Reportar erro
Nostalgia

Desespero e cirurgia: Os bastidores de Lauro César Muniz sobre O Salvador da Pátria

À convite do NaTelinha, Lauro César Muniz escreveu um artigo relembrando um dos maiores sucessos da Globo

Lima Duarte em O Salvador da Pátria e Lauro César Muniz
O Salvador da Pátria foi escrita por Lauro César Muniz - Foto: Montagem
Redação NT, com Lauro César Muniz

Publicado em 11/11/2019 às 05:39:49

Por Lauro César Muniz, autor da novela, especialmente para o NaTelinha

 

Proibido pela censura!

Corri para Brasília e enfrentei o papo com o chefe da censura e o censor responsável: “se ao menos o personagem do tenente tivesse uma patente menor... um cabo... “Grande ideia”, gritei ao censor! Melhor ainda, pode ser apenas um carcereiro, sem patente militar! Pego pela palavra, o censor ficou sem palavras! Ele não percebia que o crime em si, tinha dimensão política.

Liberei o meu “Caso Especial” que, com Lima Duarte no papel central, foi ao ar em agosto de 1974, na TV Globo, ainda em preto-e-branco. Com apenas 50 minutos, “O Crime do Zé Bigorna” parecia um oásis de tolerância da ditadura militar, gerando certa perplexidade na imprensa de esquerda, que ainda resistia à ditadura. Dois anos depois o Anselmo Duarte fez um filme a partir do caso especial. Prêmio no Festival de Brasília de 1977 para Lima Duarte e o meu roteiro.

Fiz várias novelas no horário nobre da “casa”: Escalada, O Casarão, Espelho Mágico, Roda de Fogo e deveria sempre alternar com Janete Clair ou Dias Gomes (Roque Santeiro). Em 1989, Daniel Filho me surpreendeu: “por que não retomamos a ideia do crime do Zé Bigorna”?

O Salvador da Pátria: Quinze anos depois?!

De uma trama de 50 minutos mudança para 180 capítulos? 180 vezes maior?! Nem quero fazer as contas! A história de “O Crime do Zé Bigorna” resistiria, segundo meus cálculos, a 15 capítulos. Havia um nexo causal que não me permitia romper o tempo da ação do Zé Bigorna. Oi! Perdão... traduzindo o “dramaturguês”: um personagem inocente que é preso por um crime, não pode demorar a agir. E é objeto muito importante do verdadeiro criminoso, que comanda tudo à distância. Um pobre coitado deve ser logo envolvido pela “máquina” jurídica. Enquanto isso outros personagens de grupos paralelos, ligados à prisão, agem para criar dificuldades maiores para o preso.

O trabalho do Lima Duarte no Zé Bigorna era de espantar! Uma criação excepcional,alguma chama que nascia de seu interior como um mineiro que botou as mãos na terra. Ele vibrava por poder expressar o homem simples de sua cidadezinha que tinha mais cachorros do que gente: Desemboque, era a sua pátria.

Decidi discutir com o Lima. Jantamos enquanto decidíamos: vamos mudar o nome do personagem. Salvador com apelido de Sassá. Sobrenome? Silva como todo brasileiro? Lima pensou, recordou: “eu tinha no meu tempo de adolescente um amigo que se chamava Zé Mutema. Mutema! Lindo! Sassá Mutema! O     que é Mutema?

“Muita teima, muita teima, muita teima, até vencer na vida! Sassá teima em dar um passinho, mais outro, mais outro... Guiado por muita gente... Muita teima, muita teima, virou mutema!” Comemoramos com um pedido de chope!

Animado, fui trabalhar na sinopse!

O título veio logo: “O Salvador da Pátria”! Quem seria o salvador? No país ou na novela? Lula crescia rapidamente na política brasileira. O mais forte diretor artístico da emissora não recuava da ideia de fazer a história do boia fria. Por quê? Há outras histórias, outros autores, por que insistir nessa que pode ter problemas?A emissora tem um comportamento ambíguo: apoia o candidato mais ao centro (direita?) e quer contar uma história subversiva? Não é subversiva! Claro que é! Não é! Muita teima, muita teima, mutema...

Quem seria Sassá Mutema? Analfabeto que, por encantarse com a professora Clotilde, decide fazer o curso noturno de alfabetização para adultos.

A sinopse corria deliciosa, me animando muito: no primeiro tratamento, Sassá Mutema, ao final, se tornava presidente da república! Não pode... então vice... fica calado, escondido...

Com a novela já no ar, devido à eleição presidencial de 1989, a primeira eleição popular depois de 21 anos de regime ditatorial, cresceram as pressões sobre a emissora, de grupos ligados aos militares, aqueles que não desejavam a volta da democracia, enfim, a casta da burguesia nacional. Isso é linguagem de marxistas... Mal o governo militar pretende se afastar, começa a cantoria comunista!

A cantoria da esquerda identificava Sassá Mutema com o então candidato à presidência Luiz Inácio da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT) e julgava o Sassá muito frágil, manipulável: “o autor deseja menosprezar o Lula! A novela das oito, é vista por mais de 40 milhões de telespectadores!

A direita, ao contrário, via em Sassá uma propaganda subliminar que favorecia Lula. E a ordem se impôs de Brasília sobre a Rede Globo: a novela “O Salvador da Pátria”não deve discutir temas políticos. Grande parte da emissora concordava com os censores. Mas a cúpula artística estava do meu lado. Reagimos: trata-se de uma história sobre um político! Temos uma nova constituição! A censura foi abolida! Ah, sim... não há mais uma censura oficial... mas... na realidade ela continuava sob estratégia dosgovernantes do país... O argumento que chegava até mim e percebido por parte da imprensa, é de que o país estava retomando a democracia de forma “cuidadosa”. Forma cuidadosa é a plena democracia, rebatíamos. A solução encontrada foi dar ênfase para uma trama sobre uma rede de narcotráfico, em lugar da trama política.

Ah, sim! Sassá Mutema vai combater o narcotráfico! Brasília via a mudança com bons olhos: o falso herói contra bandidos. Nada de política, uma história policial. Havia uma certa ingenuidade entre os censores, felizmente! Não percebiam que, de qualquer forma, o personagem central e a novela tinham uma forte comunicação política.

O Salvador da Pátria se passa em duas cidades vizinhas, a próspera Ouro Verde e a modesta Tangará. A história começa quando o homem mais poderoso da região, o deputado federal Severo Toledo Blanco, dono da maior fábrica de suco de laranja da região, resolve abafar o zum-zum sobre seu relacionamento com a linda e sensual jovem Marlene. Para evitar suspeitas, ele decide casar a moça com o ingênuo Sassá Mutema. Boia fria que vive da colheita da laranja. Gilda, sua mulher, procura preservar seu casamento, o nome da nobre família e o futuro dos filhos. Ela sabe que Severo casou-se por causa do dinheiro, uma dor profunda porque o amor dela pelo marido é forte. Enfim, a relação é falsa, mas ela o tem na cama todas as noites.

A história do adultério chega aos ouvidos do inescrupuloso radialista Juca Pirama, que passa a explorar o caso...

Quando entrei no tema pra valer, e escrevi as primeiras cenas em que ficava clara a intenção do narcotráfico cooptar politicamente o Sassá Mutema, perto do final da novela, a situação política do país ficou bem definida e polarizada entre Collor e Lula. Nesse ponto fui impedido de fazer esse final... Como? Por que? Vou contar até o ponto que eu sei, mas a verdade mesmo permanece um mistério para mim até hoje.

Eu já começara a escrever o envolvimento de Sassá Mutema com o narcotráfico quando fui chamado pelo Daniel, que me levou ao Boni, que me disse que “não poderíamos levar a novela até esse ponto. Sassá não poderia ser eleito presidente da República, não vamos em hipótese nenhuma fazer isso”. Mas é uma parábola, disse eu, nas minhas tentativas de defender a minha ideia. Mas os chefes foram categóricos: não pode, Lauro, o cara ser eleito ligado ao narcotráfico. O Sassá chegar a presidente está vetado!  E veio a solução: “Você vai para o policial. Ele ficará na política regional e vai desbaratar quadrilha do narco, não vai passar disso. Fica no policial”.

Fiquei abalado, chocado, desci para a sala do Daniel Filho e ouvi no corredor um buchicho de que o ministro da Justiça teria ligado para o Dr. Roberto Marinho com uma frase bombástica, absurda: “o autor dessa novela vai eleger o próximo presidente da República!”

Era demais!

Fiquei tonto e sem saber o que fazer. Daniel me olhava preocupado: se quer chorar, chore a vontade. Levantei e fui ao lavado da sala do Daniel. Lá fiquei algum tempo e Daniel ficou preocupado.

    -Tudo bem aí, Lauro? (Nada) Precisa de alguma coisa.

    -Uma arma, um veneno, uma gilete...

    Pausa.

    - Lauro!

Daniel chamou os seguranças. Sai do banheiro sem me suicidar.

A trama explode quando Juca Pirama e Marlene são encontrados mortos e Sassá é acusado dos assassinatos. Preso, tenta provar sua inocência com o apoio da professora Clotilde. Quando se descobre que o ultra moralista, conservador, Juca Pirama era, na verdade, um corrupto ligado a negócios escusos, a reputação de Sassá muda e ele, embora preso, ganha popularidade a ponto de chamar a atenção dos políticos locais, que querem transformá-lo em prefeito de Tangará.

Os poderosos da cidade julgam que podem manipular o ingênuo boia-fria para defender seus interesses. Sassá Mutema aceita o apoio das pessoas influentes e a orientação de Clotilde. Vence as eleições, porém, ao tomar posse, rompe com os aliados que tentavam governar e assume uma posição política independente.

O importante é o seguinte: não pude fazer de O Salvador da Pátria a história que eu me propunha a escrever. Em ano eleitoral foi um erro geral, a falta de previsão.

Quando faltavam uns 15 capítulos para terminar a novela, comecei a sentir muitas dores abdominais, cheguei a pensar em outro enfarte. Um médico me examinou e descartou essa hipótese. Eu ia a uma clínica e tomava Buscopam na veia, para poder suportar a dor, ganhar tempo para chegar ao final da novela. Eu estava obcecado pelo trabalho. E aí uma amiga olhou pra mim e falou: “Lauro, você está muito pálido. Já se olhou no espelho? Estou achando melhor você ir a um médico”. Imediatamente eu disse que não, que veria isso depois. Ela desistiu de me convencer e trouxe o médico a mim: o Raul Cutait, um grande cirurgião de abdome. Ele olhou pra mim: “você está doente! Ao que eu respondi: tomei injeção e fiz exame de sangue”!  Ele pegou o telefone: “preciso saber dos resultados do exame de sangue feito por Lauro César Muniz”. Ele desligou o telefone e disse: “vou marcar cirurgia pra já. Você está com problemas na vesícula e pode ter um derrame para o pâncreas, que pode ser muito perigoso”. Eu retruquei: “operar!? Nem pensar! Tenho que acabar a novela!O médico insistiu: você está é querendo acabar com a sua vida. E marcou a operação para as 21 horas”.Já grogue, no hospital, recebi um telefonema de um diretor da emissora, assustado. Eu tentei acalmá-lo dizendo que estava passando os últimos detalhespara o Alcides terminar a novela. Ele ainda retrucou: é o final da novela! Opera depois! Eu respondi: estou indo para o centro cirúrgico, fale com o Alcides!

Alcides escreveu os últimos capítulos, deixando, carinhosamente, o último capítulo para eu fazer.

Não é por acaso que foi a última novela que fiz para as 8. A última. Mais uma vez estava lá o rebelde: foi operar a vesícula, abandonando o final da novela das oito!Apesar de tudo “O Salvador...”fez um enorme sucesso, alcançando o segundo lugar de audiência entre todas as novelas das oito, na TV Globo(até aquele momento, agosto de 1989).

Na última cena Sassá / Lima e Clotilde / Maitê, apaixonados e acompanhados de muitos jovens, brincavam no campo. A vitória do amor. Ficção ou realidade? Na época a imprensa de televisão brincava com o casal como se o amor dos personagens tivessem estimulado o amor entre os atores. Será? A novela fechava com um final feliz! E a vida? Só o futuro saberia responder se os atores imitariam os personagens.

Ficha Técnica:

  • Autoria: Lauro César Muniz
  • Colaboração: Alcides Nogueira e Ana Maria Moretzsohn
  • Direção: Paulo Ubiratan, Gonzaga Blota, José Carlos Pieri e Denise Saraceni.
  • Música: Edu Lobo
  • Supervisão Geral: Daniel Filho.
  • Elenco: Lima Duarte, Maitê Proença, Francisco Cuoco, Suzana Vieira, José Wilker, Lúcia Veríssimo, Stênio Garca, Betty Faria, Luiz Gustavo, Gracindo Júnior, Cecil Thiré, Lucinha Lins, Mário Lago, Tassia Camargo, Antônio Calloni, Maurício Mattar, Suzy Rego, Paulo César Pareio e muitos outros atores e atrizes.
  • Período de exibição: 09/01/1989 – 12/08/1989
  • Horário: 20h30

             Rio de Janeiro, 06. 11. 2019
Mais Notícias