Entrevista

Após acusação de Nando Cunha, atriz negra diz nunca ter visto ato de racismo em "Poliana"

Em entrevista ao NaTelinha, Maria Gal fala sobre os bastidores da novela infantil do SBT

Após acusação de Nando Cunha, atriz negra diz nunca ter visto ato de racismo em
Maria Gal é atriz de "As Aventuras de Poliana" - Foto: Divulgação/Pino Gomes

Publicado em 23/05/2019 às 08:56:30

Por: Daniel César

Quem olha para Maria Gal tem certeza que se trata de uma estrela. Atriz e produtora, a baiana é uma lutadora para conquistar papéis de relevância na dramaturgia. Num universo que negros e negras buscam seu espaço com mais afinco, pois ainda há poucos personagens afrodescendentes na televisão, ela vem se destacando em “As Aventuras de Poliana”, no SBT.

Gal interpreta a personagem Gleyce Soares, uma mulher que se dedica para cuidar dos dois filhos adolescentes, representando a típica mulher brasileira, que batalha para cumprir suas metas.

O NaTelinha conversou com a atriz, que também comentou os supostos casos de racismo e assédio levantados pelo ator Nando Cunha em uma entrevista ao site Notícias da TV. 

Veja abaixo todos os detalhes da entrevista:

Em "As Aventuras de Polina", você era casada com o personagem falecido, interpretado por Nando Cunha. Como a Gleyce vai reagir nos próximos capítulos com essa mudança drástica na vida dela e da família?

Maria Gal - Dentre tantas características, Gleyce Soares, tem no seu perfil ser uma mulher forte, que está sempre disposta a superar os desafios que a vida traz para ela e para a família. E essa com certeza será uma das marcas para essa nova jornada que ela vivenciará. Sendo assim ela vai reagir com muita força, fé, determinação e amor pela vida e para com a família.   

Com a morte do marido, certamente a Gleyce terá que ser “pai e mãe” dos filhos, além de ter que tomar completamente as rédeas da casa. Você acha que a tragédia poderá ser uma oportunidade para dar a personagem a chance de debater o empoderamento feminino?

Maria Gal - Com toda certeza. Gleyce já é uma mulher empoderada e esse novo contexto irá trazer mais situações para que Gleyce empodere-se ainda mais, seja em casa, no comitê do laço pink, na escola e até na própria comunidade.

Poliana é uma novela infantojuvenil com público prioritariamente de crianças e adolescentes. As cenas da morte de Ciro foram criticadas por serem muito fortes. Você acha que a sequência não passou do ponto?

Maria Gal - Acredito que Poliana cumpriu a faixa indicativa recomendada a partir dos 10 anos.  Recebi no meu instagram @mariagalreal inúmeras mensagens de carinho para com a família Soares, a respeito das cenas e dessa nova jornada que Gleyce, Kessya e Jef irão passar.

É natural que as pessoas sintam falta do Ciro, mas também é mais um motivo para que tenham empatia e torçam pela família Soares.

Acredito também que um dos pontos positivos da novela, e talvez esse seja um dos motivos que nos coloca com tanta audiência mesmo após um ano no ar,  é o fato da novela abordar assuntos tabus e complexos, como a morte por exemplo, de forma lúdica, ou com uma boa dose de emoção, aproximando ainda mais o público das personagens.  O que aliás acredito ser muito importante para uma produção de audiovisual.  

Nossa novela inicia o primeiro capítulo com a morte da família da protagonista Poliana e isso faz com que ela vivencie uma nova jornada, acredito que uma nova jornada está batendo à porta da família Soares.

Pra você, como é ter a oportunidade de discutir um tema tão atual que é morte por conta das fortes chuvas que vêm atingindo o Brasil?

Maria Gal -  Pois é, moro no Rio de Janeiro, próximo a Rocinha e ao Vidigal. Comunidades que sofrem muito com o problema das chuvas. Tenho inclusive, parte da família que mora em comunidade. Abordar esse tema extremamente atual, acredito que é também uma forma de alertar a sociedade o quanto  nós devemos lutar e cobrar para que os políticos e o poder público, resolvam esses problemas das chuvas que mata tantas pessoas todos os anos, e infelizmente quase nada é feito.

Como era sua relação com o Nando Cunha?

Maria Gal -  É engraçado que pelo fato de fazermos marido e mulher as pessoas acham que gravávamos direto. Minha personagem desde o início da novela além das cenas na própria família, tem cenas na escola e no comitê do laço pink.

E por isso em mais de um ano de trabalho, gravei com o ator Nando Cunha menos de 10 dias, até porque quando gravamos o núcleo da família chegamos a gravar 13 ou mais cenas num dia, otimizando a produção e o cenário.

Nando Cunha saiu da novela por divergências, mas ele chegou a acusar o SBT de racismo e assédio. Como são os bastidores da novela? Você chegou a presenciar alguma dessas situações?

Maria Gal - Os bastidores da novela que presencio é sempre muito divertido e amoroso, até porque as crianças fazem com que o ambiente fique ainda mais leve.

Posso dizer também que nosso elenco é muito generoso e disciplinado então estamos ou “batendo texto” ou nos divertindo com alguém, ou nos Stories - fui intitulada junto com Myriam Rios as rainhas da live (risos) -  ou simplesmente conversando. Nunca presenciei nenhum tipo de situação como essa entre a equipe.

Poliana é uma novela longa. Não está sequer na metade e tem a maior audiência da emissora até o momento. A que você atribui esse sucesso?

Maria Gal - Acredito que uma junção de fatores faz com que Poliana tenha tanto sucesso.

A novela uniu um elenco infantil, adolescente e adulto muito talentoso e generoso.  O roteiro traz um lado lúdico, com humor,  músicas e carregado de emoção, e obstáculos para que as personagens superem. A direção, a direção de arte, edição, figurino é bem trabalhado.

Para além de tudo isso acredito que o próprio espírito de equipe que se formou entre a parte artística, técnica e de produção, aparecem na tela e fazem com que a novela tenha tamanha audiência.

Como é trabalhar numa novela tão longa? São quase dois anos presa em um único trabalho. E você tem projetos para o futuro? Depois da novela?

Maria Gal - Não me sinto “presa” muito pelo contrário tenho gratidão por essa oportunidade e por essa personagem.

Poder expor na TV aberta, nos dias de hoje,  cenas como essa no qual Gleyce expõe a questão racial, acredito ser um privilégio:

Pra mim é simplesmente maravilhoso por inúmeros aspectos. Primeiro porque a cada novo obstáculo você vai aprofundando e encontrando novas camadas da personagem, e num processo mais longo isso pode ser exercitado de forma mais incisiva. A gente tem a possibilidade de errar mais para agir de forma mais assertiva numa próxima cena.

Para além disso é uma forma da gente se aproximar ainda mais da audiência, que se torna também um outro parâmetro para sabermos como nossas personagens chegam ao público.

Outra questão é também a própria empregabilidade neste momento histórico que estamos vivendo no qual retrocessos e desmontes estão ocorrendo inclusive na esfera cultural pública.

Seria excelente se tivéssemos mais oportunidades de trabalhos mais longos como esse, ou que tivéssemos mais TVs abertas, além das que existem, que produzissem teledramaturgia e não apenas comprassem produtos prontos de outros países.

Sobre após a novela estamos desenvolvendo uma série e um filme para os próximos anos, no qual sou co-produtora. Para além disso aguardo convites para os próximos trabalhos na TV e no cinema como atriz, após a novela.


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