07/06 - COMUNICAR ERRO
Outro Lado: Os Mutantes é trash da pior qualidade
Ah, o trash.
O bom trash, óbvio, é aquele que não se leva a sério. É assim com Hermes e Renato, com os cantores das décadas passadas que são atração nas festas dos anos 80 de hoje, como qualquer atração do canal E!. Junte a isso a camada de legitimidade e originalidade que, latu sensu, dá aquele brilho simpático à qualquer causa.
E existe o trash ruim. O amargo, nesse sentido, existe na relação com a certeza, com a superioridade e a prepotência. Não raro tem aquele opaco de coisa velha, reciclada, copiada.
Em se tratando da novela que é carro chefe da Rede Record fica claro de qual caso se trata. Na atração anteriormente conhecida como "Caminhos do Coração" (queria muito saber que "Caminhos" e que "Coração" eram esses) a melhor coisa é sem dúvida a troca do nome - afinal, é assim que todo mundo chama a novela: Os Mutantes. Vamos poupar os atores de críticas: eles precisam trabalhar e é sadio que exista competição e mercado fora da hegemonia da TV Globo. Fique registrado apenas que o caso mais comum por ali é a gente ter uma certa dó - ou porque a atuação é sofrível, ou porque os profissionais são bons e respeitados demais pra se ver a volta com dentaduras de vampiro e frases que incluem as palavras "velociraptor" e "lobisomem".
A técnica da emissora também fica isenta. A equipe tem se aprimorado e até está se entendendo com a iluminação, sonorização, cenários. Quanto aos efeitos especiais, só eu ou alguém mais notou que eles foram "diminuindo" no decorrer da novela? Poderes escalafobéticos foram dando lugar a coisas bem fáceis de fazer como... invisibilidade, leitura de mentes, hipnose ou outros que limitem-se à raios saindo das mãos dos atores. Num dos capítulos desta semana a aparição de um bebê dinossauro não melhorou a imagem da equipe de efeitos da trama. Era melhor ter escolhido um fantoche de Vila Sésamo.
A equipe tem lá seus méritos e gente respeitável como Alexandre Avancini e Doc Comparato devem ter parte nisso - as cenas de ação às vezes me dão certeza de que, se a novela fosse muda, a coisa seria bem melhor. É quando os personagens abrem a boca que dá vontade de mudar de canal e eu duvido por inteiro dos altos números apresentados pelo Ibope - até que a cena termina. É tudo muito risível. Na missão inglória de assistir mais um capítulo, minha mãe dava gargalhadas a cada lobisomem mencionado. A melhor cena foi em que a mocinha, agora no papel de sua irmã gêmea, surge como uma Kill Bill tupiniquim. Mamãe não entendia porque a moça estava tão cabeçuda. A caracterização, lógico, transformou a boa loirinha numa malvada morena, com um perucão de franja que não conseguiu esconder o volume capilar da atriz.
Os diálogos só melhoram quando entra em cena o elenco infantil. Não pelo talento-mirim, que é sempre aquela coisa meio Raul Gil, mas talvez porque a redação do rocambole é tão tati-bi-tati que só mesmo na boca de uma criança pra funcionar à contento. O triste é saber que o autor, Tiago Santiago, tem agido como se fosse dono do produto mais genial de todos os tempos. Como se fosse todo dele e de sua cachola mágica o mérito de desbancar o primeiro lugar, e mais, como se essa vitória fosse consolidar um novo método de se fazer dramaturgia. Santiago age tal e qual o garoto que comemora ao ganhar algumas partidas de dama do papai e seus amigos, sem saber que na cozinha estão todos rindo do moleque.
Alguém rendeu à atração a mesma profecia direcionada ao Programa do Ratinho: que a moda até assusta, mas é passageira. Entre aberrações e animais, eu sinceramente preferia a volta de Carlos Massa, com seu jeito agradável de ser zoneado sabendo exatamente o que estava fazendo: o velho e bom trash, gostoso de assistir.
Casos
O programa de humor exibido às quintas-feiras pelo TV Globo tem sido razoável termômetro das limitações de elenco pelos quais a emissora vem passando. Semana passada Danton Mello participou de seu terceiro programa com personagem diferente. Ricardo Tozzi também já esteve duas vezes protagonista da atração. Eita!
E Acasos
E Juliana Paes é a próxima a dar atestado de que anda faltando gente. Escolhida a protagonista da nova novela de Glória Perez, a atriz deverá abandonar o papel que acabou de assumir em "A Favorita". Foi-se o tempo que a emissora, além de elenco, tinha planejamento. Chama o Boni!
Bruno Motta é humorista e mandou chamar o Boni porque nesse sábado ele estava na platéia. É sério!