“Trato de dar o máximo de mim mesmo, e rezo pra que os deuses estejam comigo.”
Quem não lesse essa entrevista, jamais iria adivinhar que essa frase humilde seria de Aguinaldo Silva, o único autor da Globo que escreveu novelas somente para o horário das 21h. Num ritmo infernal de escrita, o autor afirma que tem em mãos, com Duas Caras, a responsabilidade máxima de devolver a novela das 21h ao seu trilho de audiência normal.
Com uma rotina de trabalho bastante apertada, Aguinaldo encontrou um tempinho para conceder uma entrevista a Bruno Cardoso para o NaTelinha, sobre sua carreira e, obviamente, sobre Duas Caras. Nessa entrevista, Aguinaldo fala da linguagem popular e atrativa usada em Senhora do Destino, da complexidade e imutabilidade do ser humano, do imenso talento da protagonista, Marjorie Estiano, do seu leque de atrizes de sonho, entre vários outros temas. O resto, você confere ao ler a entrevista:
Senhora do Destino marcou para você um novo jeito de contar uma história, uma história mais urbana, mais real. Porque a decisão de abandonar o gênero do realismo fantástico e dos regionalismos contados em muitas de suas novelas anteriores, como por exemplo A Indomada e Porto dos Milagres?
Aguinaldo Silva: Aos regionalismos eu ainda devo voltar, espero. Um dos meus sonhos, fazer o remake de Tenda dos Milagres, minissérie baseada no livro de Jorge Amado, que eu escrevi em 1985 e ainda hoje é exibida pelo mundo afora. Ao realismo fantástico não volto. E a razão é que percebi um certo cansaço no gênero, que atribuo ao fato de que fantástico mesmo hoje em dia é o que acontece na vida real. Perto dos absurdos que acontecem no dia-a-dia do Rio de Janeiro, por exemplo, a idéia de uma vaca voando, ou de alguém levitando numa obra de ficção se torna banal.
Sua última novela, Senhora do Destino, marcou média geral de 50 pontos e se tornou em um dos enormes sucessos da Globo às 20h, comparável até a O Rei do Gado, de Benedito Ruy Barbosa. A novela também fez muito sucesso em Portugal. Quais os fatores que, para você, justificaram tamanho sucesso e repercussão?
AS: Senhora do Destino, mesmo após a exibição de quatro novelas depois dela, continua sendo a recordista da década: 50.5 de audiência. Pra você ter uma idéia, Paraiso Tropical vai terminar com média de 42. Acho que a novela fez sucesso porque, na medida do possível, tinha uma linguagem altamente popular e inovadora. Eu me matei pra conseguir siso, e Wolf Maya, o diretor, fez o mesmo. Senhora era essencialmente brasileira e dava o maior destaque a uma classe de pessoas que, em geral, não são os protagonistas em uma novela: o chamado povão. Essa novidade foi a causa do seu grande sucesso.
Inicialmente você tinha proposto uma sinopse com o título provisório de É a Educação, Estúpido. Qual era a história dessa novela e porque ela foi alterada para dar lugar à atual Duas Caras?
AS: A história não foi alterada, e o primeiro título era provisório, quase uma brincadeira. Todo o núcleo inicial da novela, o da Universidade Pessoa de Moraes, continua existindo, e terá o maior destaque. E o tema da educação permeia todas as tramas.
Conte-nos um pouco da história de Duas Caras.
AS: São tantas histórias! A principal é a do sujeito, de vida irregular, que dá um grande golpe e, por causa da fortuna que ganha, resolve mudar de cidade, de vida, de nome e de cara. Para não despertar suspeita se transforma no mais honesto de todos os empresários. Está certo de que realmente virou outra pessoa, quando o passado lhe ressurge para cobrar as velhas que ele deve. Mas essa história corre em paralelo com a outra, da criação de uma comunidade horizontal na Barra da Tijuca: é a história da favela.
Numa reunião que você teve com a equipe da novela e com os atores, você disse, e passo a citar, que quase todos os personagens terão duas caras. Além da mudança física do protagonista, Adalberto Rangel / Marconi Ferraço, que outro tipo de mudanças sofrerão os restantes personagens?
AS: Na verdade Duas Caras temos todos nós. Ninguém é linear e igual o tempo todo. Somos bons, somos maus, bem amados, carentes, vitoriosos, ressentidos, invejosos, piedosos. Somos homens, ou seja: seres múltiplos, cheios de contradição. Meus personagens sempre foram assim, e eu quero enfatizar isso agora.
Marjorie Estiano viverá a mocinha, Maria Paula. Numa fase inicial, o personagem sofre um duro golpe, a todos os níveis. Pressuponho que uma das maiores mudanças no perfil psicológico será a dela?
AS: Sim. Ela é uma princesinha, criada numa redoma pelos pais e despreparada para a vida, que perde tudo – casa, fortuna, família -, fica só no mundo com um filho e resolve ir à luta. Ela também muda de cidade e de vida, e recomeça como empacotadora num supermercado no qual, dez anos depois, fez carreira e agora é nutricionista. Eu adoro esse personagem: é a menina ingênua que, por força das circunstâncias, se transforma numa lutadora, uma mulher guerreira.
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