Outros tempos

Criminalização da Homofobia: Como a dramaturgia evoluiu ao retratar homossexuais

O STF determinou que homofobia e transfobia é crime

Criminalização da Homofobia: Como a dramaturgia evoluiu ao retratar homossexuais
Beijo lésbico em "Amor e Revolução" - Foto: Reprodução/SBT

Naian Lucas
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Naian Lucas

Naian Lucas escreve há 10 anos e já fez de tudo um pouco nas redações. Apaixonado por televisão, é roteirista e trabalha na área desde 2014. Atualmente, é repórter do NaTelinha e aficcionado por tudo que envolve dramaturgia. Siga-me no Twitter: @naiaan

Publicado em 26/05/2019 às 05:00:09

A maioria dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) foi favorável pelo enquadramento da homofobia e transfobia como crimes de racismo. A decisão ocorreu na última quinta-feira (23) e houve muita comemoração por parte da comunidade LGBTQI.

O tema polemizou, principalmente no meio religioso. Muitos líderes consideraram uma forma de censurar opiniões de pessoas que sejam contrárias à prática homossexual. Porém, quem defendeu a pauta favorável à criminalização, garante que não é um ato de censura, mas uma busca de direitos para que gays atacados e humilhados possam processar os criminosos.

O tema homossexualidade sempre esteve no mundo da dramaturgia, entrando nas telenovelas em 1970. Rodolfo Augusto (Ary Fontoura) foi o primeiro personagem gay dos folhetins, sendo um carnavalesco em “Assim Na Terra Como No Céu”.

Mas outras figuras foram tratadas de maneira caricatas e, ao longo da Ditadura Militar (1964 a 1985), autores tiveram que rifar personalidades homossexuais das suas tramas por causa da censura.

No fim do século passado, “Torre de Babel” (1998), Leila Sampaio (Silvia Pfeifer) e Rafaela (Christiane Torloni) formavam um casal lésbico e sofreram forte rejeição do público. Na explosão do shopping, o autor Silvio de Abreu matou as duas personagens e, coincidência ou não, a audiência cresceu.

Novos tempos

O novo milênio trouxe diversos avanços tecnológicos, de comportamento e na abordagem de diversos temas, incluindo a homossexualidade. Em 2003, por exemplo, Manoel Carlos retratou a descoberta do lesbianismo em “Mulheres Apaixonadas” e simbolizou o amor de Clara Brummer Resende (Alinne Moraes) e Rafaela Alvarez (Paula Picarelli) com um selinho durante a encenação da peça “Romeu e Julieta”.

No ano seguinte, em “Senhora do Destino”, Jennifer Improtta (Bárbara Borges) e Eleonora (Mylla Christie) também conquistaram a simpatia do público e terminaram felizes. Aguinaldo Silva usou diversas cenas dando a entender momentos em que as personagens foram para o quarto fazer sexo.

 “América” (2005) contou a história de Júnior (Bruno Gagliasso) que não sofreu fortes rejeições, porém, a autora Glória Perez decidiu que sua novela teria o primeiro beijo gay da TV brasileira, escreveu a cena que chegou a ser gravada. Contudo, após forte repercussão em todo país, a Globo recuou e não exibiu a imagem. Na época, movimentos religiosos pressionaram o canal para que a cena não fosse ao ar.

Do fim da trama de Glória Perez até “Amor à Vida” (2013), o beijo gay se tornou um tabu e, apesar de diversos personagens LGBTQI terem passados pela televisão, seja de forma dramática ou cômica, a emissora evitou entrar neste conflito com líderes mais conservadores.

O beijo gay

Antes da Globo, o SBT entrou na polêmica e exibiu o primeiro beijo homossexual das novelas brasileiras. Marina (Gisele Tigre) e Marcela (Luciana Vendramini) se beijaram em “Amor e Revolução” (2011), produção que retratava o Brasil no período da Ditadura Militar.

Em janeiro de 2014, no último capítulo, “Amor à Vida”, de Walcyr Carrasco, premiou o personagem Félix (Mateus Solano) com Niko (Thiago Fragoso) e eles encerraram suas trajetórias com um beijo, sendo o primeiro entre dois homens nas novelas da Globo.

Na trama seguinte, “Em Família”, de Manoel Carlos”, foi a vez do primeiro beijo, de fato, entre mulheres na Globo. Clara (Giovanna Antonelli), uma mulher casada e com filho, começa a questionar sua felicidade no casamento. Ela se apaixona por Marina (Tainá Muller) e decide jogar tudo para o alto, inclusive o casamento. Antes do último capítulo, elas deram o primeiro beijo e ganharam a torcida do público.

Em “Malhação – Viva a Diferença” (2017) aconteceu o primeiro beijo homossexual na novelinha teen. Samantha (Giovanna Grigio) e Lica (Manoela Aliperti) viveram a descoberta da sexualidade e trocaram beijos. Houve forte campanha para que ambas terminassem juntas, e o autor acabou optando por ouvir o público. Na temporada seguinte, “Vidas Brasileiras” (2018), Santiago (Giovanni Dopico) e Michael (Pedro Vinícius) se entregaram ao amor e foi um dos casais mais queridos dos telespectadores.

Rejeição

Mas nem tudo foram flores após o primeiro beijo gay da TV. Em “Babilônia” (2015), o público rejeitou violentamente o casal formado por Fernanda Montenegro e Nathália Timberg, principalmente depois de darem um beijo no primeiro capítulo.

À época, o próprio autor, Gilberto Braga, considerou que o fracasso de audiência da novela se deu justamente porque as personagens deram um beijo no primeiro capítulo e acabou chocando o público.

Outros temas

A sexualidade é um assunto que estará sempre nas novelas. Recentemente, transexuais vêm ganhando espaços em papéis de destaques nos folhetins. A representatividade do público LGBTQI tem crescido com o passar do tempo, entretanto, o grupo continua lutando para ganhar mais respeito e oportunidades.

Em “A Força do Querer”, um novo debate foi trazido, como a ideologia de gênero. Provavelmente, assuntos polêmicos como esse vão ser apresentados ao grande público e barreiras serão quebradas na sociedade.


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