As semelhanças e diferenças de "A Força do Querer" com outras novelas de Glória Perez

Autora tem marcas fortes que perduram por várias de suas produções

Fotos: Divulgação/TV Globo

Publicado em 06/04/2017 às 14:07:04

Por: Redação NT com João Paulo Belmok

"A Força do Querer" estreou na última segunda-feira (3) cercada de expectativas. É mais uma trama de Glória Perez, que marca sua volta à TV depois do bem sucedido seriado "Dupla Identidade" e da não-tão bem sucedida novela "Salve Jorge". E já em seus capítulos iniciais, puderam ser percebidas marcas fortes da autora presentes nesta nova produção.

Salta aos olhos, inicialmente, o fato de Glória trazer para o centro das ações desta vez não uma, mas três protagonistas com personalidades bem fortes, apesar de distintas (a “sereia” Ritinha, a batalhadora Bibi e a policial Jeiza, esta ainda não apresentada ao público). Este traço forte é uma característica de muitas das suas produções. Enquanto isso, os mocinhos da história não conseguem a simpatia do público logo de cara. Ou não conseguem nunca, como foi o caso de Bahuan (Márcio Garcia) em "Caminho das Índias".

Esta não é a única marca da novelista presente em "A Força do Querer". Os caminhos entre a fictícia vila de Parazinho e o Rio de Janeiro prometem ser pequenos. De caminhão ou de avião, os personagens não devem demorar muito tempo para se locomoverem de um lugar para o outro (e nem precisam, afinal, é novela). O mesmo acontecia nas pontes áreas que existiam entre Marrocos, Turquia, Estados Unidos e Índia com o mesmíssimo Rio de Janeiro.

Aliás, os costumes locais também têm presença forte nas tramas de Glória Perez. As dancinhas árabes e indianas, o bailado cigano, as expressões turcas, a vida nas cidades de rodeio são exemplos que pautaram novelas como "O Clone", "Caminho das Índias", "Explode Coração", "Salve Jorge" e "América". Agora, entra para a roda a dança agitada do carimbó, ritmo tradicional da região na qual a novela se passa.

Também é público e notório o fato de Glória usar suas novelas para retratar temas que merecem entrar na pauta de discussão dos brasileiros. Desta vez, o principal assunto a ser abordado é o da transexualidade. Ainda que o tema seja nebuloso para a maioria, está cada vez mais em voga (seja em séries ou em reportagens) e a escritora promete tratar com toda delicadeza que a abordagem exige, fruto de muita pesquisa de campo da sua parte. Outros temas que serão também abordados em "A Força do Querer" são, por exemplo, a moda plus size e o vício em jogos. Pode-se tecer comparações com as abordagens sobre dependência química, alcoolismo, psicopatia, esquizofrenia, imigração ilegal, tráfico humano, relações virtuais (em 1995!), barriga de aluguel, entre outras.

A autora também gosta de lançar moda, seja através das roupas das personagens, de acessórios, expressões ou até mesmo de algum modo de vida. Com "A Força do Querer", ela traz para o centro das atenções a prática do sereísmo através de Ritinha (Isis Valverde). Trata-se de algo que vem, já há algum tempo, ganhando espaço nas pautas de moda do Brasil, na qual as meninas se vestem como sereias. Além disso, os cintos de “Donelô” (Dona Helô, Giovanna Antonelli, de "Salve Jorge") dão lugar para, por exemplo, todo o luxo e glamour de Joyce (Maria Fernanda Cândido) e de Silvana (Lília Cabral), além das peças mais populares de Bibi (Juliana Paes). Será que vira tendência?

Mas também há diferenças notórias. A maior, neste primeiro momento, talvez seja a direção. A mão de Rogério Gomes, o Papinha, que assume uma novela de Glória Perez pela primeira vez, é mais forte que a de Marcos Schechtman, que dirigiu as tramas anteriores da roteirista. A marca do diretor, que até pode soar um pouco repetitiva (inclusive no uso dos mesmos instrumentais há alguns trabalhos), consegue se adaptar aos mais diversos autores (nos últimos anos, ele dirigiu novelas de Aguinaldo Silva, de Elizabeth Jhin e de Walcyr Carrasco, por exemplo), não cansa e está lá.

O número de personagens também diminuiu. A abundância no elenco foi muito criticada em "Salve Jorge" principalmente, na qual muitos atores simplesmente foram escanteados durante grande parte da história, já que não havia espaço para todos. A título de comparação, na abertura de "Salve Jorge" foram creditados mais de 80 atores. Na de "A Força do Querer", são 42. Uma grande diferença.

Semelhanças e diferenças à parte, os capítulos iniciais de "A Força do Querer" mostram que esta será uma novela que abusará do direito de ser uma novela. Nos primeiros capítulos, Glória preocupou-se em apresentar, sem pressa, suas tramas e seus personagens sem abusar do didatismo exagerado. Ponto pra autora, que vai nos deixando íntimos dos personagens e das suas histórias. É torcer para que ela consiga manter o público envolvido para que este seja coroado como mais um bem sucedido trabalho.



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