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Querendo ser novelão, “O Outro Lado do Paraíso” denuncia a mão pesada de Walcyr Carrasco

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Divulgação
Redação NT

Publicado em 23/10/2017 às 23:35:49

Quem ligou a TV nesta segunda-feira (23) para acompanhar a estreia de “O Outro Lado do Paraíso”, sucessora de “A Força do Querer” na faixa das 21h da Globo, pode ter experimentado uma estranheza. Estranheza esta que vai além da impressão comum que um telespectador tem após tornar-se órfão de um enredo de sucesso, como foi o caso da novela de Glória Perez. Os créditos na tela enquanto as cenas iniciais desenrolavam-se, a ausência de abertura, as longas tomadas sobre a paisagem dos grotões do Tocantins, onde a nova trama, escrita por Walcyr Carrasco, promete movimentar-se. Enchendo os olhos, o telespectador pergunta: é série ou novela?

O choque de estilos tornou-se uma constante para o noveleiro mais assíduo, desde que a emissora dos Marinho adotou o tom cinematográfico para personalizar cada trama e fisgar o telespectador que passou a pautar-se pela sofisticação das séries importadas nas últimas décadas.

Autor de comédias ligeiras e caricaturais, Carrasco provou que consegue contar histórias mais densas com a novela das 21h “Amor à Vida” (2014) e a novela das 23h “Verdades Secretas” (2015), ambas dirigidas por Mauro Mendonça Filho, com quem Carrasco repete a parceria em “O Outro Lado do Paraíso”. Voltando à estreia desta última e à pergunta do telespectador em relação ao material que via na tela, a resposta pode ser: sim, é novela, e muito bem feita. A questão torna-se outra, após o mergulho em tantas paisagens belíssimas e no desenrolar cheio de fôlego da trama: será que a novidade segura a atenção do público nos meses seguintes?

O próprio Walcyr Carrasco anunciou “O Outro Lado do Paraíso” como um folhetim clássico, com alta carga de reviravoltas e de características tão sonoras quanto picantes (ambição, inveja, ciúmes, sensualidade etc.). O enredo central apresenta quase um fiapo de história através do romance entre a ingênua professora Clara (Bianca Bin preenchendo com maestria a função de mocinha tradicional), o playboy Gael (Sérgio Guizé, que acertou no tom meio James Dean do personagem) e o médico Renato (Rafael Cardoso). A mãe de Gael, interpretada por Marieta Severo, permite o noivado entre Clara e o filho ao descobrir que a moça vive em um terreno fértil em pedras preciosas. Estes protagonistas não economizam na sutileza, como bem manda o texto sólido, e infelizmente, didático de Carrasco.

Querendo ser novelão, “O Outro Lado do Paraíso” denuncia a mão pesada de Walcyr Carrasco

Os personagens, pelo menos neste primeiro capítulo, são planos, reproduzindo o binômio rico desonesto/pobre humilde, mocinhos/vilões, sem dar espaço para o telespectador respirar ou deduzir. Mauro Mendonça Filho mergulha tais personagens em seus ambientes, mas sem perder a mania de conduzir as cenas como um longo videoclipe, perdendo a objetividade do enredo que se propõe tão direto.

Enquanto pergunta se está diante de uma série ou de uma novela, o telespectador pode ter a chance de apegar-se ao “Outro Lado do Paraíso” se o enredo e os personagens deixarem a secura para a paisagem e inspirarem-se na economia dos gestos de Fernanda Montenegro e de Glória Pires, integrantes do elenco cuja leveza só a experiência consegue proporcionar.