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Entrevista

De machão a crossdressing, Milhem Cortaz comemora novo desafio em "O Sétimo Guardião"

Milhem Cortaz fará delegado que gosta de vestir calcinha

Milhem Cortaz
Divulgação
Fabrício Falcheti, com Diego Falcão

Publicado em 16/10/2018 às 06:00:36

Milhem Cortaz coleciona personagens machões na dramaturgia. Ele já foi lutador de jiu-jitsu, policial e até ladrão. Mas em "O Sétimo Guardião", próxima novela das 21h de Aguinaldo Silva, seu personagem, o delegado Joubert Machado, chamará atenção por um detalhe.

Muito bem casado com Rita de Cássia (Flávia Alessandra) e com uma relação fogosa com a esposa, ele gostará de usar calcinha. No início, nem a própria mulher saberá desse fetiche e o ator nem imagina como ela reagirá quando descobrir. Mas com certeza terá uma confusão aí.

Para compor o papel, Cortaz buscou casos reais de homens héteros que tem o costume de usar lingerie. “Eu comentei com um amigo que é praticante de SM (Sadomasoquismo), ele conhece muitas pessoas e me colocou em contato, o cara tava super a fim de falar, mas tinha uma resistência com ele mesmo”, contou o ator, que está curioso para ver o resultado do trabalho junto ao público. “Eu acho que o grande desafio dela é esse, respeitar uma verdade, a delicadeza, essa sensibilidade pras pessoas que se envolvem nesse tema e ao mesmo tempo conseguir fazer o popular, as pessoas que curtem TV, se apaixonarem, gostarem e caminharem junto com ele”, acredita.

Tô feliz, é uma novela muito rica, com muito humor. Depois de tanta novela realista, fazer um realismo fantástico.

Milhem Cortaz

Em entrevista ao NaTelinha, Milhem Cortaz contou como está encarando esse novo desafio.

Confira na íntegra:

Como será seu personagem em "O Sétimo Guardião"?

Milhem Cortaz - Joubert é um delegado muito fogoso, casado com a Rita de Cássia (Flávia Alessandra), uma mulher muito fogosa. É um casal moderno numa cidade onde não tem internet, a informação chega ainda por carta. Ela é uma aspirante e ele um delegado com uma peculiaridade, é um cara que gosta de usar calcinha. Eu acho que ele é um crossdressing, mas acho que é um pouco mais. Ele só se sente homem vestindo calcinha.

E pra você como ator como é fazer um personagem que gosta de usar calcinha?

Milhem Cortaz - Eu acho que é o grande barato da gente poder fazer aquilo que não faz parte do nosso universo. Já fiz lutador de jiu-jitsu, já fiz polícia, já fiz ladrão e agora tô envolvido com essa história da feminilidade do homem. Acho que apesar de ter humor, a melhor forma de abordar um tema tão delicado é com humor, mas é um tema que me enche de orgulho. Nos dias de hoje em que a gente está discutindo a diversidade, cai no meu colo um personagem tão complexo, com tantas camadas e ao mesmo tempo discutindo uma coisa tão atual, é um presente. Só tenho a agradecer ao Aguinaldo por me dar esse trabalho. Tô super empolgado.

Você já fez algo tão desafiador assim?

Milhem Cortaz - Eu acho que eu já fiz muito isso no cinema e no teatro, mas nunca fiz um personagem tão complexo no horário das 21h. O retorno deve ser imediato. Estou curioso pra entender como vai ser o retorno dessa personagem quando ela for mostrada pras pessoas. Eu acho que o grande desafio dela é esse, respeitar uma verdade, a delicadeza, essa sensibilidade pras pessoas que se envolvem nesse tema e ao mesmo tempo conseguir fazer o popular, as pessoas que curtem TV, se apaixonarem, gostarem e caminharem junto com ele.

Eu tenho esse desafio de falar a verdade, defender ele de uma forma delicada e ao mesmo tempo mostrar com humor e fazer as pessoas se interessarem. Depois que eu comecei a fazer esse personagem o que eu mais escuto são histórias de homens que tem muita vontade de usar calcinha e usam pra trabalhar, usam pra ficar em casa, usam pra transar com a mulher. Então eu me senti encorajado e me senti um representante de um assunto tão delicado. Espero conseguir honrar tanto um lado quanto o outro. É muito difícil falar dele assim, porque eu ainda estou tateando. Existe uma vontade e energia muito grande voltada pra isso. Mas ele ainda não gritou pro mundo. Mas tô feliz, é uma novela muito rica, com muito humor. Depois de tanta novela realista, fazer um realismo fantástico.

E ele é fiel no casamento?

Milhem Cortaz - É fidelíssimo. É um casamento de muito amor. Eu acho que esse tema vem no meio pra se discutir a vontade dele e dela. Isso sacode a vida sexual do casal, anima, bota fogo nisso e mostra que mesmo depois de tanto tempo casados mostra o quanto eles se amam. Acho um puta casal, dois personagens bem interessante, de amor. Ele é um dos guardiões, ele é responsável por harmonizar a discussão dos guardiões. Então ele tem muito medo das pessoas descobrirem o segredo dele, pra ele não perder essa credibilidade.

De machão a crossdressing, Milhem Cortaz comemora novo desafio em \"O Sétimo Guardião\"
Globo/João Cotta

É um casal heterossexual?

Milhem Cortaz - Sim, é um casal hétero. Não entra em nenhum momento na discussão da sexualidade. É tranquilo, mas até ela descobrir, eu não sei como vai ser a relação dela disso tudo.

Como você se preparou para viver o Joubert, chegou a ver algum filme?

Milhem Cortaz - Filme eu não vi, eu vi pessoas reais. Eu conheci duas pessoas por intermédio de um amigo, uma delas é um cara super reprimido e que não se abre, guarda o segredo a sete chaves. Ele tem muita dificuldade de abrir isso, não só pra mulher dele como pros amigos. Ele tem muita dificuldade de falar, foi uma conversa muito truncada.

E como você chegou até ele?

Milhem Cortaz - Eu comentei com um amigo que é praticante de SM (Sadomasoquismo) e ele conhece muitas pessoas e ele me colocou em contato, o cara tava super a fim de falar, mas tinha uma resistência com ele mesmo. O problema dele é com ele mesmo. Ele usa calcinha diariamente, mas não consegue se expor.

Eu como artista não posso julgar, se eu julgar eu to caindo numa cilada, tenho que ir lá e fazer com amor da melhor forma possível

Milhem Cortaz



E a outra pessoa?

Milhem Cortaz - O outro cara, ele é chamado pela esposa por um nome feminino e só se veste de mulher, mas ele é um garanhão. Casado com uma mulher, de classe alta, só transa com mulher, é um garanhão.

É um fetiche?

Milhem Cortaz - Essa é grande discussão na novela. Não sei se é fantasia, se é tara, se é fetiche. Eu acho que é um costume. Eu adoraria, dentro do humor, da delicadeza, falar que isso é muito verdadeiro pra ele, é o único caminho pra ele. Eu fui pra um encontro só de homens de calcinha e eles falaram assim que quando eles colocam a calcinha, eles ficam de p... duro, mas na cabeça, dá um poder neles que dá uma força, é alguma coisa sexual mesmo. É uma coisa de masculinidade mesmo.

Você é um ator que passa imagem de garanhão. Qual o cuidado que você está tendo para não cair na caricatura?

Milhem Cortaz - Eu acho que eu não tenho que me preocupar com isso, eu tenho que continuar com o trabalho que eu sempre fiz. Eu acho que desde "Carandiru" eu pego personagens muito fortes e se você for ver a dramaturgia dele é sempre uma cilada. O personagem do "Carandiru" é um cara que sente culpa, que matou 35 pessoas, sente culpa, começa a sonhar, ajoelha pra Jesus. Se você pegar, de certa forma, já tá a caricatura ali. O que eu tento fazer com esses personagens é humanizar, é fazer esse personagem existir e ser aceito pelas pessoas. Eu acho, modéstia parte, que meu trabalho sempre foi pautado pela verdade. Quando eu pego um personagem desse na mão, eu tenho muita vontade falar a verdade dele. E o Aguinaldo me dá de presente. Eu sempre quis fazer humor, é uma forma muito inteligente de fazer as pessoas se aproximarem desse personagem.

Você se preocupa das pessoas estranharem o personagem?

Milhem Cortaz - Eu nunca pensei nisso. Pelo contrário. Eu só queria que as pessoas se identificassem e de alguma forma abrisse um pouco o olho e entendesse um pouco mais sobre o mundo de hoje. Que a gente conseguisse se abrir pra esse mundo. É tão mais legal hoje do que era antigamente. Eu acho tão mais legal, tão mais aberto, eu vejo pela minha filha (Helena), ela tem 10 anos de idade, as coisas que ela conversa comigo é tão mais lá na frente, apesar de ser uma criança que brinca de boneca, quando a gente senta pra conversar é tão mais evoluído, a informação e o mundo é tão mais livre hoje. Eu como artista não posso julgar, se eu julgar eu to caindo numa cilada, tenho que ir lá e fazer com amor da melhor forma possível.

As pessoas vão ver ele de calcinha?

Milhem Cortaz - Vão sim.

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