Análise

História: Flávio Cavalcanti foi tirado do ar em estratégia para estrear o "Fantástico"

James Ackel relata os bastidores da estreia do "Fantástico" que envolveu Flávio Cavalcanti

História: Flávio Cavalcanti foi tirado do ar em estratégia para estrear o
Montagem/NaTelinha

Publicado em 23/06/2019 às 07:39:05

Por: Redação NT com James Ackel

Flávio Cavalcanti foi o maior apresentador jornalista da história do Brasil. Mas se alguém for procurar no Google vai encontrar textos dizendo que ele foi tirado do ar pela censura do Regime Militar por fazer sensacionalismo.

Isto não condiz com os bastidores da televisão e principalmente com os bastidores da Globo e da TV Tupi, onde Flávio apresentava seu programa e era dono do ibope aos domingos na década de 70.

Na época, muito mais sensacionalismo fazia a Globo com Dercy Gonçalves e Raul Lontras. E todos na mesma época de Flávio Cavalcanti.

Flávio estava na Tupi aos domingos, e às quartas-feiras, os outros na Globo, uma emissora criada e desenvolvida pelo grupo de militares da Revolução de 64 e que decidiram dar apoio a Roberto Marinho em seu projeto de comunicação que daria cobertura ao Regime Militar.

Na verdade, não foi Roberto Marinho que deu apoio aos militares mas sim os militares que apoiaram Roberto Marinho na criação da rede de emissoras.

Eis os fatos do polêmico programa de Flávio Cavalcanti e os motivos que levaram a TV Tupi a suspender seu programa.

A Globo queria colocar o "Fantástico" no ar no domingo à noite, mas tinha em Flávio na TV Tupi seu grande rival. Ao contrário de Silvio Santos que apenas fazia entretenimento, Flávio era jornalista e fazia jornalismo ao vivo.

Não apareceu na história da TV brasileira ninguém que se equiparasse a Flávio em apresentação de um programa de entretenimento com jornalismo ao vivo.

E o "Fantástico" também era entretenimento com jornalismo gravado. A primeira coisa que a TV Globo fez foi contratar Maurício Shermann, que era diretor do programa do Flávio.

A missão de Shermann era executar o "Fantástico" e colocar no ar no meio daquele de ano em que ele foi contratado. E tudo foi preparado pra isso.

Mas não poderiam colocar no ar ao mesmo tempo o "Fantástico" contra o "Programa Flávio Cavalcanti" porque o "Show da Vida" não teria chance de ibope contra Flávio naquela época.

Então teriam que arquitetar uma estratégia arrojada. E esta estratégia arrojada foi criada pela Globo. Tinha o objetivo de tirar o "Programa Flávio Cavalcanti" do ar por um período para que o "Fantástico" pudesse entrar no ar sem o Flávio na TV Tupi, que era líder.

"Fantástico" entra no ar 

O "Fantástico" tinha que entrar no ar no meio de 1973 e então montaram uma arapuca para Flávio, que ele caiu. A  Globo sabia de todo conteúdo que Cavalcanti preparava pra colocar no ar. E vendo um conteúdo polêmico, o cenário foi preparado.

Um censor da Polícia Federal foi colocado na plateia do Flavio no domingo e tinha o objetivo de relatar algo que pudesse ser usado contra ele. Então, uma determinada reportagem polêmica foi usada para isso.

Com o relato no dia seguinte do censor, uma representação foi mandada pra presidência dos Diários Associados, empresa dona da TV Tupi que era presidida pelo político da ARENA, João Calmon, que era do partido do Regime Militar.

Então Calmon mandou suspender Flávio por 60 dias, que era o tempo que a Globo tinha pra colocar o "Fantástico" no ar.

Ao contrário de Roberto Marinho, que sempre defendeu seus funcionários contra militares que acusavam estes funcionários de comunistas, Calmon era submisso aos militares e jamais protegeu quem quer que fosse.

E a suspensão de Flávio foi colocada pra Calmon como sendo uma missão e que ele acatou sem perguntar.

Uma vez que suspenderam Flávio Cavalcanti, a Globo tinha que colocar no ar o "Fantástico". Mas o diretor do jornalístico, que era Maurício Shermann, não conseguiu estrear a atração durante este tempo em que Flávio estava fora da televisão. Então Flávio voltou ao ar, para desespero da Globo.

Não demitiram Shermann do "Fantástico" porque Boni, o todo poderoso da Globo, era leal aos seus comandados.

Mas na volta de Flávio, novamente os militares deram ordens para que o presidente dos Diários Associados boicotasse o próprio programa da TV Tupi retirando a verba de produção. Vamos combinar que sem verba de produção não tem jornalístico que resista.

Mas mesmo assim, o Flávio por um bom tempo continuou graças à sua capacidade criativa e também a ajuda que teve do empresário de artistas Marcos Lázaro, que conseguia grandes nomes pra cantar no programa sem cobrar.

Depois de um tempo mais, Flávio passou a irritar os militares por ser contra as prisões arbitrárias e as torturas.

Flávio Cavalcanti, que era de direita, que participou ativamente da Revolução de 64 de armas em punho, não aceitava a tortura de artistas e usava de seus conhecimentos com generais que foram comandantes da Revolução pra livrar amigos artistas das prisões e torturas, como foi o caso do maestro Erlon Chaves e da atriz Leila Diniz.

Mesmo assim sem verba de produção, tempos depois, Cavalcanti foi tirado do ar porque continuava sendo o programa de maior credibilidade da TV brasileira e afrontava a liderança da Globo aos domingos.

Dizer que o apresentador da Tupi foi tirado do ar por sensacionalismo é se levar por relatórios montados por censores e políticos subservientes aos militares que apoiavam a Globo.

Flávio Cacalvanti foi um gênio do jornalismo de credibilidade com Ibope na televisão brasileira e isso assustava a concorrência. "Nossos comerciais, por favor!".


James Ackel é jornalista e faz parte da história da televisão, com passagens pela TV Excelsior, Paulista e Record. 

*As opiniões expressas não refletem necessariamente a posição do site. 


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