Análise: Como o SporTV virou a maior vítima da guerra entre Globo e CazéTV
Enquanto Globo e CazéTV travam uma verdadeira guerra por conta da transmissão da Copa do Mundo, o SporTV, que sempre foi um dos protagonistas do torneio, fica para trás
Publicado em 23/06/2026 às 07:01,
atualizado em 12/07/2026 às 15:50
Além da busca pelo hexacampeonato, a Copa do Mundo de 2026 está produzindo um fenômeno curioso na televisão esportiva brasileira. Pela primeira vez em muitos anos, o SporTV não está no centro das atenções durante um Mundial, ao contrário de anos anteriores.
Enquanto CazéTV, Globo, SBT e até Galvão Bueno dominam debates nas redes sociais e manchetes da imprensa especializada, o canal esportivo do Grupo Globo aparece cada vez menos nas conversas dos torcedores.
E isso talvez seja a consequência mais interessante da guerra travada entre Globo e CazéTV.
A força da CazéTV
Canal que surgiu em 2022 justamente para a transmissão da Copa daquele ano, a CazéTV nasceu a partir do sucesso das lives de Casimiro Miguel na Twitch e no YouTube. Por trás do projeto está a LiveMode, empresa criada pelos antigos donos do Esporte Interativo, que enxergaram nas plataformas digitais uma oportunidade de competir diretamente com os grandes grupos de comunicação.
De lá para cá, a CazéTV não parou de crescer. Aos poucos, foi acumulando direitos de transmissão importantes, como Jogos Olímpicos de Verão e de Inverno, Campeonato Francês, Campeonato Italiano, Campeonato Brasileiro e, mais recentemente, La Liga, da Espanha, e a Premier League, da Inglaterra, além de uma infinidade de torneios ligados aos esportes olímpicos.
Contrariando boatos recorrentes de que teria participação oculta no projeto, a Globo tenta reagir ao avanço da concorrente. No ano passado, lançou a Ge TV no YouTube, numa tentativa de ampliar sua presença digital. O projeto, porém, ainda está longe de atingir o alcance e a repercussão obtidos pela CazéTV.
Na Copa do Mundo de 2026, a plataforma de Casimiro ocupa uma posição privilegiada. É a única a transmitir os 104 jogos do torneio, incluindo diversas partidas exclusivas de seleções estreladas como Argentina, Espanha e França. No mata-mata, a situação se repete: alguns confrontos importantes, inclusive uma das semifinais, só poderão ser vistos pela CazéTV.
Nova realidade
Após a estranheza inicial e muita discussão nas redes sociais, o público parece ter se acostumado à nova realidade. Os números demonstram isso. A partida entre Brasil e Haiti, por exemplo, mesmo contando com transmissão simultânea da Globo e do SBT, registrou pico de 16,1 milhões de aparelhos conectados na CazéTV, estabelecendo um novo recorde mundial de audiência simultânea da plataforma.
Enquanto parte da internet comemora os resultados da concorrente, a Globo divulga métricas que normalmente não costumava enfatizar. Segundo a emissora, mais de 51 milhões de pessoas acompanharam a vitória brasileira contra o Haiti em seu ecossistema, que engloba TV aberta, SporTV e Ge TV. Desses, 37,5 milhões assistiram exclusivamente por alguma das plataformas da empresa, o equivalente a 56,6% do alcance total da transmissão.
O desgaste do SporTV
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No entanto, existe um ponto que merece atenção nessa disputa. Se a guerra parece ser travada entre Globo e CazéTV, quem mais dá sinais de desgaste é justamente o SporTV.
Criado nos anos 1990, o canal esportivo da Globo dominou esse mercado durante décadas. Em Copas do Mundo, sempre foi referência pela quantidade de conteúdo produzido, pelos debates e pela programação especial antes e depois dos jogos. Basta lembrar da cobertura realizada em 2014, quando o Mundial foi disputado no Brasil e o canal permaneceu 24 horas ao vivo durante todo o torneio.
Desta vez, porém, o cenário parece diferente. Enquanto a mídia especializada repercute diariamente os números da CazéTV e da Globo aberta, quase nada se fala sobre o SporTV. Apesar de continuar registrando audiência e mantendo uma estrutura robusta de cobertura, o canal parece ter perdido protagonismo na conversa pública sobre a Copa.
Nas redes sociais, não faltam críticas aos formatos dos programas e aos debates promovidos pelo canal.
"Eu acho que a maior perda nessa história dos direitos de transmissão não é pra Globo, é pro SporTV. Em época de Copa, eu deixava a TV 100% no SporTV. Jogo, mesa-redonda, tudo lá. Agora eu deixo na CazéTV porque não vou tirar de lá entre os jogos", escreveu o jornalista Luiz Filipe Carneiro no X.
Outro comentário que ganhou repercussão foi publicado pelo perfil Futebol na TV. "A cobertura da Copa no SporTV está uma completa nulidade. Só programa chato, sem repercussão, sem nada que viralize ou paute um debate nas redes. A CazéTV eclipsou completamente o canal pago da Globo. Hoje, ninguém parece ligar muito para o SporTV quando não está passando jogo. E o mais curioso: até a TNT Sports, sem ter os direitos da Copa, está fazendo debates mais interessantes. O Convocados é um programa muito bom", disparou.
A maior parte das respostas a essas publicações foi de concordância, indicando que a percepção não está restrita a um grupo isolado de espectadores.
Desafio
Para complicar ainda mais a situação, existe um outro fator em jogo: Galvão Bueno. De volta às transmissões de Copa pelo SBT, o narrador tem atraído enorme atenção da imprensa e do público, ajudando a dividir ainda mais o interesse dos espectadores e contribuindo para ofuscar o SporTV.
Evidentemente, o canal esportivo da Globo não corre riscos imediatos. Terminada a Copa, voltará a contar com propriedades extremamente fortes, como o Campeonato Brasileiro e diversas outras competições de grande audiência.
Ainda assim, o Mundial de 2026 deixa uma reflexão importante. Pela primeira vez em muitos anos, o SporTV parece não ser o principal destino dos fãs de futebol durante uma Copa do Mundo.
Talvez esse seja apenas um momento passageiro. Talvez seja o início de uma mudança mais profunda nos hábitos de consumo esportivo. Seja qual for a resposta, ela terá que ser dada, o quanto antes, pelo Grupo Globo, que deixará a Copa com a mala cheia de desafios para resolver.