Há 22 anos

Silvia Pfeifer lembra rejeição às lésbicas de Torre de Babel: "Não cheguei a sentir na pele"

Preconceito era velado, mas culminou na morte de Leila e Rafaela; novela está disponível no Globoplay

Silvia Pfeifer lembra rejeição às lésbicas de Torre de Babel:
Em Torre de Babel, Leila (Silvia Pfeifer) e Rafaela (Christiane Torloni) saíram de cena para agradar a audiência - Foto: Reprodução/Globo

Publicado em 14/08/2020 às 04:40:00 ,
atualizado em 06/10/2020 às 11:18:59

Por: Walter Felix

Torre de Babel, novela de 1998 disponível no Globoplay desde semana passada, traz um dos episódios mais sintomáticos na abordagem da homossexualidade na TV. Por conta da rejeição do público, Leila (Silvia Pfeifer) e Rafaela (Christiane Torloni), casadas na história de Sílvio de Abreu, tiveram que morrer na explosão do shopping Tropical Tower, cenário principal da trama.

O atentado, já previsto na sinopse, serviu para que o autor tirasse de cena os personagens que afugentavam a audiência, como também o usuário de drogas Guilherme (Marcello Antony) e o violento Agenor (Juca de Oliveira). O entrecho acabou por revelar, à época, a intolerância de uma expressiva parcela dos telespectadores às lésbicas do horário nobre.

Em entrevista exclusiva ao NaTelinha, a atriz Silvia Pfeifer conta que não chegou a sentir a rejeição de Leila nas ruas. “Nunca ouvi qualquer coisa a respeito da minha personagem, da personagem da Christiane ou mesmo sobre a relação entre as duas. Não cheguei a sentir na pele, mas é claro que, nos grupos de estudo e de avaliação da novela, [o preconceito] deve ter vindo à tona”, conta a atriz.

Na sinopse original de Torre de Babel, Rafaela morreria e Leila se apaixonaria por uma mulher mais velha. Conforme alardeado pela imprensa, o futuro interesse amoroso da personagem seria Marta, a protagonista vivida por Glória Menezes, que, na trama, trocaria Tarcísio Meira por outra mulher – possibilidade que assustou os mais conservadores.

“Por mais que esse relacionamento com uma mulher mais velha, heterossexual, casada e mãe de família não evoluísse, a Leila se envolveria emocionalmente com ela. Mas essa relação não vingaria de fato”, detalha Silvia. A aversão à abordagem da homossexualidade feminina fez com que a premissa fosse inteiramente descartada.

Saída encontrada para Leila e Rafaela foi digna, segundo Silvia Pfeifer

A saída encontrada pelo autor Sílvio de Abreu e pelo diretor geral Carlos Manga foi digna, na opinião da atriz. “Como houve a dificuldade de aceitação do casal, decidiram não seguir com o envolvimento da Leila com outra mulher. Por respeito a mim e à própria história da personagem, e com o desejo de criar algo realmente interessante e forte, decidiram matar Leila e Rafaela juntas. Fui chamada para algo que acabou não sendo possível, e tudo que um ator quer é ser respeitado”, comenta Silvia Pfeifer.

Ela lembra o diálogo na última cena do casal em Torre de Babel. “Uma coisa como essa tem explicação? Tem sim… Só pode ser esse maldito preconceito”, crava Rafaela, na sequência que antecede a explosão do shopping. “Da forma como tudo foi feito, foi muito impactante e respeitoso, à personagem e ao meu trabalho”, avalia Silvia.

A atriz ainda voltaria à cena capítulos depois como Leda, a gêmea da morta, que abarcou ainda mais suspense à novela. “Não se sabia se ela era mesmo a irmã da Leila ou a própria, que não teria morrido. Essa dúvida nunca veio à tona ou foi solucionada. Eu mesma nunca soube, mas acredito que Leda era mesmo a irmã gêmea”, diz.

Passados 22 anos, Silvia comemora que a TV tenha evoluído não só na representação da diversidade sexual – com mais cenas de romance homoafetivo e presença de transexuais –, mas também na aceitação do público, que desenvolveu maior empatia por personagens LGBT+. “Isso é muito bom, porque leva todo mundo a pensar. A televisão traz essas discussões para que as pessoas reflitam e vejam que existe uma outra faceta, um outro lado do mundo, não só o deles, tão fechado”, defende.

Marco na carreira da atriz, Isadora Venturini está de volta em setembro

Isadora Venturini, outro papel marcante de Silvia Pfeifer e sua estreia em novelas, também chega ao Globoplay em breve: Meu Bem Meu Mal estreia na plataforma em 28 de setembro. Exibido há 30 anos, o folhetim de Cassiano Gabus Mendes foi um desafio para estrela egressa das passarelas, que só havia atuado na minissérie Boca do Lixo, naquele mesmo ano.

“Entrei na novela sem me dar conta de que a personagem poderia ser tão má quanto ela se tornou. Aquela maneira de fazer a Isadora Venturini, de uma forma ingênua dentro da minha inexperiência, fez com que eu a deixasse ainda mais dissimulada e complexa. Em alguns momentos, ela parecia tão desprotegida, carente, e, ao mesmo tempo, tão business woman, forte e decidida a ir adiante em suas metas.”

No centro de uma produção que tinha nomes como Lima Duarte, José Mayer e Yoná Magalhães, a então estreante viu seu talento ser colocado em xeque. “Críticas sempre me abalaram, como à maioria das pessoas. É muito desconfortável acordar de manhã e encarar uma crítica, principalmente as ruins, destrutivas, e muitas delas foram assim. Mas faz parte, nosso trabalho é exposição o tempo inteiro”, pontua.

Mariinha foi a primeira mulher “despojada” vivida por Silvia Pfeifer na TV

O papel mais recente de Silvia Pfeifer, no ano passado, foi um ponto fora da curva entre os tipos geralmente destinados à atriz. Em Topíssima, na Record TV, ela foi Mariinha, uma mulher humilde, longe das granfinas a que está habituada a dar vida em novelas.

“Não pensei que eu fosse ser convidada para fazer uma personagem tão despojada e diferente das que eu tinha feito até então na TV. Trabalhei muito a Mariinha, que era forte, digna, bela e rica também, mas interiormente. É uma realidade: nas comunidades mais simples, encontramos pessoas lindas, fortes, dignas, de bom caráter, bons princípios e valores que realmente importam na vida.”

Diante da boa resposta do público, Topíssima terminou com a promessa de uma segunda temporada, possibilidade agora suspensa por conta da pandemia. Sobre a continuação da história, Sílvia é enfática: “Estou na torcida para que aconteça e para que eu esteja nela (risos)”. Por ora, ela toca projetos na quarentena e promete novidades para a próxima semana.

Recentemente, Silvia Pfeifer recusou um trabalho em Portugal – onde fez, em 2017, a luso-brasileira Ouro Verde, exibida atualmente pela Band – para seguir à risca as medidas contra a Covid-19. “Não me senti confortável para aceitar. Temos que continuar tomando o máximo de cuidado possível, em respeito a nós mesmos e aos outros”, explica.


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