"O Outro Lado do Paraíso": Quase plágio, Walcyr Carrasco conhece bem o material que tem em mãos

Divulgação/TV Globo

Publicado em 20/12/2017 às 11:47:03 ,
atualizado em 20/12/2017 às 11:47:49

Por: Ariane Fabreti

Separados por mais de um século, Clara e Édmond foram atirados ao mar para retornarem com novas identidades e darem o troco àqueles que os empurraram do abismo. Enquanto Clara (interpretada Bianca Bin) é uma personagem contemporânea e protagonista da novela “O Outro Lado do Paraíso”, Édmond é francês e personagem principal de “O Conde de Monte de Cristo”, livro célebre do Romantismo aventuresco, escrito por Alexandre Dumas e publicado em 1844.

Colocados lado a lado desde a estreia da novela em outubro, o debate sobre os limites da adaptação e do plágio abandonou as rodinhas especializadas e invadiu a trama de Walcyr Carrasco exibida pela Globo na faixa das 21h.

História clássica de vingança, “O Conde de Monte Cristo” narra a trajetória na qual o ingênuo marinheiro Édmond Dantés se torna o personagem-título para iniciar a sua revanche contra rivais tão poderosos e influentes quanto ele, o próprio conde.

Desde então, ela já foi adaptada incontáveis vezes para o cinema e a TV, e até se tornou anime (o desenho animado japonês). Publicada inicialmente como folhetim, fisgou leitores com os seus temas universais (inveja, ódio, redenção e etc.) e outros elementos que faziam a festa dos autores do Romantismo (do qual Dumas era um dos maiores nomes): os ganchos, as reviravoltas, as revelações bombásticas e a não distinção entre o sublime e o mundano. Esta última característica, por sua vez, parece mais acentuada em Walcyr Carrasco do que em outros autores, se for considerado que o folhetim romântico é pai da telenovela, e que muitas das características do primeiro aparecem em praticamente todas as tramas televisivas.


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Na guerra entre adaptação, plágio e homenagem, o autor de “O Outro Lado do Paraíso” não comete nenhum crime ao usar uma história clássica como base, aspecto que já foi explorado por ele em outras novelas. Mas o problema residiria justamente na característica folhetinesca e romântica de “O Conde de Monte Cristo” ser transplantada para uma telenovela contemporânea e que se pretende tão realista a ponto de trazer cenas fortes e gráficas de violência doméstica, por exemplo.

No texto pouco sutil de Carrasco, as pistas sobre o enredo são entregues de bandeja e algumas liberdades não se encaixam, como o advogado Patrick (Thiago Fragoso), sobrinho da senhora (Nathalia Timberg) que deixou uma fortuna para Clara, ajudar a protagonista sem contestá-la ou sem reclamar parte da herança (no enredo de Dumas, o abade que deixa tal fortuna a Édmond não tem herdeiros, boa manobra do escritor para evitar um obstáculo desnecessário). Há núcleos que não se encaixam, ali expostos apenas para o merchandising social, o que atrapalha o ritmo da trama. Por exemplo, a personagem Estela (Juliana Caldas), filha anã de Sophia (Marieta Severo).

O estilo explícito de Walcyr Carrasco se aproxima dessa mistura entre o elevado e o inferior, o suntuoso e o trivial que, como dito anteriormente, moldou o movimento romântico, inclusive, quando ele chegou ao Brasil. Entretanto, “O Outro Lado do Paraíso” é de outra época e de outro gênero, e como telenovela, não precisa contestar nada (ao contrário dos românticos, loucos para quebrar a caretice do Classicismo), tornando a adaptação gritante e desconfortável. Ainda assim, o público responde com boa audiência, levantando outro aspecto que o autor, experiente, parece já conhecer: as boas histórias sobrevivem, apesar de tudo.

Ariane Fabreti é colunista do NaTelinha. Formada em Publicidade e em Letras, adora TV desde que se conhece por gente. Escreve sobre o assunto há oito anos.



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