Final de "Os Dias Eram Assim" traz mais alívio que saudade

Reprodução/ TV Globo

Publicado em 18/09/2017 às 23:38:20 , atualizado em 19/09/2017 às 00:03:46

Por: Diogo Cavalcante

Depois de se arrastar por cansativos 88 capítulos, a supersérie “Os Dias Eram Assim” chegou ao fim na noite desta segunda-feira (18) na Globo, com gosto de alívio ao telespectador. Com direção confusa, história fraca, soluções fáceis e ausência total de leveza ou escape, causou tédio.

A forma com que as autoras Ângela Chaves e Alessandra Poggi conduziram a trama se revelou equivocada. Ante a fraqueza do ponto principal, o romance de Alice (Sophie Charlotte) e Renato (Renato Góes), restou às escritoras desfiar um rosário de clichês. E os atores, tiraram leite de pedra. 

Nem o último capítulo escapou das saídas clássicas, rezando a cartilha da “paz dos justos”. Do epílogo, o destaque fica para as sensíveis cenas que envolveram a morte de Nanda (Julia Dalavia) e a ciranda em homenagem às vítimas do HIV.

Curioso notar que a intitulada “supersérie” conseguiu juntar mais situações batidas do que todas as “novelas” exibidas ao mesmo tempo. Além do arrastamento da trama - a manifestação das Diretas Já, que serviu de reencontro para os mocinhos, se arrastou por três capítulos - e da ausência total de “alívios cômicos”. Tudo sempre muito pesado, angustiante, depressivo. O colunista Maurício Stycer, do UOL, fez uma perfeita observação quando a intitulou de “baixo astral”.

A direção de Carlos Araújo mais confundiu que aprimorou situações. A “câmera nervosa” em cenas de forte impacto foi uma solução equivocada. A mistura de formatos de imagem, igualmente estranha - a trama, gravada na proporção de 2:35:1, aspecto de cinema popularmente chamado de “cinemascope”, pondo duas tarjas pretas nas extremidades, por diversas vezes apresentou sequências em outras proporções, como o clássico 4:3, 16:9 e até mesmo a aplicação de zoom em imagens de arquivo dos anos 70/80 para adaptar aos parâmetros “de cinema”, estourando a resolução.


publicidade

Nem tudo foi negativo, claro. É preciso reconhecer que o drama de Nanda (Julia Dalavia), que se descobriu soropositiva em plenos anos 80, emocionou.

Há um bom tempo a dramaturgia não se propunha a discutir, de forma clara, correta e profunda os perigos da Aids. Nesta década, as poucas novelas que mencionaram o assunto - “Malhação” em 2011 e 2015, “Vidas em Jogo”, em 2011, e “Amor à Vida” em 2013 – fizeram de forma rasa e, até mesmo, irresponsável.

A trilha sonora, regida por Victor Pozas e Eduardo Queiroz, foi impecável, ainda que tenha tido músicas exaustivamente tocadas em outras novelas. Ações como o lançamento da trilha em LP, fazendo um elo com os tempos que a trama se passa, bem como o uso de imagens de arquivo para ambientar, situar ou explicar situações, foram sacadas inteligentes.

Mas o conjunto da obra foi negativo. A audiência foi boa, só que analisando direitinho, parte do sucesso numérico foi mais mérito da entrega de público feita por “A Força do Querer”, novela das 21h, do que “esforço próprio”, como aconteceu com tramas de sucesso como “O Astro” (2011) e “Verdades Secretas” (2015).

Nos dias em que a supersérie era veiculada às 22h, os índices eram excelentes. Já exibida às 23h, depois da linha de show, a plateia diminuía consideravelmente.

Talvez tivesse sido melhor a emissora ter mantido a sinopse de “Jogo da Memória”, de Lícia Manzo. “Os Dias Eram Assim” não deixará muitas saudades.

Diogo Cavalcante é formando em jornalismo. Amante de televisão e apaixonado por novelas, fala sobre o assunto desde 2013. 



LEIA MAIS

publicidade

COMENTÁRIOS

Para comentar na página você deve estar logado com seu perfil no Facebook. Este espaço visa promover um debate sobre o assunto tratado na matéria. Comentários com tons ofensivos, preconceituosos, de propaganda e que firam a ética e a moral podem ser deletados. Participe!

publicidade