Terra Nostra causou polêmica e foi acusada de racismo; autor teve que se defender
Segundo ativista da época, novela exaltava italianos enquanto retratava personagens negros como subservientes e acomodados à escravidão
Publicado em 11/02/2026 às 14:15,
atualizado em 11/02/2026 às 14:18
Há 26 anos, quando foi ao ar pela primeira vez, Terra Nostra causou polêmica e recebeu críticas do movimento negro. A novela foi acusada de racismo, e o autor, Benedito Ruy Barbosa, precisou defender sua criação, reprisada atualmente na faixa Edição Especial, nas tardes da Globo.
Reportagem da revista Veja, em janeiro de 2000, apontou que, apesar dos altos índices de audiência, a produção vinha recebendo críticas de parte do movimento negro. Segundo os representantes, a trama reforçava estereótipos negativos atribuídos à raça negra, enquanto enaltece os italianos.
A filósofa Sueli Carneiro, então coordenadora executiva da ONG Geledés – Instituto da Mulher Negra, apontou falas que insinuam que os negros se acomodaram à escravidão, enquanto os italianos, brancos e "com espírito de liberdade", nunca se conformariam com tal violência.
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Em uma das passagens mais polêmicas, Gumercindo, personagem vivido por Antonio Fagundes, diz, referindo-se aos imigrantes italianos contratados para trabalhar em sua fazenda após o fim da escravidão: "São brancos. Trazem no coração o espírito da liberdade. Não vão aceitar essa história de sanzala".
A ideia de que os negros teriam se sujeitado à escravidão por fraqueza de caráter foram associadas a voga teorias racistas pretensamente científicas, refutada por estudos históricos que apontaram para a existência de diversos quilombos por todo o país.
Segundo os ativistas da época, a novela reproduzia uma teoria preconceituosa sem nenhuma base histórica. Além disso, os personagens negros agiam como se nem mesmo tivessem consciência de que a escravidão já havia sido abolida, a ponto de precisarem ser defendidos pelos brancos.
Para a filósofa Sueli Carneiro, a divulgação de estereótipos pela novela afetava a autoestima dos telespectadores, em especial a das crianças. "É péssimo para um menino negro ver um personagem de sua idade dizendo que Deus não quis embranquecê-lo", observou ela na entrevista.
"Nós só lamentamos o fato de que uma novela que devolveu aos descendentes de italianos o orgulho de sua origem atente contra a autoestima da raça negra."
Sueli Carneiro, filósofa, em janeiro de 2000
O autor Benedito Ruy Barbosa defendeu Terra Nostra. "O fato de meus personagens dizerem determinadas coisas não significa que eu pense do mesmo jeito", disse ele. O veterano apenas quis reproduzir os preconceitos existentes na época retratada na trama, ambientada no início do século 20.
Ele afirmou que pretendia remediar a situação no decorrer da trama, principalmente com as crianças. "Os meninos negros Tiziu e José Alceu crescerão e conquistarão posições sociais de destaque, através do estudo", prometeu, referindo-se aos papéis de André Luiz Miranda e Guilherme Bernard.
Na atual reprise, em Edição Especial, algumas cenas com teor racista têm sido cortadas. Foi o caso de uma discussão entre Maria do Socorro (Débora Duarte) e a ex-escravizada Naná (Adriana Lessa) logo no primeiro capítulo, em que a mulher do fazendeiro ameaçava a rival com violência.
Exibida originalmente na Globo entre 1999 e 2000, Terra Nostra foi escrita por Benedito Ruy Barbosa, com colaboração de Edmara Barbosa e Edilene Barbosa. Teve direção geral de Jayme Monjardim e direção de Marcelo Travesso e Carlos Magalhães.
O NaTelinha divulga todos os dias os resumos dos capítulos, detalhes dos personagens, entrevistas exclusivas com o elenco e spoilers da novela Terra Nostra. Confira!