Novelas da Globo foram acusadas de causar miséria e desemprego em Portugal
Não foram poucas as novelas da Globo que fizeram sucesso em Portugal; relembre o caso de algumas que causaram uma catarse no país europeu, como Dancin' Days e Água Viva
Publicado em 27/01/2026 às 17:01
Novela que terminava na Globo há exatamente 47 anos, em 27 de janeiro de 1979, Dancin' Days fez muito sucesso no Brasil em Portugal. No entanto, no país europeu, a trama de Gilberto Braga, também ficou marcada por algumas polêmicas após ser exibida pela emissora estatal RTP.
De acordo com reportagem do Jornal do Brasil de 11 de novembro de 1979, restaurantes, cinemas, teatros e casas de espetáculos de Lisboa ficavam vazias às oito da noite, quando a exibição da produção começava.
O fato deu origem a vários protestos formais feitos por empresas e cooperativas ao canal que exibia a produção estrelada por nomes como Sônia Braga, Joana Fomm e Glória Pires, entre outros, que estava no ar há quatro semanas.
"Basicamente, esses protestos chamam a atenção da RTP para o grave problema que o esvaziamento vem causando, podendo gerar desemprego em massa nas casas de espetáculo atingidas por Dancin' Days", destacou a matéria do JB.
Vasco Teves, que era um dos diretores da emissora portuguesa, foi enfático quando questionado: "E o que podemos fazer? Se tirarmos a novela do ar, o que dirão as donas de casa?", disparou.
O Sindicato dos Cinemas, Teatros, Hotéis e Restaurantes de Lisboa, em memoriais dramáticos, afirmaram que não havia como competir com Dancin' Days, cujo sucesso praticamente reeditava o que ocorrera com Gabriela alguns anos antes. Nesses documentos, falava-se, inclusive, que a novela causava "desemprego e misérias nos lares portugueses".
No entanto, apesar dos protestos, Dancin' Days continuou sendo exibida normalmente em terras lusitanas.
Outros casos
Esse, no entanto, não foi o único caso de novela brasileira que causou uma catarse em Portugal.
A primeira trama exibida naquele país foi Gabriela, de 1975, que estreou por lá em maio de 1977. Em diversas ocasiões, a Assembleia Nacional adiou ou suspendeu sessões para que os deputados pudessem acompanhar a novela, baseada no romance de Jorge Amado, que se tornou um dos livros mais vendidos na época.
Já em 1981, foi a vez de Água Viva, de Gilberto Braga e Manoel Carlos.
A trama era exibida diariamente às 19h30, também pela RTP, obrigando o canal a reprisar os capítulos aos sábados e domingos. Uma parcela dos telespectadores era formada por donas de casa, trabalhadores e comerciantes, que não conseguiram acompanhar a trama no horário original.
Água Viva foi deslocada para a faixa das 22h, gerando uma onda de reações por parte dos envolvidos com teatro e cinema em Lisboa e no Porto.
Com as casas de espetáculo vazias, o então presidente da Associação Portuguesa de Exibidores de Cinema, Castello Lopes, considerou a decisão uma “catástrofe”.
Em entrevista ao Jornal do Brasil, de 20 de junho de 1981, ele alegou que a mudança rompia o compromisso existente entre a empresa pública e os exibidores de filmes. E lamentou não ter sido notificado com antecedência sobre a decisão da RTP. “E agora o que farão os cinemas, os teatros e as casas de espetáculos?”, questionou Lopes, sem resposta.
Apesar das reclamações, a novela foi exibida na nova faixa até o final.
Para completar, em 1994, o remake de A Viagem também teve êxito, mas com uma polêmica: transmitida pela SIC, a trama de Ivani Ribeiro foi acusada de incentivar dois suicídios e de perturbar crianças.
Por outro lado, a trama ajudou Lisboa a sediar, em dezembro daquele ano, um congresso internacional de Espiritismo, que não era realizado desde 1925.