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Sindicato indica Castrinho, aliado de Bolsonaro, para ser secretário de Cultura

Ao NaTelinha, ator de 79 anos se diz "soldado" do governo, mas nega querer derrubar Mario Frias

 Sindicato indica Castrinho, aliado de Bolsonaro, para ser secretário de Cultura
Castrinho e Jair Bolsonaro em 2018 (Foto: Reprodução/Instagram/jairmessiasbolsonaro)

Paulo Pacheco

Publicado em 18/08/2020 às 04:15:01

A Secretaria Especial de Cultura, com constantes mudanças em seu comando, ganhou um novo candidato a chefe da pasta: Castrinho. O ator e humorista de 79 anos, atualmente na Record, colocou-se à disposição do presidente Jair Bolsonaro para trabalhar no governo.

O NaTelinha teve acesso a uma correspondência, enviada para Bolsonaro em 30 de julho, com a sugestão do nome de Castrinho para a Secretaria Especial de Cultura. A carta é assinada por Jorge Coutinho, presidente do Sated-RJ (Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado do Rio de Janeiro).

Bolsonaro recebeu a carta, de acordo com a resposta do gabinete presidencial, "pela qual apresenta o nome do senhor Geraldo Freire de Castro Filho para o cargo de secretário de Cultura do Governo Federal". A sugestão de Castrinho também foi repassada à Casa Civil.

A reportagem consultou Castrinho e Jorge Coutinho, que confirmaram a indicação para a Secretaria de Cultura. Com formação militar, o ator diz que seu nome foi sugerido por um "movimento civil", englobando colegas artistas e amigos próximos das Forças Armadas.

"O Jorge Coutinho resolveu fazer uma carta baseada na indicação de um movimento civil e que ele aprovava minha indicação pelo meu currículo, meu patriotismo e pela minha história. São só 62 anos de carreira. Quero deixar claro que não me ofereci, me ofereceram. Foi um movimento que fizeram pelo meu passado. Não quero absolutamente prejudicar alguém nem tomar o lugar de ninguém", esclarece Castrinho, negando qualquer intenção de derrubar o titular da pasta, Mario Frias.

Sobre o atual secretário de Cultura, o presidente do Sated admite não conhecê-lo tão bem como conhece Castrinho, o nome ideal para o cargo na sua avaliação.

"O rapaz que está na Secretaria de Cultura, que deveria ser Ministério, é ator, andou fazendo umas peças, Malhação. Eu conheço o Castrinho e ele eu nunca vi trabalhar, essa é a verdade. Eu ficaria muito feliz se o presidente aceitasse o Castrinho. Para ele e para a categoria, seria muito melhor", compara Jorge Coutinho.

Castrinho: "Soldado" de Bolsonaro e próximo a Mourão

Aos 79 anos, Castrinho está no ar na reprise de Apocalipse e voltou a gravar Amor Sem Igual, interrompida pela Record em função da pandemia de coronavírus. Seus trabalhos mais marcantes foram ao lado de Chico Anysio: Cascatinha (Chico Anysio Show) e Geraldo (Escolinha do Professor Raimundo).

Apoiador de Bolsonaro, Castrinho virou cabo eleitoral do então candidato em 2018 e chegou a visitá-lo em sua casa após a facada sofrida durante uma passeata em Juiz de Fora (MG). O passado e a boa relação com as Forças Armadas são pontos positivos para a indicação do ator à Cultura.

"Ele é muito amigo do [Hamilton] Mourão", afirma Jorge Coutinho. Castrinho explica a proximidade com o vice-presidente da República: "Estudei no Colégio Militar, e depois que saí sempre elogiei. Como sou uma pessoa dentro da reta do governo, digamos assim, talvez por isso também me indicaram. Se eu fosse um esquerdista, talvez não teria sido indicado, mas minha formação militar me faz ser um cara de centro-direita".

O humorista admite ter ficado lisonjeado com a nomeação e diz se sentir pronto para ocupar um cargo no governo: "Naturalmente, é uma honra. Com o tempo que tenho de carreira artística e pelo que conheço, acho que teria um bom desenvolvimento. E, além do mais, sou um soldado, no sentido figurado da palavra, que estou à disposição do comando do Brasil. Na hora que precisarem de mim, eu vou". 


Castrinho ao lado do vice-presidente da República, Hamilton Mourão, e sua mulher, Paula Mourão (Foto: Reprodução/Instagram/castrinhoreal)

Diálogo com a esquerda

Castrinho também acredita ser capaz de estabelecer um diálogo do governo com artistas de esquerda, ausente na secretaria principalmente na gestão de Regina Duarte, que durou menos de três meses.

Para justificar seu bom relacionamento com artistas contrários a Bolsonaro, o ator revela ao NaTelinha ter interferido no retorno de Caetano Veloso do exílio, no início da década de 1970, após ter sido preso pela ditadura militar.

"Tenho até orgulho de dizer que nesses 62 anos de carreira nunca tive problema algum com meus colegas. Quando o Caetano foi para a Inglaterra, a [Maria] Bethânia, minha amiga, me procurou, porque como fui do Colégio Militar eu já tinha algumas ligações, inclusive um dos generais que mandavam na época foi padrinho do meu primeiro casamento. Ela foi me procurar com o empresário dele pedindo se eu conseguiria trazer o Caetano de volta sem ele ser preso nem apanhar. Eu dei um jeito, pedi, e trouxeram o Caetano. Ele voltou, desceu na Bahia e não aconteceu nada com ele, está aí até hoje. Na onda dele, vieram os outros." 

O presidente do Sated, caso a indicação de Castrinho seja aceita, já preparou sua lista de reivindicações.

"O coração da cultura nem é a secretaria, e sim a Funarte. Botaram um rapaz que era empregado do filho do Bolsonaro que é vereador [Luciano da Silva Barbosa Querido, ex-assessor de Carlos Bolsonaro]. Não é implicância com Bolsonaro, mas é um cara que não tem nada a ver, e ele cada vez fica mais queimado perante a classe e perante os negros. Falo como negro, e ele me bota na [Presidência da] Fundação Palmares um cara que é maluco [Sérgio Camargo]. Os negros ficam p... de vida, os artistas ficam p... da vida", reclama.

Castrinho critica a falta de gestão da Secretaria Especial de Cultura e deseja, se for chamado para atuar no governo, ouvir as ideias de Bolsonaro para a área antes de fazer promessas à classe artística.

"Vou ser muito sincero. Eu até agora vi pessoas com capacidade de fazer, mas não com capacidade de gestar. O primeiro item que você tem que fazer é sentar com a cúpula da Presidência, o presidente e o resto do pessoal, e conversar com eles sobre como é o caminho da cultura que eles querem levar, porque não adianta chegar e falar: 'Vou fazer isso', 'Isso não pode', 'Isso não quero'. Quero saber qual é o caminho, aí sim posso opinar. Não quero levar só as ideias, quero que eles deem as ideias e eu coloque as minhas, de uma maneira bem conversada e estruturada para a gente fazer a gestão da secretaria bem lógica, sem problemas", avalia.

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