Pediatria cresce no Brasil, mas desigualdade de acesso desafia atendimento infantil
Publicado em 18/02/2026 às 13:50
Por: Sarah Ramires Cortez
A pediatria brasileira vive um cenário contraditório. Ao mesmo tempo em que é a segunda maior especialidade médica do país, com cerca de 48.654 profissionais registrados em 2023. Ainda assim, enfrenta desafios estruturais que impactam diretamente o cuidado infantil, como a má distribuição geográfica, a sobrecarga no Sistema Único de Saúde e a queda na cobertura vacinal. Nesse contexto, a atuação de especialistas na formação de novos médicos e na organização da assistência se torna decisiva.
A neonatologista Dra. Carla Montenegro Dias, mestre e preceptora do Hospital das Clínicas de Pernambuco há mais de uma década, destaca que a realidade da pediatria no Brasil exige atenção estratégica e planejamento contínuo. Além da atuação na maternidade, ela participa da formação de estudantes de Medicina, médicos residentes de Pediatria e Neonatologia, contribuindo para a qualificação da assistência à saúde infantil.
“Temos muitos pediatras no Brasil, mas eles não estão onde as crianças mais precisam”, afirma a médica. Segundo ela, a concentração de profissionais em áreas urbanas mais desenvolvidas cria lacunas importantes no interior, onde o atendimento infantil frequentemente depende de clínicos gerais médicos sem especialização. “Os pediatras especialistas têm dificuldade de permanecer em áreas mais afastadas pois as unidades de saúde não dispõem de infraestrutura adequada. Faltam exames e vagas para encaminhar os pacientes às subespecialidades, quando necessário. Além disso, os profissionais de saúde são alvos frequentes de violência física e psicológica nas clínicas de pequeno e médio porte, que não dispõem de segurança/vigilância adequadas. Segundo o Conselho Federal de Medicina, os casos de violência contra médicos aumentaram em 68% nos últimos 10 anos. Em 2024, foram registrados 4562 boletins de ocorrência de violência contra os médicos no Brasil. Isso significa que 12 médicos são agredidos por dia no país.”
Nomeada conselheira administrativa da Cooperativa de Pediatras de Pernambuco, a COPEPE, Dra. Carla também participa das decisões estratégicas que orientam o atendimento em consultórios e hospitais da especialidade no estado. “A pediatria é essencial para o funcionamento do SUS, especialmente na atenção básica, mas ainda enfrentamos dificuldade de fixar profissionais em áreas periféricas”, explica.
O cenário atual envolve ainda novos desafios de saúde pública. A queda nos índices de vacinação desde 2016 e o avanço de doenças crônicas, como a obesidade infantil, exigem uma abordagem preventiva e integrada. “Hoje, além das doenças infecciosas tradicionais, lidamos com a obesidade infantil crescente, o aumento do excesso de peso e com a necessidade urgente de retomar altas coberturas vacinais”, pontua.
Outro ponto destacado pela especialista é o fortalecimento do cuidado antes mesmo do nascimento. As consultas de pré-natal já com orientações sobre os cuidados com o bebê após o nascimento e a amamentação são vistas como estratégia importante para reduzir a mortalidade neonatal e melhorar o acompanhamento das famílias. “O cuidado começa antes do parto. O pré-natal bem-feito pode mudar o desfecho de muitos recém-nascidos”, ressalta.
Além da assistência direta, Dra. Carla atua na avaliação de Trabalhos de Conclusão de Curso de residências médicas em Pediatria e Neonatologia, incentivando a produção científica e a formação de especialistas. Para ela, a valorização profissional e a segurança no ambiente de trabalho são os pilares para garantir o acesso equitativo à saúde infantil. “Precisamos de melhores planos de carreira e condições de trabalho para que o pediatra permaneça onde é mais necessário”, defende.
Apesar das dificuldades, o mercado de trabalho na área permanece promissor para os profissionais mais qualificados. A demanda por subespecialidades pediátricas também cresce, acompanhando a complexidade dos casos atendidos.
Para a Dra. Carla Montenegro Dias, o futuro da pediatria no Brasil depende de decisões estruturais e investimento contínuo em formação, oferta de exames, acesso às consultas de subespecialidades e, em especial, à segurança dos profissionais de saúde dentro das unidades de saúde e distribuição de profissionais. “Somente dessa forma, será possível garantir o acesso à Pediatria de qualidade em todas as comunidades e regiões do Brasil” “Garantir saúde infantil de qualidade passa por valorizar o pediatra e ampliar o acesso em todas as regiões do país”, conclui.