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Entrevista NT

Autora de Os Dez Mandamentos defende novelas bíblicas: “Não concordo que há desgaste”

Vivian de Oliveira acredita que ainda há espaço para tramas bíblicas

Montagem com fotos de Vivian de Oliveira e cena de Os Dez Mandamentos
Vivian de Oliveira falou com a NaTelinha sobre Os Dez Mandamentos, Apocalipse e muito mais - Foto: Montagem
Daniel César, com Naian Lucas

Publicado em 12/06/2020 às 07:09:00

Vivian de Oliveira é a responsável por um dos maiores fenômenos de audiência da década na TV brasileira e um dos grandes sucessos da dramaturgia fora da Globo. Autora por trás de Os Dez Mandamentos, ela contou com exclusividade ao NaTelinha que não vê o formato de tramas bíblicas desgastadas e defendeu a continuação do estilo, mas não fugiu de questões polêmicas como a fraca audiência de Apocalipse.

“Eu não concordo que há desgaste no formato. Eu acho que a Bíblia tem histórias excelentes, cheias de conflitos excelentes e reviravoltas. Eu acho que o autor pode sempre reinventar a forma da narrativa dessas histórias bíblicas. Então pode vir sempre com uma novidade, às vezes a própria direção dá uma nova fotografia ou um novo tom pro visual”, explica.

E Vivian dá detalhes de sua opinião. “Eu acho que existe um público muito fiel para essas histórias, é um nicho que a Record investiu e descobriu, tornando-se um sucesso. Eu acho que ainda tem um longo caminho pela frente, acho que dá pra fazer muita coisa boa ainda”, lembra.

Por falar em Os Dez Mandamentos, a autora garante que já esperava o sucesso da trama. “Quando começamos a preparar a novela, eu e a equipe de roteiristas, direção, emissora, atores, todo mundo sabia que tinha um produto de alta qualidade ali em mãos. Depois de fazer várias minisséries, a gente tinha um conhecimento adquirido de fazer novelas históricas, novelas bíblicas desde a equipe de caracterização, historiadores que auxiliaram no workshop. Quando chegou Os Dez Mandamentos foi num momento em que a gente já tinha atingido vários desafios. Então foi o ápice”, relembra.

Autora de Os Dez Mandamentos defende novelas bíblicas: “Não concordo que há desgaste”

Mas a novelista, que está sem contrato desde que decidiu deixar a Record, também teve surpresas com a produção. “O sucesso de Os Dez Mandamentos surpreendeu. A gente sabia que tinha uma excelente história nas mãos e que ia conquistar o público, mas a forma que foi esse sucesso, que foi além das expectativas, isso surpreendeu à todos. E foi maravilhoso”, narra.

“Eu lembro que alguns atores me falavam que fazia muito tempo que eles não conseguiam parar num shopping em todos os lugares que eles iam. Todos os lugares que eles iam, as pessoas falavam da novela. Minha funcionária, que trabalha aqui comigo, contou que as pessoas falavam sobre a novela nos ônibus, na manicure. Foi uma novela que voltou a reunir a família para assistir, algo que não acontecia. Então o resultado foi muito positivo, foi maravilhoso ter um produto desta qualidade que, apesar de temas fortes, era um produto que poderia ser visto por toda família”, conta ao lembrar do período em que a novela esteve no ar.

“Então foi uma satisfação enorme ver a novela ganhando e conquistando cada vez mais o público, não só no Brasil. Em todo país que a novela estreou, ela foi virando um fenômeno. Foi maravilhoso realmente”, conclui. Os Dez Mandamentos foi uma das poucas novelas da história a liderar a audiência enfrentando o principal horário de telenovelas da Globo.

Os Dez Mandamentos

Autora de Os Dez Mandamentos defende novelas bíblicas: “Não concordo que há desgaste”

Responsável por criar o nicho de novelas bíblicas, Vivian conta que não partiu dela a iniciativa. “A ideia de fazer a novela bíblica veio da própria Record. Os Dez Mandamentos, inicialmente, a ideia era uma minissérie de 100 capítulos. Seria uma macrossérie, uma série muito maior que a gente já vinha fazendo. Quando comecei a preparar a sinopse, a Record decidiu transformar numa novela. Aí foi pra 150 capítulos”, confessa.

Ela explica que a Record foi pedindo aumento na quantidade de capítulos. “Quando já estava escrevendo os capítulos, antes da estreia, virou pra 170 capítulos e depois virou primeira temporada, algo inédito em novela. Não terminamos a novela na primeira temporada, avançamos com uma segunda temporada de Os Dez Mandamentos com mais 60 capítulos, então a novela teve mais de 200 capítulos. Foi um desafio enorme” diz.

A novelista explica as dificuldades para pôr no ar Os Dez Mandamentos: “Era uma novela que tinha todo um cuidado histórico, a reconstrução no texto aparecia. O cuidado de passar cultura dos hebreus, dos egípcios, a parte dos costumes da época, então por ser uma novela foi uma aventura”.

O fracasso de Apocalipse

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Embora tenha escrito grandes sucessos, ela também é responsável por um fracasso bíblico na Record: Apocalipse. E questionada sobre o tema, a roteirista não foge da pergunta e dá seus motivos para a baixa audiência da novela.

“Em relação a novela Apocalipse, eu acredito que uma das coisas que prejudicou a audiência foi porque a novela tratava de temas muito polêmicas, delicados, temas difíceis de digerir. Existem muitas opiniões contrárias dependendo do ponto de vista de cada um”, filosofa.

A autora também traça um paralelo sobre suas duas obras. “Já Os Dez Mandamentos está no imaginário popular, uma história que é a base da religião do cristianismo, do judaísmo, do islamismo, então é uma história que, apesar de ter tantos temas fortes, é uma história que as pessoas aguardam por ela. O Apocalipse é uma história que já toca em questões muitos sensíveis. Então eu acho que isso, de certa forma, pode ser o que prejudicou”, garante.

Apocalipse e o coronavírus

Por falar em Apocalipse, a autora relembra a curiosidade da novela estar no ar em reprise justamente num momento de pandemia que, às vezes, parece o fim do mundo. “A novela trata realmente do fim do mundo, dependendo de como se olha, ela trata de um recomeço porque depois do fim do mundo que viria, um novo mundo, a eternidade. E eu acredito que é nesse momento, a Record está reprisando Apocalipse, que fala disso, do que vai acontecer no final dos tempos, segundo as profecias bíblicas”, garante.

E ela explica melhor o conceito. “Algo como o coronavírus, que está acontecendo é algo que vá acontecer futuramente, coisas ainda muito piores e a Record também está reprisando a história de Jesus, que vem como uma esperança para esse final dos tempos. Então achei bem apropriado as duas reprises”, comemora.

Trabalho em novelas bíblicas

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Vivian de Oliveira garante que não abandonou o formato. “Eu gosto muito, amo esse formato das novelas bíblicas, que gosto de chamar de novelas históricas. Eu sempre fui uma autora que gostei muito da parte de pesquisa, de como a pesquisa influencia na criação”, diz.

“Eu tenho ainda projetos de voltar sim, às histórias bíblicas, no cinema, em séries, mas também tenho projetos de textos modernos, também que não tenham a ver com a Bíblia. Eu quero continuar transitando pela parte bíblica, com certeza, tenho interesse nessa restituição bíblica que eu acho fascinante. Mas também quero continuar com histórias originais que sejam atuais”, conclui sem dizer especificamente sobre eles.

Questionada sobre a reportagem, ela foi um pouco além. “Eu tenho alguns projetos que estão em andamento. Tem um com meu filho, um livro infantojuvenil porque ele desenha muito bem. A gente faz tempo que tem um projeto que a gente vem conversando, o meu filho Benjamin vai fazer 11 anos agora em julho, mas ele desde muito pequeno desenha super bem, então eu falei que eu tinha uma vontade de criar uma história que ele ilustrasse, então a gente está trabalhando nisso”, confessa.

Sobre televisão, o máximo que a autora contou foi “tenho uma ideia de filme que está na fase de pesquisa e um projeto de série que está na fase de pesquisa. Já comecei a esboçar a criação, mas agora realmente que eu estou voltando à ativa. Eu precisei de um tempo bom de descanso, de cuidar um pouco de mim, de estar com a família, de curtir. Foi muito bom pra voltar com tudo agora”, reflete

Pandemia e quarentena

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Sobre a vida em quarentena, Vivian de Oliveira explica que viveu muitos momentos. “Nessa quarentena eu passei por várias fases. No início, parecia que estava de férias, parecia que em quinze dias tudo ia voltar ao normal, sabe? Depois, quando a coisa não voltou e aí começou a ficar bem grave o número de pessoas contaminadas, de mortes, aí ficou assustador. Nós ficamos aqui, eu, meu marido e meu filho, a gente ficou bonitinho em casa, tomamos todos os cuidados do isolamento”, jura.

Após falar sobre o momento de tensão, no entanto, ela mostra que houve lado positivo. “Foi legal porque eu comecei a fazer uma coisa que eu sempre quis fazer e não podia porque sempre estava trabalhando, alguma coisa assim, que foi curtir um pouco a parte de fazer um bolo com meu filho, um biscoitinho. Aprendi até a fazer pão na pandemia e a gente brinca, eu e minhas amigas, o que uma quarentena não faz”, ri.

Sendo uma pessoa de fé, a novelista não foge do assunto. “Primeiro teve aquela desorganização da rotina da casa, meu filho começou com as aulas online e agora a gente já está todo mundo com vontade de voltar a rever os familiares, o amigos, mas a gente tem também exercitado muito a vida com Deus, que pra mim essa parte espiritual é fundamental, senão a gente enlouqueceria. Porque temos momentos dá uma tristeza, um desânimo de ficar isolado, de ver amigos, pessoas em situações difíceis, pessoas perdendo entes queridos. Eu faço parte de alguns grupos de oração, a gente tem orado por amigos, por pessoas, feito uma corrente disso, ajudado no que for”, conta.

E ela encerra explicando mais “Pessoas também que estão em situação de risco e foi um tempo que eu percebo foi para ajuste internos, avaliar a própria vida, a nossa família, vê o que pode mudar, como a gente pode sair dessa pandemia mais fortes, o que a gente quer fazer diferente depois, acho que serviu de alerta pra muitas coisas. Serviu também pra gente ver que a gente pode viver com menos de uma forma mais voltada para a família, voltar o que é importante, realmente”, conclui.