Memória

Matou 100 personagens: Globo usou terremoto para salvar novela que estreava há 58 anos

Fracassada novela exibida entre 1967 e 1968 pela Globo, Anastácia, a Mulher Sem Destino ficou marcada pelo terremoto criado por Janete Clair para tentar salvar a trama


Leila Diniz em Anastácia, a Mulher sem Destino
Leila Diniz em Anastácia, a Mulher sem Destino

Há exatamente 58 anos, no dia 28 de junho de 1967, a Globo colocava no ar uma novela que não fez sucesso, mas acabou ficando marcada para sempre na história da emissora.

Estamos falando de Anastácia, a Mulher Sem Destino, cuja trama passou por um terremoto criado para dizimar a maior parte dos personagens e recomeçar a história do zero.

Fiasco

A produção estreou quando a Globo tinha apenas dois anos de existência. Era a época das novelas de capa e escapa, com histórias rocambolescas, supervisionadas por Glória Magadan. Escrita pelo ator Emiliano Queiróz, o eterno Dirceu Borboleta de O Bem Amado (1973), Anastácia era baseada no folhetim francês A Touti Negra do Moinho.

A história se iniciava na Rússia após o fim do czarismo. Anastácia, vivida por Leila Diniz, é uma moça pobre que ignora quem é seu pai. Posteriormente, descobre que é a filha caçula do último czar russo, Nicolau II. A trama era ambientada em uma ilha vulcânica das Antilhas, onde Anastácia se refugia após a descoberta de seu passado, escondendo sua identidade.

O público não entendeu o enredo, confuso e longe da realidade brasileira, o que era comum nas atrações daquela época. Além disso, existiam muitos personagens, o que dificultava o desenvolvimento da história.

Rose Esquenazi fez uma reportagem sobre os acontecimentos da novela no Jornal do Brasil de 16 de julho de 1994. "No capa e espada de Emiliano iam entrando todos os amigos desempregados e conhecidos que pediam uma forcinha. Só que, com tanta gente na trama, o autor acabou se confundindo e ninguém, muito menos o público, conseguiu entender a história", relatou a jornalista.

Mudança

Matou 100 personagens: Globo usou terremoto para salvar novela que estreava há 58 anos

Com os baixos índices de audiência e muitas reclamações através de telefonemas e cartas, a emissora teve que tomar uma atitude: afastou Queiróz e chamou Janete Clair (foto acima) para dar um jeito. Já reconhecida naquela época, até então escrevia novelas para as rádios Nacional e Tupi.

A autora, em seu primeiro trabalho na Globo, criou um terremoto na ilha, eliminando mais de 100 personagens. Na entrevista ao JB, Dias Gomes, que era casado com Clair, disse que leram juntos os 50 primeiros capítulos e ficaram pensando no que iam fazer.

"Brincando, dissemos que precisávamos colocar uma bomba para acabar com aquela gente. Como a trama se passava numa ilha, achamos que um terremoto seria mais adequado", comentou.

A partir daí, a história de um salto de 20 anos, recomeçando com apenas sete personagens, entre eles Ênio Santos, Miriam Pires, Henrique Martins e Leila Diniz, que, além de Anastácia, acumulou o papel de filha da protagonista.

A audiência subiu, a novela terminou no dia 16 de dezembro de 1967 e Janete Clair ganhou a confiança dos diretores da emissora, sendo contratada em definitivo.

Shopping

Matou 100 personagens: Globo usou terremoto para salvar novela que estreava há 58 anos

Muitos anos depois, em 1998, Sílvio de Abreu usou tática similar em Torre de Babel. A novela, que estreou dia 25 de maio daquele ano, não foi bem aceita pelo público, que estranhou, por exemplo, Tony Ramos vivendo um violento presidiário, e os índices despencaram.

O autor agiu rápido. Já prevista na sinopse, a explosão do shopping center onde se passava boa parte da trama foi utilizada para eliminar alguns personagens não aceitos pelo público, como o dependente químico Guilherme (Marcello Antony) e o casal de homossexuais Rafaela (Christiane Torloni) e Leila (Silvia Pfeifer). Agenor (Juca de Oliveira) também foi dado como morto, mas voltou no fim da trama.

A partir daí, com história mais leve e focada no humor e romantismo, Torre de Babel engrenou e terminou como mais um sucesso da Globo.

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