a gente só percebe 
quando (se)
muda.
Tem ferida que a gente só cura 
se não acaricia.
Tem gente que a gente só salva 
quando não ajuda.

Às vezes ficar imóvel é 
agir em legítima defesa.
Às vezes é preciso parar 
para poder (r)ir contra a correnteza.
Às vezes é só no silêncio 
que se pode ouvir o estrondo.
Às vezes é só retirando 
que se está realmente pondo.”

Em Palavras Mal-ditas, Brunt parece trazer o que é mal explicado ou maldito, no sentido mais amaldiçoado. A “brincadeira” vai até a palavra ‘versifica’. Ela exclama que:

“(…)Algum triz de amor nasce da sensação de tentativa.
E algum tanto de amor morre ao tentar duas vezes onde-nem-paz-sou.
Quando se demora em inícios, o final é sempre sobre o (sempre) que não começou.
Algum triz de amor nasce para ver se fica.
Algum tanto de amor morre por quem não versifica.”

Entre os poemas frequentemente citados em análises acadêmicas está Maiores na Infância, que começa com tom confessional em trechos como:

“(…) É que ando meio perdida
Sempre,
Mesmo quando sei de mim.
Vivo driblando piscinas vazias
Querendo alma na pornografia
Sentada no trampolim.”

Em seguida, a finalização que mescla críticas sociais, exibindo as feridas da geração, mesmo em escritos que trazem a sua primeira pessoa:

“(…) Marcados demais para a ingenuidade
Sozinhos demais para o acolhimento
Apunhalados demais para a confiança.
Esquecido que só vale o que causa
Ansiedade
Enrugada demais para ser de momento.
Que dure até enquanto
pudermos ser
crianças.”

As palavras dentro umas das outras também se mostram presentes até mesmo em títulos, como em “Es(colha) bem o que cá, rega”, que afirma:

“Escolhas erradas doem mais depois.
Escolhas certas doem mais na hora.
A questão não é escolher qual dor
você quer amanhã ou qual vai sangrar outrora.
A questão é sempre qual pancada vai
levar a consequências piores
e qual roxidão é só sobre aquilo.
Mestre que é mestre
também abaixa a cabeça
para o pupilo.
No final, tudo é sobre o dê pois
e, para decidir, sempre penso se daqui
a cinco anos
vai importar tanto assim.
A melhor escolha não é a que dá mais certeza,
mas é sempre
a que dá algum fim.”

Em Obra-prima, está um conceito-chave que surge depois em seus contos, como o distópico Ir Também é Ficar, onde os protagonistas não podem ter moradas fixas:

“Todo mundo é uma casa.
Onde já se viu entrar em alguma
e sair deixando a porta entreaberta?
Todo mundo é uma casa.
Você não deveria quebrar uma
achando que a cidade encoberta.
(…) Por isso nunca é simples
essa coisa de ir embora.
Fica sua digital na porta,
fica o que todos vão saber na rua,
fica um rastro seu que mora.
Todo mundo é uma casa.
(…) Se você não trancou direito,
nem sinto muito se um ladrão
adentrar.
Se você quebra a parede,
é pelo buraco que a luz vai entrar.
(…) Que ótimo, vejo logo que você não merece
conhecer o andar de cima...
Vamos logo, se apresse,
porque minha casa está em obra
-prima.”

Seus contrastes surgem também constantemente, do começo ao fim, em Simplesmente Já Saber:

“Apresse-se lentamente.
Enlouqueça de forma sã.
Vá com tudo…
gradativamente.
Perca a fé de forma cristã.
Desista aos poucos, 
para dar tempo de não desistir. 
Abandone de vez o que só te segura quando cair.
Saiba quando fugir é ser corajoso. 
Acredite piamente, sendo curioso.
A vida adulta é sobre isso.
Ser um lado sem perder 
a outra parte.
Não ser egocêntrico e nem submisso,
jogar fora sem fazer todo o descarte.
Estar quebrado e não partir ninguém.
Abrir mão do que te faz divertido 
pelo que te faz bem.
(…) Não ser tão livre na visão dos outros para ter  a própria liberdade.
Tomar decisões não apenas por quem você é agora, 
mas por quem você quer se tornar.
Re-cobrar algumas regras apenas para impor novas, 
e para organizar. 
Ter raiva de tudo sem deixar a prece.
Abrir mão do que se quer pelo que se merece.
(…)”

Em Ela Terá Uma Casa de Campo, os jogos de palavras se mesclam novamente:

“Tenho sentido falta de mim.
De um lado antigo que precisou
adormecer.
Ilustrações jogadas no motim.
Aquela sonhadora que via o sol
antes-dele-nascer.
Mas não queria voltar a ser ela
pura e simplesmente.
A que sou hoje não é só mais forte,
sabe também enxergar beleza onde
a outra não via frequente.
A de hoje sabe que ser boa
é também saber quando ser vilã
em um conto jogado.
Só não queria ter que ser ela
sem poder ser também da de ontem
um bocado.
(…)Elas vivem brigando, veja, 
quando tento apresentá-las.
Talvez, olhe bem, a cereja,
seja uma casa de campo a olhá-las…
No dia em que aquela gente não obrigar nenhuma
a surgir.
Tenho sentido saudade.
Quem sabe passe
quando ninguém
precisar
fingir.
Quando a textura da flor
fizer no polegar
algo que se (a)guarde.
Quem sabe dure o cobertor…
quando todas elas puderem ficar
até mais tarde.”

Em Superação, o Estilo Bruntiano se explicita em sua forma crua, cortante e veloz:

“Entre superar e esperar,
entre o talvez e a tal vez,
sou sempre da super//ação.
Entre ser arte e fazer parte,
sigo na impopular fila
do desenho que é à mão.
Sempre vou preferir viver 
de fim do que de não.
Não confundo dificuldade
com verdade e nem encontro
com esbarrão.”

Mas, talvez, o maior poder de Brunt não esteja nos ressignificados ou na maneira única de utilizar a língua portuguesa, mas sim no cerne dos seus ensinamentos, que desfazem de frases comuns como “sofrimento gera crescimento”. Ela diz em Onde Ter Razão:

“Não é o sofrimento que gera crescimento.
É o conhecimento.
Não preciso de nada que me ensine 
através do descontentamento.
Por isso escolher as pessoas para as quais daremos o nosso tempo
é a forma mais real de controlar o nosso destino.
A maneira mais assertiva de amadurecer
é valorizando o cristalino.
Porque toda dor passa, mas o ter doído não.
A única coisa mais forte do que crescer 
é já saber onde nem adianta ter razão”.

Se o foco é em legado, como ela ratifica em Depois Daquilo, o seu principal trunfo é justamente deixar essa marca em refazer o que achamos que sabemos bem: “Legado é sobre caráter e caráter não é sobre a cicatriz. É sobre o que faz depois dela”.

 


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