Nunca mais: após escândalo, Globo apagou novela que chocou o público
Novela de Janete Clair que estreou há 45 anos, Coração Alado exibiu cenas polêmicas, envolvendo estupro e masturbação, chocou o público e foi apagada pela Globo
Publicado em 13/08/2025 às 09:21
Se atualmente alguns temas abordados em novelas geram polêmicas, imagine uma trama que mostrou temas como estupro e masturbação no início dos anos 1980. Esse foi o problema de Coração Alado, de Janete Clair, que escandalizou a sociedade brasileira na época e fez a Globo sumir com um capítulo da produção, posteriormente apagando quase todas as fitas.
A novela estreou há 45 anos, no dia 11 de agosto de 1980, com direção de Roberto Talma e Paulo Ubiratan. O protagonista era Tarcísio Meira, que vivia Juca Pitanga, um artista plástico nordestino que vai para o Rio de Janeiro em busca de reconhecimento profissional. Ele se dividia entre o amor de Catucha (Débora Duarte) e Vivian (Vera Fischer).
Estupro
No meio da história, foi exibida uma cena de estupro envolvendo Vivian e Leandro, personagem de Ney Latorraca. Leandro se aproveitou de uma viagem de Mel (Joana Fomm) para atacar Vivian, sua cunhada. Ela engravidou e o público não sabia se o filho era de Leandro ou de Juca. Vivian pensou em aborto, mas desistiu da ideia. Ao ter seu filho, o abandonou, mas se arrependeu e foi em busca de recuperar sua guarda.
Ao jornal O Globo de 28 de setembro de 1980, Janete Clair contou que o momento em que Vivian foi violentada pelo cunhado era decisivo para a novela. “A partir desse fato, as emoções começam a se suceder. O que aconteceu com Vivian vai servir de fio condutor para o surgimento de muitas coisas novas”, explicou.
A autora também contou que criou a cena baseada em uma carta que recebeu, muitos anos antes, de uma telespectadora. “Recebi uma carta de uma moça simples, que foi atacada sexualmente pelo cunhado. O que ela me contou era fantástico, tão triste, que resolvi aproveitar na novela. Guardo essa carta comigo até hoje. Como Vivian, chega até a pensar em aborto. Mas, por uma questão de formação, leva a gravidez adiante e tem a criança. Esse filho é a saga da personagem e dará um novo rumo à novela”, concluiu.
Maria Helena Dutra, no Jornal do Brasil de 12 de outubro de 1980, criticou a cena do estupro. “A famosa cena seria até bem feita se não fossem os atores selecionados para o evento. Vera Fischer não tem o menor cacoete de indefesa criatura e é bastante mais atlética do que o frágil violentador Ney Latorraca. Qualquer cotovelada no plexo solar encerrava o assunto”, disse.
Masturbação com áudio vazado

Coração Alado também foi a primeira novela a exibir cenas de masturbação, através de uma cena quase explícita de Catucha. Para piorar, a sequência foi levada ao ar com um áudio vazado, no qual o diretor Roberto Talma orientava a atriz sobre como se comportar durante a situação.
Para se ter uma ideia do escândalo gerado, logo após a exibição do capítulo 171 a fita foi apagada e sumiram do arquivo da emissora todas as cópias do script.
Apesar de ter engrenado e conquistado boa audiência após patinar no começo, Coração Alado não deixou saudade para a Globo, que nunca reprisou a trama e posteriormente apagou sua versão integral. Foram preservados apenas seis capítulos (os dois primeiros, dois do meio e os dois últimos), disponibilizados através do Projeto Resgate do Globoplay em janeiro do ano passado.