Direto da Telinha

"Assédio" merece ser exibida na TV aberta

Série feita para o Globoplay teve seu primeiro episódio exibido nesta segunda (15) na Globo

Fotos: TV Globo/Ramón Vasconcelos

Diogo Cavalcante
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Diogo Cavalcante

Jornalista diplomado, Diogo Cavalcante tem experiência na cobertura de Cidades e Entretenimento. Apaixonado por televisão, se dedica a escrever sobre o assunto desde 2013.

Twitter: @diogo_cc

Publicado em 15/10/2018 às 23:00:47 Atualizado em 03/05/2019 às 23:29:29

Anunciada como “série exclusiva” do Globoplay, a série "Assédio", baseada na história do ex-médico Roger Abdelmassih, condenado por estuprar 37 pacientes entre os anos 90 e 2000 no seu consultório, teve seu primeiro episódio veiculado na emissora nesta segunda-feira (15).

Sensivelmente escrita por Maria Camargo e dirigida por Amora Mautner, a obra merece ser exibida do começo ao fim no canal aberto, ainda que tenha sido concebida para o streaming e, até segunda ordem, esteja restrita a esse ambiente.

Acompanhei todos os episódios no Globoplay e posso dizer que o valor que a série acrescentaria à televisão aberta seria imensurável. É entretenimento que ajuda a refletir; coisa rara atualmente, visto que temos novelas e seriados cada vez mais rasos, com autores reticentes de tocar em assuntos espinhosos. A ficção serve para ajudar a refletir e contribuir - nas medidas da razoabilidade - por uma sociedade melhor.

Redenção de Amora Mautner

Em “Assédio”, vemos Amora Mautner mostrar que continua sendo uma das grandes diretoras televisivas da nova geração, junto com José Luiz Villamarim e Mauro Mendonça Filho. Apedrejada por muitos em virtude do seu comportamento e sumida dos sets desde março de 2016, quando foi finalizada “A Regra do Jogo”, novela das 21h de João Emanuel Carneiro, Amora se redime com essa série.


Amora Mautner e Maria Camargo

O tom documental impresso pela autora Maria Camargo nos primeiros episódios incomoda, por mais que se compreenda ser uma decisão artística. A partir do momento em que as vítimas de Roger Sadala (Antonio Calloni) vão à luta, a narrativa avança. Mas se você pensa que encontra em “Assédio” uma “síndrome de novela”, que tanto afeta séries brasileiras, aí que você se engana: é um dos poucos produtos que se afastam disso, a exemplo de “Mulher” (1998), “A Cura” (2010) e “Dupla Identidade” (2014).

Chama a atenção a atenção no trato das cenas de abuso sexual. Em inúmeras entrevistas, Amora e Maria deixaram claro que houve o cuidado de não “fetichizar”. E é isso que acontece. Além das raras inserções de nudez, em muitos momentos o ato é visto por perspectivas mais insinuadas, sob a ótica da vítima, de forma perturbadora.

Além da feliz parceria de texto e direção, as atuações são fantásticas. Calloni finalmente pegou um personagem à altura do seu talento. Mariana Lima imprimiu perfeitamente a dor de Glória, esposa de Roger que, ao mesmo tempo que descobre os casos de abusos e traições do marido, paralelamente vai sendo definhada por um câncer. Destaque positivo, também, para Elisa Volpatto, como a obstinada jornalista Mira - que os diretores da casa prestem atenção no trabalho desta menina (foto/abaixo).

Função social

A Pesquisa Brasileira de Mídia de 2016, realizada a pedido da Secretaria de Comunicação da Presidência da República, mostra que mesmo cercado de inúmeras opções e plataformas, a televisão continua sendo a queridinha do público. No levantamento, 77% dos entrevistados afirmaram que assistem TV todos os dias – valor esse que aumentou, se comparado a 2015. Naquele momento, 73% admitiram sintonizar diariamente as emissoras.

Estamos em um país que, segundo a edição mais recente do Atlas da Violência, as polícias registraram 49.497 casos de estupros no ano de 2016. Além do fato de 42% das mulheres já terem sofrido algum tipo de assédio, como apontou pesquisa do Datafolha publicada em 2017. Isso porque não se entra no mérito da subnotificação, que são os casos que deixam de ser registrados às autoridades, principalmente, por vergonha e medo das vítimas.

Assim sendo, um produto como “Assédio” veiculado na emissora líder de audiência, aliado à sua qualidade artística, com certeza alcançaria muito mais pessoas que, infelizmente, não têm acesso ou condições de assistir pelo Globoplay. Isso com certeza contribuiria para mais reflexões sobre o assunto.

Para uns, trazer a série para a TV aberta desvirtua o caráter a que foi concebida (exclusiva para o streaming). Mas a sociedade brasileira passa por um momento singular, em que até a própria Globo está aberta à concessões. Que o diga a exibição do filme “Que horas ela volta?” em plena “Sessão da Tarde” durante esse período eleitoral turbulento - fugindo da cartilha de títulos da faixa, mais acostumada a roteiros simples, que envolvem doenças, animais falantes ou romances.


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