Em "O Outro Lado do Paraíso", público e elenco entenderam Walcyr Carrasco

Divulgação/ TV Globo

Publicado em 11/05/2018 às 23:50:58 ,
atualizado em 12/05/2018 às 00:19:45

Por: Ariane Fabreti

Até o telespectador mais desatento foi atraído por “Xica da Silva” na Manchete, alguns anos antes de a emissora fechar as portas, em 1999. O autor, Walcyr Carrasco, ainda desconhecido, tinha como trunfo o texto afiado e certa ousadia ao abordar um tema que, na TV, era ainda enviesado pelo romantismo: a escravidão. A história sobre a escrava que se tornou rainha foi o passaporte de Carrasco para o SBT e para a Globo.

Nesta última, fez carreira até chegar ao horário das 21h, a cereja do bolo da teledramaturgia. O seu estilo mordaz, que transitava entre o teatral, a comédia de costumes e a pornochanchada, resvalou em um conservadorismo coberto por humor involuntário, como bem atestou o enredo de “O Outro Lado do Paraíso”, que terminou nesta sexta (11).

A vingança de Clara (Bianca Bin), a mocinha ingênua enganada por vilões gananciosos, começou explicitamente inspirada no clássico “O Conde de Monte Cristo” de Alexandre Dumas e perpassou todos os matizes e gêneros possíveis. Do merchandising social ao escracho, passando pelo melodrama, Carrasco testou diversos limites em “O Outro Lado”, após o sucesso estrondoso de “Verdades Secretas” em 2015 (que lhe rendeu um Emmy) e o apelo popular de “Êta, Mundo Bom!”de 2017.

Se a mão pesada de Carrasco no horário das 21h já havia aparecido em “Amor à Vida” (2009), em “O Outro Lado”, ela surgiu mais despudorada, embora a direção sofisticada de Mauro Mendonça Filho tenha freado, pelo menos visualmente, a bricolagem do autor. Diferentemente de outras histórias de vingança, Clara não foi uma personagem ativa. Os seus planos insípidos lhe caíam no colo, com a ajuda de Patrick (Thiago Fragoso), o advogado que transitava para a posição do galã sem potencial.

Núcleos atarantados jogaram atores e atrizes veteranos em situações constrangedoras, como Glória Pires, Laura Cardoso, Fernanda Montenegro e Lima Duarte, e reviravoltas mais inverossímeis do que surpreendentes colocaram “O Outro Lado” no rol de novelas marcantes por motivos duvidosos. Apesar de tudo, a novela teve alta audiência. E aí reside um dos mistérios mais bem guardados não só desta trama em especial, mas da popularidade de Carrasco.

Ainda que deixe parte dos seus telespectadores atônitos com a sua tentativa de ser arrojado ao abordar certos temas, Walcyr Carrasco não se importa em cair na caricatura, no exagero e na caretice disfarçada de ousadia. É provável que uma parcela do público tenha percebido isto e embarcado, assim como os atores, nestes últimos capítulos: Marieta Severo como vilã clássica, armada com tesouras, e o espírito de Laura Cardoso dançando ao som de Pablo Vittar em direção à luz no próprio velório realizado no bordel onde comandou. Ou seja, nem os telespectadores e nem o elenco são ingênuos, eles sabem, de uma maneira ou de outra que, na sua confusão (ou plágio, ou homenagem, ou pastiche), Carrasco calcou todo um estilo.

Ariane Fabreti é colunista do NaTelinha. Formada em Publicidade e em Letras, adora TV desde que se conhece por gente. Escreve sobre o assunto há oito anos.



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