Emanuel Jacobina: "Não há no streaming nada com tanta relevância quanto a TV aberta"
Criador de Malhação fala da possibilidade de volta da novela, revela bastidores de Coração de Estudante e opina sobre produções atuais
Publicado em 10/03/2026 às 05:00,
atualizado em 10/03/2026 às 10:10
Emanuel Jacobina esteve presente no início e no fim de Malhação. Membro da equipe de criação da novela, em 1995, ele também foi o autor da última temporada, exibida em 2020. Em entrevista exclusiva ao NaTelinha, o veterano opina sobre a possível volta da atração em um novo formato. Atualmente fora da Globo, ele se dedica atualmente a um curso para formação de novos roteiristas.
— Eu já tinha o hábito de dar cursos, eventualmente voltados para o melodrama e outras vezes voltados para a comédia, desde o início dos anos 2000. Inclusive, vários autores de novelas passaram por cursos que eu dei na Globo.
+ Fora da TV, Giulia Gam revela ter recusado convites da Globo: "Apavorada"
A partir de abril, Emanuel Jacobina inicia o Curso de Roteiro de Séries e Telenovelas, que tem inscrições abertas, em parceria com a PUC-Rio. O autor, que começou a carreira escrevendo esquetes para humorísticos como TV Pirata, Casseta e Planeta, Doris para Maiores e Os Trapalhões, fez sua estreia na dramaturgia na primeira temporada de Malhação – a novelinha ficou 25 anos no ar.
— Sinto falta, seja no streaming, na TV aberta ou na TV aberta, de uma narrativa que tenha como foco as relações dos adolescentes na sociedade e com a família. Não sei se especificamente Malhação, mas poderia haver qualquer outra série, minissérie, novela ou outro formato que ocupe esse espaço, que está vazio no audiovisual brasileiro.
Uma novidade no mercado são as produções verticais, feitas para consumo via celular. Depois de sucessos no exterior e algumas apostas nacionais, como A Vida Secreta do Meu Marido Bilionário, a Globo passou a investir no segmento no ano passado, com títulos como Tudo por uma Segunda Chance. Sobre o assunto, Jacobina opina:
— Vi muito pouco. Para não dizer que não vi nada, vi alguma coisa de novelas verticais sul-coreanas. Do que eu vi, é uma compactação da linguagem do melodrama. O bem e o mal são muito fortemente estabelecidos, com a polarização muito direta e objetiva. É muito diferente daquilo que praticamos em novelas e séries, em que a linguagem melodramática é um pouco mais elaborada. Principalmente nas séries, não deixamos a polarização entre o bem e o mal ocorrer de forma tão explícita, há uma sofisticação dessa linguagem. Tenho a impressão que tem um lugar para isso. O público parece estar gostando, pelo que tenho ouvido falar.
Malhação teve o fim de sua última temporada antecipado por conta da pandemia da Covid-19, em março de 2020. Na sequência, a atração foi cancelada e segue fora do ar após seis anos. Nos bastidores, há informações sobre a possível volta justamente como novela vertical, para consumo exclusivo nas redes sociais e no Globoplay.
— Não sei dizer se esse é o formato mais adequado para Malhação, porque havia ali uma elaboração grande da linguagem dramatúrgica e realista das novelas. A complexidade da linguagem do jovem também era objeto de muito trabalho em Malhação. Não sei se vai ser possível isso no formato de 1 minuto e meio por episódio. Vamos ter que ver para entender.
Para Jacobina, as obras têm limitações. Ele compara: “Em uma novela vertical com 60 episódios, como as novelas sul-coreanas que cheguei a ver, você está falando de 90 minutos, que dá um longa-metragem. Só que é um longa-metragem que você tem que escrever com um gancho a cada minuto e meio. Ou seja, você tem que ter um ponto de virada ou de impacto emocional para a história a cada minuto e meio. Ao mesmo tempo, precisa explicitar, em cada episódio, a linha entre o bem e o mal e o que está acontecendo na história”.
— Minha sensação é que é um trabalho quantitativamente exaustivo e que oferece menos margem de criatividade do que um filme ou mesmo uma novela e certamente menos que uma série. Tudo isso, estou falando sem nunca ter feito, olhando de fora. Quando você está envolvido, fazendo, o seu olhar muda.
Ele não descarta investir na novidade, caso surja o convite futuramente.
— Como qualquer convite profissional, eu teria que examinar o que é exatamente, qual é a particularidade do que está sendo proposto. Acho que uma novela vertical tem muitas limitações, mas não diria que jamais faria, porque tenho muita curiosidade sobre os formatos. Acho que a gente desenvolve a linguagem a partir da experiência com os formatos.
No período em que era contratado pela Globo, Emanuel Jacobina descobriu a “vocação para rodar nos formatos”. Além de temporadas de Malhação, a única novela que assinou como autor titular foi Coração de Estudante (2002). O início do trabalho foi turbulento, mas a crise de audiência logo foi revertida.
— Comecei enfrentando muita dificuldade, porque era minha primeira novela. Em um determinado momento, a partir aproximadamente do capítulo 70, tive a ajuda do Carlos Lombardi, que nem quis crédito por isso. Foi muito generoso… Ele me ajudou até o capítulo 82, por uns 12 capítulos, mais ou menos.
Com aquele trabalho, Jacobina manteve um diálogo com o público jovem. Na época, fez pesquisas com estudantes em cidades históricas pelo país para compor os personagens da fictícia cidade mineira de Nova Aliança. A trama, exibida às 18h, é lembrada até hoje por fãs, segundo o autor.
— Coração de Estudante foi um sucesso absurdo. Terminou dando 40 pontos de audiência, que era um recorde absurdo para a época. Foi uma experiência incrível na minha vida, e o público também se lembra da novela com muito carinho. O feedback que eu recebo é espetacular.
O veterano conta que chegou a apresentar outras sinopses de novela para a Globo, mas os projetos não foram adiante. Ele também foi colaborador de outras duas novelas: Kubanacan (2003) e Beleza Pura (2008), ambas às 19h.
— Sempre tive curiosidade de testar formatos na Globo. Para mim, sempre foi interessante escrever Malhação, que é um híbrido de novela e série. Também escrevi Sai de Baixo, A Grande Família, Caça-Talentos, Carga Pesada… Estava com um projeto aprovado na Globo de retomada de A Diarista, que me tomou quase um ano de preparação, mas que infelizmente teve que ser abortado. Na época, a Cláudia Rodrigues [protagonista do seriado] estava com problema de saúde e não tinha condições de fazer.
Jacobina está fora do ar na TV desde Malhação: Toda Forma de Amar, exibida entre 2019 e 2020. Ele opina sobre as produções recentes da Globo:
— Vejo eventualmente Três Graças e gosto. É uma novela que honra a tradição dos melodramas e dos folhetins das 21h. Das que estão no ar, também gosto de Êta Mundo Melhor. Não posso falar muito mais do que isso, porque mesmo essas, vejo esporadicamente.
Atualmente, as novelas não estão mais restritas à TV, com produções inéditas para o streaming, no Globoplay e na HBO Max. Para o veterano, há uma grande diferença em relação às obras tradicionais da televisão.
— Por mais que se queira chamar de pequenas novelas, na verdade são séries. Você não vê no streaming, com raríssimas exceções mexicanas, uma novela, com 180 capítulos, de produção diária, com interação com o público também diária. Isso não é característica do streaming.
Ele nota “um momento de transição de linguagem e de relevância” no audiovisual brasileiro.
— A TV aberta não tem mais o mesmo impacto que tinha há 10 ou 15 anos. Ela foi gradualmente perdendo esse lugar, já a partir do início dos anos 2000, já teve uma queda grande em relação aos anos 1980 e 1990. Ao mesmo tempo, não há no streaming nada que tenha tanta relevância quanto a TV aberta. Não está claro ainda se o audiovisual brasileiro vai se destacar futuramente pela produção de novelas, como foi no passado, ou se será construída uma nova linguagem, com um novo tipo de interação com o público por meio das séries, que é basicamente o proposto no streaming. É um momento de transição, mas não sei para onde vai nos levar.