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Policial em Rotas do Ódio, Mayana Neiva desabafa: "As questões do feminismo são urgentes"

Atriz diz que a protagonista Carolina é sua personagem predileta

Policial em Rotas do Ódio, Mayana Neiva desabafa: "As questões do feminismo são urgentes"
Mayana Neiva em Rotas do Ódio - Foto: Divulgação

Naian Lucas

Publicado em 22/01/2021 às 06:53:00

Protagonista de Rotas do Ódio, da Universal TV e disponível no Globoplay, Mayana Neiva não esconde sua paixão pela personagem Carolina, uma policial durona. A produção embarca em histórias de feminicídio, homofobia e xenofobia e tem servido de lição para a atriz, que confessa ter aprendido muita coisa com o trabalho. Ela explica que o enredo oferece representatividade das questões femininas e isso reflete até em seus posicionamentos políticos.

“Eu só votei em mulheres negras, periféricas e de mandatos coletivos. Acho que a gente precisa ganhar representatividade como um todo. Por isso essa história é tão importante pra mim”, afirma Mayana Neiva em entrevista exclusiva ao NaTelinha.

“O empoderamento feminino, o feminismo, todas as questões do feminismo são as pautas mais urgentes do momento. A nossa série tem uma coisa muito legal que tem uma protagonista nordestina, que sou eu, três atrizes negras maravilhosas, a Teka Romualdo, Naruna Costa e Pathy Dejesus, tem duas atrizes trans, que é a Renata Peron e a outra é a Renatinha. Então tem uma questão de representatividade feminina super importante em termos de tela. Vou confessar que, desde a morte da Marielle [Franco] até a morte da juíza [Viviane Vieira] no final do ano, eu fiquei muito tocada. As questões do feminino estão surgindo muito forte, não só pelo feminicídio, porque sempre existiu, mas porque hoje esse levante feminino, como o Mee Too e todo esse movimento de união das mulheres representa a ascensão das esferas de poder, a representatividade tanto na tela, nos movimentos sociais ou na política. Então é de uma importância de extremo contar essa história, não porque faço parte dela, mas o tema que ela aborda é super importante”, acrescenta, não escondendo sua felicidade.

O tom de voz de Mayana confirma o quanto ela é apaixonada por Carolina. Essa paixão não é por acaso. Baseados em fatos reais, os episódios de Rota do Ódio oferece ao elenco maior profundidade aos acontecimentos de violência doméstica que atingem milhares de mulheres no Brasil. No país, um caso de femicídio acontece há cada 7 horas, segundo dados do portal de notícias do Grupo Globo.

“Interpretar a Carolina é um presente, acho que é o melhor personagem da minha vida, tenho uma paixão enorme. Ela foi inspirada em algumas delegadas, como a Marcia e a Margareth Barreto, principalmente, e do meu lado muito inspirada na Susanna Lira. Esse trabalho é de anos de dedicação e estudo da Susanna, que é a nossa diretora, uma mulher que estudou justiça da mulher durante anos, fez documentário sobre mulheres na ditadura, uma grande mulher. A composição da Carolina é inspirada na Susanna que é, pra mim, um grande presente que a vida me deu de conviver com ela, com a força dela e com essa compreensão. A Carolina também á força da inteligência da polícia, então ela trabalha com entendimento. Tem todo um trabalho de psicologia da polícia por trás desses crimes [de ódio] que são cada vez mais recorrentes, essa violência legitimada. É uma triste, mas fico feliz que exista mulheres como a Carolina”, diz Mayana.

Em um período de maior leveza, Neiva não segurou o riso ao revelar que é mais calma que sua personagem. “Acho que sou menos estressada do que ela. Eu tenho algumas práticas de meditação que eu tento melhorar o dia a dia, que eu acho que seriam boas para Carolina. Eu acho que é o melhor personagem da minha vida e que me transformou profundamente”, brinca.

Porém, após um momento de descontração, Mayana voltou ao tom de voz sério. Por compreender a importância de Carolina nos debates que a série propõe ao telespectador.

“A Carolina é uma personagem muito legal, porque é uma polícia diferente. Ela é da polícia civil, mas faz parte da inteligência da polícia. Ela não é uma policial adormecida, ela é uma mulher desperta. Ela se compadece, se conecta com o que acontece ao redor. Nas duas primeiras temporadas, a gente discute crimes de ódio, intolerância, feminicídio de uma mulher negra, estreamos na semana da morte da Marielle com um história que era sobre feminicídio de uma mulher negra. Então traz questões atuais e super relevantes, que me tocam como Mayana. Eu fiquei muito tocada com a morte da Marielle e de todos os feminicídio que acompanho. É preciso ter muita urgência de falar como isso começa, das relações abusivas, de como se chega a um crime como esse, de como a sociedade permite a objetificação da mulher e que permite esse lugar pra mulheres. A Carolina não é uma policial congelada, que tá acostumada com aquilo. Ela não se acostuma e ela luta por justiça. Então isso é um ponto de conexão entre eu e ela”, relata.

Mayana Neiva e a violência

Mayana está em Rotas do Ódio desde 2018 e ela faz questão de explica como cada história apresenta pela série a ajudou a crescer profissionalmente e pessoalmente. Uma das lições que a deixa consternada é de Renata Peron, sua colega de elenco, que foi agredida fisicamente por ser uma mulher trans.

“A gente tem na nossa série a Renata Peron, que é uma das atrizes trans. Todos os casos da série são casos reais e a Renata foi uma pessoa que sofreu violência. Ela é uma mulher trans, estava andando na Praça da República, em São Paulo, e ela foi atacada por uma gangue do ódio. Chegou a perder o rim. É uma história muito triste, que a Susanna resolve contar, uma história real com interlocução de histórias de tanta... Crueldade”, lamenta, um pouco com a voz embargada.

Mayana se recupera e faz uma conexão da história de Renata com o que outras pessoas estão vivendo no dia a dia. “É uma pauta do nosso tempo o silenciamento das mulheres e essa força coletiva que nos une, que nos empodera. Isso precisa chegar ao fim, a gente precisa olhar de uma vez por todas o longo caminho que a gente tem de consciência como sociedade. Esse racismo estrutural que é tão integrado de uma maneira tão equivocada e terrível ao nosso tempo. Eu acho que, através de obras de artes, esse desenvolvimento de consciência pode chegar mais rápido para as pessoas”, completa.

Rotas do Ódio no Globoplay

Rotas do Ódio está sendo anunciada pelo Globoplay mas a série estreou em 2018 e já contabiliza três temporadas. O enredo relata a jornada da delegada Carolina (Mayana Neiva) e sua equipe no combate a crimes de intensidades variadas, como ameaças e assassinatos. O principal objetivo da policial é dar um fim na gangue Falange Branca, comandada por um playboy chamado Gustavo Zooter (André Bankoff). Os criminosos atacam gays, nordestinos e imigrantes. Além disso, Carolina investiga o assassinato de Jaqueline (Pathy Dejesus).

“A gente ficou muito feliz com a estreia no Globoplay. A gente trabalhou muito duro, é uma pesquisa de anos da Susanna de mulheres na justiça. Foram várias temporadas, algumas gravadas em Heliópolis, acordando cinco horas da manhã, trabalho em equipe super qualificada. Então a gente fica feliz com esse trabalho chegando para mais pessoas no Brasil e nos Estados Unidos. E o retorno tem sido maravilhoso, pessoas escrevendo, se identificando e fico na torcida por mais personagens assim”, vibra Mayana.

Paixão por culturas

Quem assiste aos trabalhos de Mayana, rapidamente identifica seu DNA nordestino. Durante a entrevista, ficou impossível não reparar no forte sotaque que ela tem. Nascida em Campina Grande, na Paraíba, a atriz de 37 anos adora fazer trabalhos que valorizam a cultura brasileira.

“Acho que nossa paixão é essa aí pra verdade que a gente como nome e sobrenome jamais diria. Você citou as personagens anteriores, desde A Pedra do Reino, também, fora o Nordeste que é minha origem. Falar de pessoas de vários lugares do Brasil é muito enriquecedor pra mim e acho que é o maior presente pro ator se deslocar pra pontos humanos tão diferentes dos seus. Fico muito feliz porque a gente sempre sai enriquecida disso”, conta.

“Muitas pessoas falam do ego do ator e tudo mais, mas acho que é um trabalho que se você não tiver humildade de se quebrar, de falar as dores e de oferecer a fragilidade humana você não trabalha, você não comunica a verdade humana daquela vida. Então, tem muito de desconstrução e renascimento e é um prazer enorme retratar as vidas de pontos diferentes e viver essas verdades, acho que a gente sempre sai mais enriquecida do outro lado”, acrescenta.

Pandemia e planos

A pandemia mudou a rotina dela, mas não a impediu de continuar trabalhando. Entretanto, logo no começo do isolamento social, ela optou por dar uma parada e descansar. “Eu te confesso que no começo da pandemia eu pude parar um pouco e descansar e fazer coisas que eu nunca tinha feito. Foi muito bom me reconectar com a natureza”, revela.

Agora já trabalha em ritmo acelerado. “Neste momento eu já estou trabalhando num ritmo muito parecido com o normal, apesar dos protocolos de segurança e eu to gravando uma série da Netflix que se chama Temporada de Verão. Então eu já estou em ritmo normal aqui em São Paulo gravando bastante. Mas com certeza, ninguém sai da pandemia como entrou, modificou muita gente e mostrou pra gente o que de fato é essencial. Conexão com a família, com os amigos que realmente importam, o que realmente é importante na vida e acho que fica uma marca sim, com certeza”.

Contudo, Mayana é politizada e não esconde sua insatisfação com a maneira que os governantes brasileiros estão lidando com a pandemia. “Fiquei muito preocupada com o número de mortes que a gente tem no Brasil, o que aconteceu com o mundo e o descaso até hoje é impressionante e é muito revoltante”, desabafa.

Na visão dela, a pandemia servirá de lição para muitas pessoas. “Acho que 2021 não vai mudar externamente, apesar de ter chegado a vacina, graças a Deus. Que a gente possa se curar coletivamente, mas acho que a gente internamente vai ter que se diferente do que era antes diante de tudo que a gente passou como nação, como seres humanos. Acho impossível a gente não se transformar com tudo que aconteceu”.

Depois de mostrar sua visão de mundo, contar quais experiências teve ao gravar Rotas do Ódio e valorizar a importância de incentivar o empoderamento feminino, Mayana detalha quais seus projetos para 2021. “Estreia o Temporada de Verão, na Netflix, tem a estreia de um filme que eu fiz do Daniel Filho com Lázaro Ramos, que se chama O Silêncio da Chuva, tem estreia de um livro infantil, lançamento para o fim do ano, Sementear, entre outras coisinhas mais. É um ano especial”, conclui.

Confira o trailer de Rotas do Ódio :

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