Exclusivo

Globo não quis acordo sobre cota racial em "Segundo Sol", diz representante de movimento negro

Novela enfrentou polêmica sobre falta de atores negros no início de sua trajetória





Roberta Rodrigues, Armando Babaioff, Luís Lobianco e Arlete Salles
Atores posam no Pelourinho, ponto turístico de Salvador

Publicado em 07/11/2018 às 06:00:56

Por: Sandro Nascimento

Não houve acordo entre a Globo e a União de Negros pela Igualdade (UNEGRO), na ação cível aberta pela entidade na 2ª Vara Especial da Fazenda Pública em Salvador, que buscava aumentar o número de atores negros escalados em "Segundo Sol", que chega ao fim na próxima sexta-feira (9).

É o que afirma a socióloga Ângela Guimarães (foto/abaixo), presidente da UNEGRO, sobre a polêmica que marcou os primeiros capítulos da novela de João Emanuel Carneiro, em torno da desigualdade racial no elenco.

Em conversa com o NaTelinha, ela explicou que em julho, o Tribunal de Justiça convocou uma audiência de conciliação entre a Globo e a UNEGRO, na Bahia.

"O que a gente ouviu da Globo foi que 'a empresa Globo não tem interesse em estabelecer algum tipo de conciliação com a UNEGRO'. Deixou a gente completamente em choque. O acionamento na Justiça foi porque uma série de mecanismos anteriores já falharam. O movimento negro, há mais de 70 anos, faz essa discussão, ainda antes da instalação da TV aberta no Brasil, quando os meio de entretenimento eram o teatro e o rádio. Fazemos o questionamento da ausência de obras de autores e autoras negras, ausência de personagens negras e negros. Então, a gente teve como uma força da circunstância recorrer a uma instância judicial para corrigir esse desequilíbrio", lamentou Ângela Guimarães, que também é chefe de gabinete da Secretaria do Trabalho da Bahia.

A ação judicial da UNEGRO exigia que "Segundo Sol" fosse formado por 80% de atores negros. A justificativa da entidade, que atua há 30 anos contra discriminação racial, é que a Bahia, estado que serviu como cenário para o folhetim, era composto por quase essa porcentagem de pessoas negras, segundo dados do IBGE, em 2017.

"Ainda assim, mesmo a gente recorrendo a uma instância judicial, o comportamento da Globo foi de completo descaso com a questão. Eles falaram inclusive na audiência que não reconheciam a justeza da nossa preposição. Eles acham que a televisão, o cinema e os outros mecanismos são obras de livre expressão dos interesses dos autores e que a televisão não estaria submetida a nenhum ordenamento que obrigasse a ter a correspondência com a população de determinados estados. Ou seja, descaracterizaram o objeto da ação. Além, de forma muito arrogante, se colocarem que não topariam uma conciliação. Isso impossibilitou a possibilidade do diálogo entre as partes", completou a presidente da União de Negros pela Igualdade.

Ângela Guimarães também reclama sobre lentidão que a Justiça trata a questão. E afirma que a intenção do processo era corrigir distorções no folhetim das 21h. Dentre algumas ideias propostas foi sugerido a criação de mais núcleos negros que interagissem com o principal e outros que fossem inseridos no conflito central da novela.

"Infelizmente, o que a gente tá vendo é que existe uma lentidão da Justiça no trato dessa questão. Porque é uma obra que tem prazo para começar e terminar. Nesse prazo, simplesmente, não teve outras audiências. Já que não houve a conciliação, deveria partir agora para o processo em si. Ter a decisão dele sobre aquele objeto", destacou.

O NaTelinha apurou que, mesmo sem acordo com a UNEGRO, diante da polêmica em torno da falta de diversidade racial na escalação de "Segundo Sol" em sua primeira fase, o tema trouxe reflexão dentro da Globo. Como consequência deste debate, a emissora escalou as participações de 120 atores negros, além das histórias centrais. A recusa da emissora estaria sendo amparada pela liberdade de expressão artística prevista na constituinte, já que a novela é uma obra de ficção.

"A nossa crítica permanece, por quê? Porque ampliou, mas eles se mantiveram restritos a manutenção e proliferação dos estereótipos, envolvendo a população negra. Então, os negros que entraram não estavam no centro da trama, estavam em núcleos marginais que nem todos os dias apareciam e estavam também reiterando estereótipos. A casa que tinha, que você não sabia exatamente qual era a profissão o pertencimento familiar delas. Eles não tinham uma história pra contar. Eram sempre acessórios dos personagens brancos, que era o caso do ator Chay Suede. Os caras lá estavam tocando violão com o Chay, indo na praia com Chay, indo no Pelourinho com o Chay, não tinham propriamente uma história", relembrou Ângela.

"Outrossim, também fazemos a crítica ao crescimento do personagem do Fabrício Boliveira, que é um excelente ator. Mas que afirma outro estereótipo. O personagem dele foi crescendo na trama a medida do nosso protesto e das nossas reivindicações, mas também, ele era o cara que se tornou um grande bandido desestabilizador de uma família branca em decadência, desestabilizando a afetividade central desse núcleo", explica a presidente da UNEGRO.

Por fim, Ângela Guimarães adianta que a partir do desfecho não satisfatório no processo de "Segundo Sol" com a Globo, essa situação servirá como exemplo para que os movimentos negros tomem atitudes ainda mais agressivas nos casos que se assemelhem com este na TV. "Seremos ainda mais duros, solicitando a retirada do produto do ar, porque ele não tá de acordo com a maioria da população, dentre outras estratégias", promete.

Procurada, a Globo informou que não comenta ações sub judice.



publicidade

TAGS:

LEIA TAMBÉM

publicidade

COMENTÁRIOS

Para comentar na página você deve estar logado com seu perfil no Facebook. Este espaço visa promover um debate sobre o assunto tratado na matéria. Comentários com tons ofensivos, preconceituosos, de propaganda e que firam a ética e a moral podem ser deletados. Participe!