Falsos amores e uniões por interesses: um raio-X dos estranhos casais de "O Outro Lado do Paraíso"

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Os estranhos casais de "O Outro Lado do Paraíso" - Fotos: Divulgação/TV Globo

Publicado em 02/04/2018 às 09:05:17 ,
atualizado em 02/04/2018 às 11:17:16

Por: Redação NT com Rita de Cássia Arruda

Em "O Outro Lado do Paraíso", novela das nove da Globo, parece não haver afeto sincero, amor desinteressado e, em alguns casos, vida sexual saudável e descomplicada entre os personagens. Amor e sexo não têm necessariamente que andar de mãos dadas, mas o que se vê na trama de Walcyr Carrasco, em maior ou menor grau, são homens e mulheres que se envolvem quase sempre visando apenas levar algum tipo de vantagem. Deste modo, uma vez que as conquistas intentam no mais das vezes algum interesse, vale tudo para atingir o objetivo.

O que também se percebe, como consequência dessas relações descompromissadas com o afeto, é que tais casais se formam e se separam de acordo com a conveniência do momento, nem sempre apartados por uma terceira pessoa que se vale de ardis para descasá-los, mas antes por decisão própria; todas as vezes em que as possibilidades de tirar algum tipo de proveito da relação se esgotaram.

Talvez alguns telespectadores se identifiquem com determinado casal da novela ou então conheçam um amigo, um vizinho, um parente, um colega de trabalho ou qualquer outra pessoa que se encaixe no perfil daqueles que formam pares em O Outro Lado do Paraíso. Afinal, como obra de ficção, a novela se propõe exatamente a isso: retratar situações da vida real de pessoas comuns, na pele de personagens fictícios, de sorte que possam parecer minimamente verossímeis.

O problema com a trama de Walcyr talvez seja o fato de não haver um contraponto nesse mar de relações complicadas e/ou disfuncionais nas quais frequentemente faltam o amor, o respeito e mesmo o sexo. Walcyr misturou no mesmo balaio de gato somente casais interesseiros ou então aqueles que carregam para a relação problemas de ordem pessoal, que os impedem de viver plenamente o amor, quando há, como no caso de Laura (Bella Piero) e Rafael (Igor Angelkorte) ou de Diego (Arthur Aguiar) e Melissa (Gabriela Mustafá).



Num caso e noutro, com sinal invertido, a audiência acompanhou o drama de Laura, que por conta dos traumas de infância se recusava a ter relações sexuais com o marido, e o de Melissa, que inversamente desejava muito fazer amor com um cônjuge que se recusava a tocá-la por considerá-la pura e virginal.

Assim sendo, essa falta de contraponto leva outros tantos telespectadores a se perguntarem por qual motivo não existem casais normais e desencanados em O Outro Lado do Paraíso. Não obrigatoriamente casais perfeitos, de comercial de margarina, mas companheiros de jornada que se amam e se respeitam de verdade e que enfrentam os problemas que surgem no dia a dia de forma solidária. Talvez o único casal que estruture sua relação nesse perfil de amor sincero seja Xodó (Anderson Tomazini) e Cléo (Giovana Cordeiro), recentemente unidos pelo matrimônio. Eles simplesmente se amam e não pedem nada em troca um ao outro.

Parece não ter ficado muito claro, ainda, a forma como Walcyr tentou mostrar em sua novela que casais na terceira idade também podem ser formados e que dessa união pode sim surgir uma genuína estória de amor. Mercedes (Fernanda Montenegro), por exemplo, sempre amou Josafá (Lima Duarte), mas foram separados no passado por Caetana (Laura Cardoso), que também gostava dele. Os dois vivem juntos na mesma casa há anos, porém, nunca ficou evidente se eles de fato se conhecem no sentido bíblico da palavra.

Mercedes talvez jamais tenha cogitado viver em concubinato com o amado. Somente agora, ao se saber viúva, foi que a vidente finalmente tomou coragem para pedir Josafá em casamento. Ele, por seu turno, em vez de se alegrar com o pedido, se aborrece pelo fato de a iniciativa não ter partido dele. Foi preciso a intervenção de Clara para apaziguar o climão criado por Josafá e fazer com que os dois finalmente selassem oficialmente a união.

Curiosamente, na novela "O Casarão", de Lauro César Muniz, levada ao ar pela Globo em 1976, o que se viu foi um diálogo oposto àquele ocorrido entre Mercedes e Josafá. Em uma cena antológica, no final da novela, Carolina (Yara Cortes) marca um encontro com João Maciel (Paulo Gracindo) em uma confeitaria. João por toda a vida foi o grande amor de Carolina. Separados pelos revezes do destino, sem que tivessem tido a chance de viver plenamente aquela paixão juvenil, anos depois, já idosos, grisalhos e desimpedidos, os dois se reencontram. Carolina chega atrasada ao encontro, desculpa-se pela demora e pergunta então ao João se ela o havia feito esperar muito. Ele, sorrindo, responde: “Quarenta anos”. Por machismo, Josafá não reagiu com o mesmo romantismo de João ao “atraso” de décadas de Mercedes.



O fato é que, por alguma estranha razão, Walcyr Carrasco parece não acreditar na possibilidade de uniões que brotam do amor sincero, da admiração, do companheirismo, da cumplicidade e do respeito mútuo entre homem e mulher. Seus casais parecem estar sempre brigando, traindo, envoltos em conflitos de ordem psicológica ou armando alguma cilada para o parceiro.

Amaro: O português surgiu Em O Outro Lado do Paraíso como comprador de esmeraldas e logo fingiu estar apaixonado por Estela unicamente por saber que ela é filha de Sophia e herdeira das minas. Estela, por sua vez, caiu ingenuamente na lábia do rapaz; até descobrir que ele só estava interessado em sua herança. A vidente Mercedes previu que Amaro seria vítima dos próprios sentimentos e agora tudo indica que o moço se apaixonou mesmo por Estela.

Beth: Traiu o marido Henrique com Renan e devido a essa infidelidade teve sua vida desmantelada pelo ex-sogro. Depois que fugiu do Rio para outra cidade passou a se relacionar amiúde com diversos parceiros sem que, no entanto, mantivesse com eles algum tipo de união estável. Ela própria admitiu posteriormente para Henrique que por sentir um grande vazio na alma se relacionou com homens que mal conhecia.

Bruno: Apesar do perfil de bom moço, o delegado honesto de Palmas não tem pulso firme e é facilmente manipulado pela mãe, Nádia, que parece conduzir o destino dele; motivo pelo qual até hoje ainda não se acertou com Raquel. Com Tônia, por outro lado, manteve por anos um casamento no qual a paixão nunca este presente. Teleguiada por Nádia, Tônia sempre enganou Bruno quando o assunto era gravidez. Até que traiu o marido e de fato engravidou de outro homem.

Cido: Era noivo de Irene e amante de Samuel. Relacionava-se com Samuel apenas por interesse e chegou mesmo a explorar o médico em diversas ocasiões. Seu papel era tão somente o de michê. Transar com a ex-noiva, no entanto, segundo ele próprio, nunca foi um sacrifício. Aliás, Cido frequentemente dizia que sempre sonhou em se casar e constituir família. Posteriormente, disse amar Samuel, mas seu relacionamento com o atual namorado é conturbado devido ao convívio na mesma casa com a mãe e a ex-esposa do psiquiatra.

Clara: Parece ter amado verdadeiramente Gael no passado, mas passa a impressão de ser fria e calculista; focada exclusivamente em sua vingança. Não há sinais visíveis de afetividade em Clara; a não ser pelo filho Tomás e pelo avô Josafá. Gradativamente, foi-se tornando praticamente assexuada. Aceitou se casar com Renato não por amor mas antes por conveniência e não ficou claro se em algum momento os dois chegaram a transar. Imediatamente após o rompimento com Renato ela engatou um relacionamento morno com Patrick e vazou recentemente na Internet que pode até ser que a protagonista reate o casamento com Gael no final da novela.

Cléo: Casou-se recentemente com Xodó e os dois parecem ser o único casal realmente ajustado da novela. A moça inicialmente apaixonou-se por Mariano, perdeu a virgindade com ele e pelas mãos do garimpeiro foi levada ao bordel pela primeira vez. Por interesse, Mariano aceitou que Cléo se prostituísse objetivando ajudá-lo financeiramente; mas a avó Mercedes a levou embora de lá. Mais tarde, contudo, Cléo sentiu-se atraída pela agitação do prostíbulo e para lá se mudou de mala e cuia. Apaixonou-se na sequência por Xodó e foi “resgatada” da luxúria pelo namorado simplório, apaixonado e boa gente.



Desireé: Tentou dar o golpe em Juvenal fingindo-se de pura. Cogitou em seguida até a possibilidade de submeter-se a uma cirurgia para voltar a ser virgem apenas para que o “pato” não desconfiasse de que ela já era sexualmente experiente. Descoberta a farsa, a prostituta agora não larga mais o pé de Juvenal e quer fazer crer a todos que se apaixonou de fato por ele.

Diego: Apesar de jovem, mostrou-se retrógrado e preconceituoso ao reproduzir o velho estereótipo segundo o qual há dois tipos de mulheres na vida: as puras, talhadas para o casamento, e as vadias; feitas tão somente para transarem sem compromisso com os homens. Foi pensando assim que se relacionava carnalmente com a prostituta Karina, mesmo sendo noivo de Melissa, e não chegou a consumar o casamento com a jovem esposa, a quem jurava amar, por considera-la pura demais para ser tocada. Diego seria um prato cheio para qualquer divã freudiano. Patologia pura.

Gael: Sempre foi sinceramente apaixonado por Clara e na verdade nunca se interessou muito pelas esmeraldas; embora tenha convenientemente vivido todos esses anos em meio ao luxo e à riqueza proporcionados pela comercialização das pedras. Com Aura, ele sempre viveu uma relação do tipo “entre tapas e beijos”. A moça provavelmente apenas relacionava-se com ele por comodidade ou conveniência. Não somente a agressão física mas igualmente a verbal sempre pontuaram o namoro dos dois.

Gustavo: Suas duas máscaras acabaram finalmente caindo: a de juiz probo e a de marido fiel. Há anos ele vinha traindo Nádia, a esposa, com as moças do bordel. Ultimamente com Leandra. Até Caetana, a velha cafetina, teria sido uma de suas amantes na juventude.

Ivanilda: Essa é outra que, pelo que demonstra, não gosta verdadeiramente de Valdo e nem mesmo se pode chamar de namoro a relação borocoxô dos dois. O garimpeiro está mais para ficante e o interesse da manicure por ele talvez se resuma aos sanduiches, bifes e pizzas que Valdo paga para ela. Ainda assim, Ivanilda sempre reclama da qualidade da comida.

: Aos poucos a máscara de Jô está caindo. Os spoilers dão conta de que em breve ela revelará a Henrique, pai de Adriana, que nunca o amou verdadeiramente e que foram inúmeras as vezes em que ela lhe meteu um belo par de chifres; quando ainda eram casados. Ao lado de Sophia, Jô talvez seja uma das personagens mais interesseiras da novela.


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Laura: Típica adolescente sexualmente reprimida, devido aos abusos que sofreu na infância, por parte do padrasto pedófilo, que somente agora está aos poucos resgatando a afetividade perdida e relacionando-se sexualmente com o marido Rafael.

Lívia: Passou a novela praticamente inteira sendo chamada de promíscua por Gael e Sophia, até se casar com Renato. Dela, a mãe e o irmão diziam que pegava qualquer um; desde que vestisse calças. Apesar de saber que Renato nunca gostou dela de verdade e que havia muito interesse em jogo submeteu-se a um casamento protocolar com o médico. Namora atualmente com o garimpeiro Mariano, gosta sinceramente dele, mas Sophia está entre os dois.

Mariano: Envolveu-se com Sophia, no início da novela, depois com Cléo, por um curtíssimo tempo, e presentemente namora Lívia; a quem diz amar. O garimpeiro, no entanto, nem sempre consegue resistir ao assédio constante por parte de Sophia. Diz amar Lívia com o coração mas seu corpo ainda deseja Sophia. O triângulo está estabelecido. A questão é que o caso dele com Sophia não envolve apenas tesão pura e simplesmente. Também é uma relação de medição de forças, uma vez que ela é sua patroa e ele um garimpeiro experiente; que desfalcaria a equipe das minas de esmeraldas da megera caso fosse demitido. Sophia certamente apenas o enxerga como objeto de desejo. Como alguém que ela pode possuir a seu bel prazer pelo fato de ter poder.

Nádia: A dona do salão de beleza julgava ter um casamento perfeito com Gustavo, o juiz, até descobrir que há anos vinha sendo traída por ele com as prostitutas do bordel de Leandra. Antes disso, no entanto, entre quatro paredes, Nádia protagonizou cenas por vezes cômicas, ao lado do marido, nas quais encarnou todo tipo de personagem, como parte do jogo de sedução, fantasias perfeitamente saudáveis usadas por muitos casais fora da ficção.

Patrick: Talvez seja a definição mais perfeita do que se convencionou chamar de príncipe encantado: bonito, rico, inteligente, bom caráter e disponível. Patrick ama desinteressadamente Clara, quer se casar com ela, e somente agora os dois passaram a formar um casal. O problema é que Walcyr vem dando pistas de que Clara talvez não o ame de verdade e de que talvez possa reatar seu casamento com Gael. A dupla Clarick talvez fosse um bom exemplo de casal bem shippado em O Outro Lado do Paraíso, mas não é certo que o final de ambos seja feliz juntos.

Renato: Revelou finalmente sua face de vilão. Não ama desinteressadamente ninguém e apenas quer se dar bem na vida. Casado no passado com Lívia, sem amá-la, contou com as benesses da então sogra Sophia, que o ajudou profissionalmente. Se tivesse se casado com Clara seu plano era matar a jovem esposa para herdar as minas de esmeraldas. Uniu-se em matrimônio agora com Fabiana somente para ajudá-la a tomar de Clara toda a fortuna da moça e ter participação nos lucros com o golpe. Perfil típico de personagem inescrupuloso.

Samuel: O médico gay inicialmente vivia no armário; até ter sido forçosamente arrancado de lá por Clara. Casou-se com Suzy por conveniência apenas, devido às cobranças da mãe, para que ela não desconfiasse de sua orientação sexual. Mesmo casado, continuou mantendo um relacionamento extraconjugal com Cido; embora até para ele próprio ficasse evidente que o rapaz o explorava financeiramente; com seus pedidos constantes de dinheiro. Os spoilers dão conta, no momento, que Walcyr fará com que Samuel volte para o armário; já que subitamente se descobriu realmente apaixonado pela mulher Suzy.

Vinícius: o delegado pedófilo de O Outro Lado do Paraíso surpreendeu a todos ao confessar no tribunal nunca ter amado verdadeiramente a mulher, a quem chamou de cafona, e de que só ficou casado com ela tantos anos porque sempre foi apaixonado pela enteada Laura, a quem molestou durante a infância.

Leandra: A dona do bordel planejava se casar com o antigo namorado, mas para isso precisou esconder dele que era prostituta, levando o rapaz a acreditar que era apenas proprietária do hotel de Pedra Santa. O sonho de Leandra desmoronou quando Rato, seu parceiro fixo no prostíbulo, apaixonado por ela, contou toda a verdade para o tal marido em potencial; que escafedeu-se em seguida da cidade. Rato teria se casado com Leandra se não tivesse sido assassinado por Sophia, mas num caso e noutro aqueles teriam sido apenas casais cuja união teria sido baseada em mentira e traição.

Rita de Cássia Arruda é Jornalista e reside em Brasília, no Distrito Federal. Faça como ele, envie sua análise, crítica ou reflexão sobre a TV.  Saiba como aqui.



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